NÃO POR ACASO:


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Original: Idem
País: Brasil
Direção: Philippe Barcinski
Elenco: Leonardo Medeiros, Rodrigo Santoro, Letícia Sabatella, Rita Batata, Branca Messina, Cássia Kiss e Graziella Moretto
Duração: 0 min.
Estréia: 07/06/07
Ano: 2007


"Não por acaso": Barcinski e o determinismo


Autor: Marcelo Lyra

“Não por acaso” é o primeiro longa do diretor Philipe Barcinski, um dos mais premiados curtametragistas brasileiros. O filme tem no elenco Leonardo Medeiros, Rodrigo Santoro e Letícia Sabatella. Barcinski trabalha a questão do determinismo, utilizando dois personagens paulistanos parecidos, que enfrentam problemas semelhantes. Rodrigo Santoro faz Pedro, um marceneiro especializado em mesas de sinuca (também um excelente jogador), cuja namorada morre atropelada. Leonardo Medeiros faz Ênio, um controlador de trânsito, que perde a ex-mulher num acidente de trânsito. Eles nunca se cruzam, embora, ao final, a ação de um interfira indiretamente na vida de outro.

Barcinski equaciona o quanto podemos interferir em nossos destinos e o quanto essa sensação de controle é abalada quando o acaso surge e literalmente atropela as convicções. Os dois personagens têm absoluto controle de seus meios. Pedro sabe exatamente como dispor as bolas na mesa de sinuca e Ênio controla o trânsito da cidade, monitorando cruzamentos por câmeras e definindo por rádio o remanejamento do tráfego; mas não têm controle sobre o destino. Se a namorada de Pedro tivesse saído dois segundos antes, não teria sido atropelada. Se Ênio tivesse feito uma alteração no tempo de duração dos semáforos, o carro de sua ex-mulher não teria batido.

Depois dos acidentes, os dois procuram reconstruir suas vidas, mas são afetados pelo trauma das perdas. Pedro se envolve com outra mulher e Ênio, um solitário, reluta em aceitar o convívio com a filha adolescente. Novamente, o inesperado (o trauma) interfere no pretenso controle da vida que ambos pensam ter.

A montagem de Márcio Canella é muito hábil em contrapor os dois universos, alternando-os à medida em que as situações fora de controle vão afetando os personagens, conduzindo-os rumo a situações-limite. Como pano de fundo, a metrópole paulistana e suas ruas sempre prontas para o caos. Nesse ponto, o perfil dos personagens se separa. Pedro habita interiores, seu drama se desenrola quase sempre entre quatro paredes. Ênio, por seu turno, vive o cotidiano das ruas. Mesmo em sua crise, passeia pelas ruas com a filha que tenta tirá-lo do torpor. A cidade surge nos monitores do departamento de trânsito e no cotidiano de Ênio.

Não deixa de ser interessante comparar “Não Por Acaso” com “Os 12 Trabalhos”, de Ricardo Elias, que também circula pelas ruas da cidade ao retratar o cotidiano de um motoboy. Nesse caso, o filme de Elias leva uma pequena vantagem, por construir uma dramaturgia mais universal, na qual a questão social é muito mais presente e o cotidiano da cidade interage mais com o personagem. No filme de Barcinski, o cotidiano é causa, enquanto no de Elias, é conseqüência. Os “12 Trabalhos” também é determinista. Logo de início, vaticina: “dependendo da região em que você nasceu, seu destino já está traçado”. Todos os personagens sonham com uma ascensão social que a narração em off mostra que é improvável.

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