INESQUECÍVEL:


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Original: Inesquecível
País: Brasil
Direção: Paulo Sérgio de Almeida
Elenco: Murilo Benício, Caco Ciocler e Guilhermina Guinle.
Duração: 90 min.
Estréia: 01/06/2007
Ano: 2007


Filme noir póstumo


Autor: Fernando Watanabe

O dilema frente ao qual nos encontramos está entre entender “Inesquecível” em seu projeto ou julgá-lo rapidamente pelo resultado que sentimos na tela. Menos cômodo é se esforçar para não tomar essa decisão excludente e, ao contrário, conjugar ambas as opções de análise, mesmo já sabendo que a abordagem do resultado é sempre mais precisa em um texto “crítico”.

Pois bem, estamos diante de um filme pensado como um produto comercial que busca uma grande comunicação com um público vasto, vide sua estratégia de divulgação via Globo filmes e sua exibição em salas multiplex de shoppings centers. No elenco estão escalados nomes já bem reconhecidos principalmente por trabalhos em televisão (Murilo Benício e Caco Ciocler). O próprio título é um adjetivo sedutor que, grifado num cartaz que mostra uma Guilhermina Guinle bela e atraente, completa o apelo para que se assista ao filme. Interessantíssimo é que, tanto quanto um produto “popular” com toques de autor, “Inesquecível” é um projeto de produtor (a), o argumento foi desenvolvido pela produtora Mariza Leão em conjunto com o diretor Paulo Sérgio de Almeida. A filmagem evidentemente é controlada pelo roteiro em esquema clássico de causa/conseqüência que visa contar uma história envolvente, mais do que expressar idéias cinematográficas. Um filme que possui várias características estimulantes se pensarmos que é o tipo de filme que o Brasil deveria produzir mais, ou seja, em larga escala. Porém, a conjuntura do cinema nacional atual traz pouco – ou nenhum – otimismo para aqueles que ainda acreditam que uma indústria cinematográfica forte pode se armar em pouco tempo, e os motivos para isso são muito complexos.

Se o que determina a priori o sucesso desse filme são os números de bilheteria, então já antevemos o fracasso. Mas não podemos nos limitar a isso enquanto análise crítica, então devemos nos esforçar para buscar qualidades estéticas na obra. Uma busca sem sucesso. Então, o que resta? É ver as características estéticas (tanto as boas quanto as más) que resultam na não conquista do público – obviamente o filme ser esteticamente pobre não é o único motivo do naufrágio comercial do filme, assim como se ele fosse artisticamente valoroso também não garantiria nada em retorno financeiro. Há sempre a impressão de que tudo o que se passa diante de nossos olhos já foi visto, e já vimos melhor. A trama: a amizade sem graça entre dois homens é abalada por uma mulher, o que leva a todos a um final trágico (sim, suicídios). O problema não é que a trama seja velha, mas que a forma com que isso é feito seja tão descuidada. Se a opção é a de contar uma história envolvente, a solução seria adotar a transparência clássica na linguagem. Não poderia haver um diálogo agradável entre Guilherme e Laura ainda no início do filme, passado numa bela tarde de sol em Buenos Aires, filmado com uma câmera na mão fortemente tremida, quando tal cena deveria revelar o mínimo possível a presença da câmera. Nas cenas de conversas internas (restaurantes, bares, salas) não deveria haver uma montagem de pouco critério que se preocupa em “dar ritmo” à cena alternando planos e contra-planos de forma mecânica. A angulação da câmera também poderia ter sido trabalhada de forma mais “correta” o que evitaria que os cortes entre planos médios e planos próximos rangessem frente aos nossos olhos. Nenhum problema em se fazer o feijão com arroz, tais cenas internas são filmadas em esquema de planos gerais de cobertura mais planos e contra-planos dos atores falando. O que decreta a falência disso é o seu mau uso, que arruína uma trama já em si pouco interessante. Mesmo o roteiro – que é sempre evidente a ponto de artificializar situações que deveriam ser “naturais” – demonstra desconfiar piamente da inteligência do público ao explicar e dar motivos pra tudo, recorrendo a coincidências que dificilmente convencem: o fato da menina vista no rio ser a mesma mulher que aparece anos depois, Guilherme ter tido um caso “sem querer” com a mulher de seu amigo que mora em outro país, e por aí vai. São coincidências que claro, podem acontecer na vida, por que não. Agora, para que isso seja crível num filme, os fatos não podem ser simplesmente alinhados um atrás do outro com afobação e sem nuances algumas. Não há personagens secundários, e os personagens principais não fazem nada, absolutamente nada além daquilo que as ações essenciais do roteiro os manda fazer.

A cena mais bem executada curiosamente é o filme dentro do filme que se passa no final depois que Diego já morreu e deixou um filme póstumo. Por que? Talvez porque esse filme dentro do filme não se leve tão a sério quanto o filme em si. O mini-filme de Diego se parece com uma paródia ao gênero noir, com uma estilização visual gritante e farsesca, e os momentos em que ele olha para a câmera dão essa consciência e distanciamento que devemos ter desse “meta-cinema”. Talvez seja o que faltou no filme em si: confirmar a consciência e segurança que a voz em over no início estimula: “este não é um filme como muitos outros, onde o final é sempre feliz”. Após 80 minutos “descobrimos” que o final é trágico, e infelizmente, isso é muito pouco para justificar o tempo que se passa dentro da sala e o ingresso que se pagou para assisti-lo.

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