HISTÓRIAS DO RIO NEGRO:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Luciano Cury
Elenco: Documentário.
Duração: 86 min.
Estréia: 01/06/2007
Ano: 2006


As férias do Dr. Dráuzio


Autor: Érico Fuks

O premiado documentarista Eduardo Coutinho fez escola, e isso é um bom sinal para o cinema brasileiro. Em seu recente trabalho, “O Fim e o Princípio”, abre-se um contato com uma das propostas mais radicais do gênero, muito mais voltada para a experiência do cinema, pura e sem amarras, do que para a comprovação de teses amparada em relatos testemunhais. Sem saber exatamente aonde se queria chegar, e se iria conseguir terminar seu filme (havia a probabilidade de não se achar as pessoas que a equipe estava procurando), o filme e seu eterno devir passam claramente a noção carpe diem de registrar aquilo que se encontra no decorrer do percurso, ficando ao trajeto a incumbência das surpresas. Essa proposta fora do mapa, desprovida dos astrolábios de um onisciente patrocinador de querer traçar itinerários e controlar o acaso, é tão saudável quanto necessária nos dias de hoje. O documentário brasileiro corre o risco de adoecer se continuar trilhando por verdades embasadas por relatórios policiais, imagens de arquivo ou qualquer outro tipo de comprovação forense segura.

“Histórias do Rio Negro”, longa de estréia do diretor Luciano Cury, tem mais ou menos essa ambição e procura navegar por incertezas semelhantes. O Dr. Dráuzio Varella, em suas viagens anteriores, ficou encantado com um trecho da região amazônica, na sua opinião uma das mais bonitas do mundo. Como o próprio nome sugere, é indescritível a beleza natural do reflexo escuro das águas. Daí houve a idéia de se documentar a calmaria dessa negritude, antes que esse patrimônio divino e intocado se transforme numa usina ou seja tomado por pousadas, quiosques e turistas. Filmado em 2005, “Histórias do Rio Negro” colhe amostras de uma viagem que começa em São Gabriel da Cachoeira e vai até Manaus, a bordo do barco “Escola da Natureza”. Em um trajeto de 1.100 quilômetros, o Dr. Dráuzio escuta as histórias ingênuas e espontâneas dos nativos que habitam as suas margens. Nesse fim de mundo, o filme assume o contato próximo com o princípio do mundo, buscando as origens e os primórdios de uma civilização semi-indígena que não consta nas estatísticas sociais. Tudo muito livre e solto, mas sem desleixos. Aqui o médico abandona seu avental branco e seu estetoscópio e entrega-se às descobertas protozoárias de um organismo cru, sem fazer reflexões analíticas ou reiterar conceitos pré-organizados. Engana-se quem pensa que, por se tratar de Dráuzio Varella, vai se deparar com coleta de material para o Fantástico, anotações de depoimentos de presidiários ou pesquisas médicas para a cura da malária.

Embora o desprovimento do rigor histórico e científico seja um avanço, o filme tem alguns senões. É a estréia do diretor no concorrido mercado do cinema nacional, onde o circuito é pequeno e os preconceitos são grandes. Cury faz seu ritual de desvirginar a mata e seu portfólio cinematográfico, com todas as inseguranças decorrentes dessa missão jesuíta. Existe uma preocupação em acertar, em fazer seu gol de bicicleta no primeiro minuto de jogo, que é maior do que a fluidez despojada do passeio de barco e dos achados narrativos. A câmera alta do início do filme que percorre a imensidão das águas e da floresta tenta se afirmar como uma necessidade de que Cury não está pra brincadeira, mas diz mais da imagem em si mesma do que dos entornos intimistas do filme. Ainda existe um residual enganado de que o filme brasileiro é forte quando sobrevoa paisagens e acerta no figurino de época. Nada disso. Essa cena inicial, com todo seu inerente distanciamento do objeto, destoa do retrato próximo e relativamente caseiro do interior selvagem. A trilha incidental é outro tropeço. César Camargo Mariano pode ser competente nos arranjos e um grande nome que projeta o país no exterior, mas nem “Fitzcarraldo” foi tão ambicioso ao colocar orquestra sintetizada nas correntezas tupinambás. Não bastassem os excessos sonoros sobrepostos a um ambiente naturalmente silencioso, e uma insistência desnecessária em provocar reações com tons e semitons, a presença de uma camada musical em documentários é um artigo questionável. Se a busca da verdade é uma premissa, tal qual ela foi concebida, ainda que o recorte desse material é o que dá subjetividade à coisa, a inserção de uma condução rítmica com cara de legenda é um equívoco. “Histórias do Rio Negro” não pede essa colonização cinematográfica. Dr. Dráuzio e equipe estão como espectadores dessa encenação afluente, e é justamente a não-intervenção receptiva que dá brilho a esse trabalho. Passada a grande vontade de Cury tossir seu pigarro no meio do espetáculo, o resto flui que é uma beleza. O diretor tem consciência de que seu papel não é sócio-político, ele não está ali para chamar a atenção do mundo com pregações ecológicas nem adentrar a espessura dos verdes aveludados como se entra numa favela para registrar sua denúncia. Rio Negro é um passeio, não uma expedição. Essa percepção de que a floresta amazônica é apenas o colírio que vai colorir seu álbum de fotografia é o que traz naturalidade ao filme. Mais do que isso, o barco corre o risco de afundar.

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