TRANSYLVANIA:


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Original: Transylvania
País: França
Direção: Tony Gatlif
Elenco: Asia Argento, Birol Ünel, Amira Casar, Marco Castoldi, Alexandra Beaujard.
Duração: 103 min.
Estréia: 01/06/2007
Ano: 2006


Gatlif: o cineasta que tenta vender sua música.


Autor: Cid Nader

“Transylvania” – Gatlif: o cineasta que tenta vender sua música. A Romênia tem tomado de “assalto” o mercado internacional, nos últimos tempos, com uma cinematografia nova, intrusa, que tenta desvendar um país marcado no inconsciente geral como terra ligada a um pitoresco modo cigano de ser. Nessa nova leva de filmes que têm elevado o país nas bolsas de apostas dos grandes festivais internacionais – só para citar um exemplo, “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias”, de Cristian Mugiu, foi o vencedor do recentemente terminado Festival de Cannes -, quando se trata o assunto, nunca é de modo a lembrar que o país “sobreviveria” deles como atração turística; muito mais comum perceber que esses novos realizadores tratam de um país empobrecido (mas que sobreviveu) pelos duros, longos e exploradores tempos do ex-ditador Nicolae Ceausescu, e de como o país está inserido na Europa atual, rica e moderna.

O diretor Tony Gatlif é argelino, de origem cigana, e radicado na França. Tem insistido bastante, em sua filmografia, no trato do assunto “ciganos” – já havia se tornado conhecido aqui em São Paulo, no longínquo 1997 com “Estrangeiro Louco” (apesar de já estar na praça desde 1975) – mote, também, de seu filme anterior, “Exílios”, que é retomado de alguma maneira em “Transylvania”. Quando digo “de alguma maneira” é porque até existe diferenças estruturais na idéia de seus filmes: em “Exílios”, a protagonista principal vai à Argélia ancestral em busca de suas raízes e encontra sua origem através dos ritos, danças e músicas; em “Transylvania”, a procura da italiana Zingarina (Asia Argento) – que mora na França -, grávida, é mais mundana, mais próxima, já que ela chega à Romênia em busca de um ex-namorado músico que teria voltado para sua terra por conta de uma deportação. Quando digo de alguma maneira, é porque, a impressão que vai ficando mais nítida com o avançar da carreira do diretor, é que ele está construindo uma obra em prol da divulgação da cultura cigana.

Tentando dar um significado mais orgânico aos dois parágrafos iniciais: essa insistência em fazer de seus filmes espécie de relicário cultural de um povo – quando ele investe fortemente (mas fortemente mesmo) na música, ou exibe ostensivamente signos e vestuários – faz com que os filmes “romenos” de Gatlif não compactuem com a produção verdadeiramente nativa da atualidade e pareçam fazer mais parte da vertente folclórica (pitoresca) que sempre dominou o imaginário do estrangeiro; amparado nessa espécie de muleta atraente, Tony cria histórias que tentam aparentar sim ter origem diferentes em suas concepções, mas acaba descambando esses assuntos para uma vala que prioriza sempre a overdose de elementos “encantatórios”, se deixa soterrar pelas músicas, ou pelos gestos “teatrais” de uma cultura que é utilizada para criar o impacto fácil.

Zingarina vai à Romênia para mostrar-se grávida ao responsável pela paternidade. Procura pelo músico que namorou, acompanhada da amiga Marie (Amira Casar) e de uma tradutora. Passa por reveses nessa procura, e sai do prumo, enveredando por uma “bad-trip”, regada a muita música típica - acelerada – e alguma música italiana, de quebra. Entra pelo interior de uma Romênia “típica” que tem sido desmentida ou não utilizada pelos realizadores atuais. É levada a esse interior pelas mãos de Gatlif que parece, no fundo, estar sempre tentando vender o mesmo produto. Os fãs do diretor o consideram essencial. A mim, seus trabalhos sempre pereceram obras bastante digeríveis (e somente isso), com um apelo junto ao público muito facilitado. Mas não pela essência que deveria emergir de dentro do texto, por alguma revolução estética, ou por verdadeiras e convincentes buscas – citando novamente, das origens, em “Exílios”, ou do amor, em “Transylvania” (mantendo-me somente nesses dois exemplos mais recentes.

Ouvi ataques sutis a esse filme que estréia, partidos de adoradores do anterior. Ouvi que acusavam-no de ser mais superficial, mais “musical”. Mas não consigo ver diferenças tão óbvias. Imagino os dois filmes – e aí poderia estender minha opinião ao que conheço da obra do diretor – oriundos das mesmas intenções, e realizados com os mesmos “truques”. O trabalho de Tony Gatlif sempre me passou a impressão de ser criador de um cinema que tenta atingir o público pelos caminhos do folclore cigano. Já me encantou, não encanta mais. E ninguém será capaz de fazê-lo denso para mim; ou mais atraente pelo que discute do que pelo que oferece musicalmente.

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