EXTERMÍNIO 2:


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Original: 28 Weeks Later
País: Inglaterra
Direção: Juan Carlos Fresnadillo
Elenco: Robert Carlyle, Rose Byrne, Catherine McCormack, Harold Perrineau, Imogen Poots, Garfield Morgan .
Duração: 99 min.
Estréia: 01/06/2007
Ano: 2007


Fresnadillo 2


Autor: Érico Fuks

Não dá para não fazer uma associação entre o cinema de gênero dos Estados Unidos e o momento político do país. Filmes de terror, invasão alienígena, perseguição de mortos-vivos, são um prato cheio para conotações sociológicas e metáforas belicistas às vezes subliminares, às vezes tão claras quanto os raios da bomba de Hiroshima. Todavia, a constante associação generalizada entre um material ficcional futurista, apocalíptico ou não, e a verve militar e prepotente dos Estados Unidos pode cair em simplismos ou esvaziar o discurso. Não é o caso de "Extermínio 2", segundo longa-metragem do espanhol Juan Carlos Fresnadillo e tendo Danny Boyle na produção executiva. A cena inicial, com câmera nervosa e cortes rápidos em ambiente fechado e escuro, mostra um grupo de pessoas numa casa abandonada, teorizando se os enlatados disponíveis seriam suficientes para todo mundo. Parece situação de holocausto. Estão todos tensos, apreensivos. Não há exatamente uma introdução ou apresentação de personagens. É como se o diretor entrasse na casa pra filmar um momento já iniciado. Um menino bate à porta, desesperado, dizendo ter corrido bastante dos inimigos, "um monte deles" nas palavras do garoto. Aí sim as criaturas estranhas invadem o ambiente. Seres taquicárdicos vindos de algum filme de Romero, zumbis cheirados, vampiros que antes passaram por uma rave de "Trainspotting". Don (Robert Carlyle) consegue fugir dos canibais alucinados em um barco e, sentindo-se impotente para salvar sua esposa e os demais abrigados, olha triste para aquelas pessoas, mera carne humana. Corta para o lettering que contextualiza o intróito: a Grã-Bretanha está de quarentena. Dias depois do alarme, o vírus tomou conta da população inteira, que morreu de fome. Seis meses depois, o exército dos Estados Unidos tem a missão de invadir o país para exterminar a praga e repovoar o território trazendo de volta os refugiados. Qualquer semelhança com o Afeganistão é um pouco mais do que mera coincidência. "Destruir para reconstruir" parece ser o lema da primeira potência ocidental. Outra questão adjunta que também toca no âmbito sócio-geográfico é o país em vista. De colonizados, os Estados Unidos passam a colonizadores. É vez dos norte-americanos darem o troco e reorganizarem o Continente Velho destroçado, inabitável, ermo e inóspito.

Irônico ou vingativo, o filme deixa essa interpretação em aberto. A porção parodística deste trabalho está nas brechas, nas entrelinhas. "Extermínio 2" não se sustenta carregando bandeiras partidárias ou tomando o sarcasmo como fio condutor. O close das imagens ilustradas de algumas caras do império britânico, em algum parque de diversões desabitado ou monumento em destruição, culminando com o desenho do Príncipe Charles, é sim um paralelo apológico à decadência da família real, do sistema cheio de salamaleques decorativos e de um primeiro-ministro que apoiou Bush e está pagando as conseqüências. A nobreza do sangue azul está estampada em algum brinquedo onde não há ninguém brincando. Os elisabetanos estão sorrindo, como palhacinhos, e essa caricatura é o máximo que sobrou deste regime secular. Mas Fresnadillo não exagera nas sacadas cartunísticas nem retrata os carnívoros hipercinéticos de modo zombeteiro. Há um chiste aqui e ali, uma pausa para respirar diante do terror implementado e da carnificina sem controle.

Apontado este ano como uma promessa numa lista de 10 diretores a ser observados, feita pela Variety, Fresnadillo mostra que tem pulso firme para segurar o extermínio. Ele consegue não se contaminar por leviandade dos modismos estilísticos, nem montagens frenéticas. Não descamba para o pejorativo "terrir", mas também não se leva demais a sério para cair em pieguices que o gênero apronta. Os mais céticos poderiam dizer que essa continuação é um amontoado de clichês. Mas hoje em dia, o que é clichê?

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