HOTEL RUANDA:


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Original: otel Rwanda
País: EUA / Itália / África do Sul
Direção: Terry George.
Elenco: Don Cheadle, Desmond Dube e Hakeem Kae-Kazim
Duração: 122 min
Estréia: 19/08/2005
Ano: 2004


Uma história importante, narrada sem muita ousadia.


Autor: Cid Nader

O filme “Hotel Ruanda” causa duas frustrações a quem se desloca até uma sala de cinema para assisti-lo. Uma delas vem com a constatação do quão passivos, ou omissos, ou covardes podemos ser nós, quando, ao invés de nos mobilizarmos, gritarmos, ou “sei-lá-mais-o quê”, preferimos optar por fechar os olhos e tampar os ouvidos ante uma situação extrema de violência, de desamor - no caso, aqui, de um extenso e veloz genocídio. Talvez, isso se dê por tais atos terem sido executados em uma região: a África, de extrema pobreza – ou muito abaixo disso - onde a vida de um homem não tem valor suficiente, para que nos mobilizemos de maneira algo mais abrupta em nossas poltronas.

A outra frustração reside no formato adotado, no resultado final da obra dirigida por Terry George que, a meu ver, fica abaixo do que poderíamos esperar de um filme que teve a indicação para três estatuetas do Oscar. Mas, ser indicado para o prêmio da Academia é sinal de qualidade? A saber: melhor ator, Don Cheadle, atriz coadjuvante, Sophie Okonedo e roteiro original.

Falemos do filme: já pelas indicações acima citadas, deduz-se que “Hotel Ruanda” é falado na língua da rainha Elizabeth II e não na de Paul Rusesabagina - personagem eixo da história. Ora, se para vender seu peixe o diretor adotou o inglês como modo de comunicação em sua obra, por quê não então o francês, língua dos colonizadores ou “protetores” - afinal, por um bom período do século XX, Ruanda-Burundi foi governada em forma de protetorado pela Bélgica. Digo que poderia ser falado em francês sem nenhuma convicção, pois a utilização de qualquer língua branca/européia faz com que o trabalho todo despenque em sua credibilidade narrativa.

Outros fatores que não permitem um resultado satisfatório sobressaem com o desenrolar da trama, que se apresenta de maneira quadrada e previsível - faltou ousadia - com sua música excessiva se repetindo nos momentos de maior emoção - por vezes o silêncio é ouro - como que querendo nos induzir à comoção por abdução; truque comum usado em filmes com menor comprometimento artístico. Outro recurso, que perde força quando mal utilizado, é o uso da câmera lenta; no caso aqui, por poucas vezes, mas em momentos inoportunos.

Existe um achado interessante - para mim a grande sacada do filme - que é a valorização da utilização da rádio “RTML” e de seu poder de incitamento à revolta dos hutus contra os tutsis, com uma narração de voz tenebrosa e amedrontadora, exigindo o sangue e o aniquilamento, qual um deus vingativo e punidor. Esse achado que cria momentos de proximidade a um extremo terror, no qual o diretor Terry George quer nos inserir - o uso da mídia rádio na mídia cinema é usado em grandes momentos da história do cinema: em “Apocalipse Now” de Francis F. Coppola , em “Faça a Coisa Certa” de Spike Lee ou também em “Corrida Contra o Destino” de Richard Sarafian.

Sobre o diretor: Terry George foi o roteirista de “Em Nome do Pai”, diretor de “Mães em Luta”, tendo também em seus créditos, “O Lutador” de Jim Sheridan. Como todo irlandês, gosta da luta por uma boa causa e se interessou pela história do gerente de hotel, Paul Rusesabagina, que conseguiu salvar a vida de centenas de ruandenses, abrigando-os durante aquele momento de terror e tentando fazer, através de vários contatos, que o mundo soubesse o que acontecia e intercedesse. Percebeu então, Terry, ter encontrado um bom campo para uma boa batalha.

Se atingiu o proposto, estética ou politicamente, não cabe a mim a decisão. Para terminar, um pouco sobre a história e seu conflito: todas, às vezes, em que nações ou sistemas se sobrepuseram a rivalidades ancestrais - em Ruanda-Burundi, 1918 pela Bélgica, ou Iugoslávia pelo regime soviético, por exemplo - somente fizeram acobertar, ao cozinhar em fogo lento, rancores, ódios e rivalidades. No momento em que se retiraram, tais desinteligências, invariavelmente, voltaram a explodir de maneira mais violenta, levando as diferentes etnias a conflitos recheados de histórias de terror e tentativas de extermínio.

Em Ruanda, oriundos da Etiópia, os tutsis se impuseram à maioria nativa, os hutus - século XV. Quase no século XX, 1899, os alemães declararam-na seu protetorado, perdendo-a após sua derrota na I Guerra Mundial para os belgas que, lá instalados, se aliaram à monarquia tutsi para melhor controlar a região, relegando os hutus a subordinados em sua própria terra. Tensões crescentes, retirada dos belgas em 1962, revoltas, governos militares ditatoriais e corruptos, fuga dos tutsis, exércitos paralelos formados, massacres em aldeias, tutsis e hutus, assassinato de presidente...

Tudo isso explicaria o genocídio de 1994, contra tutsis e hutus moderados? Justificaria?

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