NOME DE FAMÍLIA:


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Original: The Namesake
País: EUA
Direção: Mira Nair
Elenco: Kal Penn, Irfan Khan, Tabu, Jacinda Barrett.
Duração: 122 min.
Estréia: 25/05/07
Ano: 2006


"Nome de Família" - Hollywood e Bollywood


Autor: Cid Nader

Mira Nair é diretora a quem se liga imediatamente a idéia de cinema indiano: aos menos versados no assunto, aos menos interessados e que imaginam o gigantesco e hiper-populoso país de pessoas pobres, religiosas e sorridentes, como um lugar afastado do que se produz dentro da sétima arte - e que nem imaginam que a sua indústria talvez seja a mais profícua, na atualidade, mundialmente (existe a centenária Bollywood - a meca do cinema no país - situada em Bombain, que produz mais de mil filmes anualmente, e que tem esse sugestivo nome por conta da fusão do nome da cidade onde se situa e da iconográfica Hollywood americana) -, aos que ainda imaginam que cinema é sinônimo de Estados Unidos e que toda manifestação cinematográfica externa só tem valia se for indicada ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, ou realizada por "cucarachas" estabelecidos no país ianque. Mira Nair, pelo bem e pelo mal - mais pelo mal, na realidade - preenche algumas das expectativas dos desavisados: filma e mora nos Estádios Unidos - sem deixar de evidenciar um tanto pitorescamente o modo de ser da sociedade indiana para os domesticados olhos ocidentais -; já recebeu premiações bastante ocidentais para alguns de seus trabalhos - com destaque para o forte Leão de Ouro, outorgado ao não tão forte assim, "Casamento à Indiana" -; e, agora, fazendo a ponte dos sonhos, realizando esse "Nome de Família" como uma co-produção entre Hollywood e a mitológica Bollywood indiana.

A diretora não é o que se poderia imaginar como a mais digna das representantes de sua ancestralidade (também não é a mais indigna, verdade) e tem realizado obras que não primam pela ousadia - estética ou temática -, mas sempre gravitando em torno das tradições de seu país de origem em contraste com o pragmatismo da civilização da terra escolhida para viver. Aliás, ela reside mais especificamente em Nova Iorque. Em "Nome de Família", a diretora, na realidade, mantém a tradição que vem sendo construída em sua cinematografia - acentuando-se a cada dia, como sinal evidente de seu acomodado amadurecimento. Não consegue destrinchar com aprofundamento o que deveria ser a proposta inicial da obra. Fica muito na superfície. Certo que em alguns momentos parece que o filme até passa a impressão de que irá decolar, de que irá escarafunchar com mais propriedade o que deveria ser a sua razão de ser: uma discussão do casamento dentro dos padrões impostos milenarmente por uma sociedade que, além de milenar, é profundamente amparada, em sua estrutura básica, na religião - ou nas religiões. O ponto de partida é velho conhecido para quem freqüenta razoavelmente o cinema, e os caminhos pelos quais ela conduz a "discussão", também>

Ela abdica da possibilidade real de questionar se é possível o surgimento da felicidade plena nos casamentos, numa olhada mais geral do que acontece dento dessas tradições arcaicas. Seu filme dirige o foco para um núcleo muito mais reduzido e é compreensível e inquestionável a opção do tema centralizada encima de um casal - isso, aliás, é o princípio básico para a análise de obras cinematográficas: o respeito à idéia de partida do diretor.

Mas quando o diretor coloca telhado de vidros e pede que o apedrejemos, fica difícil resistir à tentação. Sendo mais direto e menos metafórico: respeito a opção da obra, de contar a história de uma casal bengalês - Ashoke Ganguli (Irfan Khan), o homem, e Ashima Ganguli (Tabu), a mulher - e não questionaria tal opção individual se a própria diretora não ampliasse, num dado momento, o tema, fugindo da discussão que coloca o filme em boa parte de sua trajetória a focar a relação do casal, o aparecimento dos filhos, os conflitos naturais surgidos pelo seu crescimento, por conta de um nome escolhido, coisa e tal, para colocá-lo de volta no gigantismo do país e seus modos de ser. Nair, conforme o filme avança ao melhor modo novelesco comum - não, não é de qualidade ruim como algumas novelas suspeitíssimas latino-americanas -, resolve mostrar um certo apego às raízes e às tradições sutilmente questionadas no início, e parece se render implicitamente a algumas delas. Enquanto Gogol (Kal Penn) 0 filho - se torna adulto e rompe com as tradições - um pouco pelo rumo natural das coisas, um outro tanto por conta de traumas ligados à infância -, Ashima parece que vai envelhecendo em seus conceitos, rendendo-se ao passado. E a diretora toma a opção da volta, redirecionando a história que poderia ser somente do pequeno núcleo para um destino tradicional; suspeito.

Como história comum a ser contada para cinéfilos ansiosos por uma produção pitorescamente indiana, tem cara de apuro no tratamento, na fotografia, na correção obtida no momento da edição. Como história de amor e desenvolvimento de relações nucleares, tem jeito de produto que não tem muita coragem e não ousa. Como história criada para discutir sistemas familiares e religiosos, se rende muito fácil, não explora ou indaga; contemporiza.

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