O TIGRE E A NEVE:


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Original: The Tiger and Snow
País: Itália
Direção: Roberto Begnini
Elenco: Roberto Benigni, Jean Reno, Nicoletta Braschi, Emilia Fox, Anna Pirri, Chiara Pirri
Duração: 110 min.
Estréia: 25/05/07
Ano: 2005


"O Tigre e a Neve" - desperdício da veia cômica, numa repetição impensável dos velhos erros


Autor: Cid Nader

Aquele italiano, com fala rápida e atrapalhada, humor físico de "alta" velocidade - aliás, correspondente ao seu típico físico bastante magro e leve -, cara de distraído mas reações de quem é muito perspicaz como observador, que sabe mesclar gags visuais a algumas boas sacadas "intelectuais", está de volta com muita competência. Na realidade, Roberto Begnini (aquele italiano), mostra-se bastante competente num campo em que percebe-se o artista em seu habitat. Quando o diretor/ator opta por se conduzir - e a seu trabalho - pelas vias da comicidade, pratica um cinema de pouca paridade com o que se realiza por aí. Tem timing de ator de comédia, é rápido o suficiente para conseguir concretizar situações que exigem habilidade e destreza na atuação e, ao mesmo tempo, tem tino para conceber textos e situações que caminhem acima da média quando comparados ao que se faz no gênero. "O Tigre e a Neve" caminha, principalmente em sua primeira parte (nada de divisões rígidas, mas nítidas pelo desenvolvimento do filme), amparado por um humor de altíssimo nível, num fato que repete o bom desenvolvimento de Roberto, no gênero, em filmes anteriores; muito mais notadamente os de início de carreira - quando surgiu para o público em criações norte-americanas dirigidas por Jim Jarmusch, "Estranhos no Paraíso" (1984) e Daunbailó (1986), seu espalhafatoso e falante modo latino de atuar causou surpresa e admiração, principalmente por estar sendo executado dentro de filmes de tendência "cool independente", e ainda mais ressaltado ainda quando contraposto às figuras espantadas e pasmadas de Tom Waits e John Lurie.

Em o "Tigre e a Neve", o ator está comicamente afiado como há muito tempo não se via. O filme conta a história de um poeta/professor obcecado por um amor que insiste em negá-lo - esposa na vida real, e também produtora, Nicoletta Braschi, sempre e sempre sua parceira amorosa nos filmes dirigidos por ele -, mas que mesmo assim inventa mil situações para colocar-se em seu caminho. Por conta dessas tentativas de aproximação, Roberto consegue imaginar seqüências bem elaboradas e que são devidamente adequadas para o desenvolvimento de seu tipo de humor atuado. A cena do paletó trocado, dos sonhos e suas explicações psicológicas (que, no caso aqui, parece pegar uma meia carona no jeito de Woody Allen tratar a psicologia e os psicólogos, só que com aquela carga extra de adrenalina típica do italiano), ou da distração ante a um protesto estudantil, por exemplo, podem servir como exemplo do que deveria nortear a carreira do ator/diretor, eternamente.

Mas quando digo que "deveriam nortear sua carreira", é porque tudo que poderia estar indicando para um bom resultado, nem sempre se concretiza; e desse temor já sofre quem conhece razoavelmente bem o trabalho do diretor. Roberto não consegue "segurar", dominar, seu lado italiano/sentimental, seu lado recheado de "boas intenções", seu apreço a momentos que remetam ao "lírico" e à emotividade que imagina dever arrancar lágrimas a qualquer custo. E passa a "embelezar" seu filme - como alguém que tem dinheiro e não tem bom gosto na hora de decorar sua moradia. E aí, então, ressurge o diretor - e some de cena o ator histriônico - que embrulha os estômagos sensíveis, ou embota mentes mais exigentes de conceitos mais bem definidos e estruturados quando o assunto tratado tem a ver com a razoável construção cinematográfica. Sua câmera passa a "flutuar" por situações de aspecto visual duvidoso; começa a negativar-se o aspecto estético de seu discurso - que fluiu tão naturalmente no "texto humor", nas gags. O filme emposta-se de um vazio "essencial" imenso e fútil, e suas reais intenções escancaram-se repentinamente aos nossos olhos, relegando o trabalho a um campo muito mais abaixo de qualidade do que mereceria se fosse mantido no "patamar das risadas espontâneas".

Mas essa tem sido a grande pedra no sapato de Begnini. O diretor tem uma veia sentimental que não prima pela sutileza, pela delicadeza. É ostensivo, agressivo e até grosseiro - e ele até hoje não percebeu isso, imaginando-se um romântico humanista - quando faz de tudo para que seu público se emocione com as histórias que resolve e filmar e nos contar. E "O Tigre e a Neve" cai na mesma armadilha, faz com que toda a naturalidade do cômico seja soterrada. E aparentemente, mais diretamente ainda, por conta da busca, no final de tudo, de uma imagem esplendorosa - a tal do tigre e da neve.

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