PIRATAS DO CARIBE: NO FIM DO MUNDO:


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Original: Pirates of the Caribbean: At World's End
País: EUA
Direção: Gore Verbinski
Elenco: Johnny Depp, Geoffrey Rush, Orlando Bloom, Keira Knightley, Jack Davenport, Bill Nighy, Tom Hollander, Naomie Harris, Chow Yun-Fat, Keith Richards.
Duração: 168 min.
Estréia: 25/05/07
Ano: 2007


Nau sem rumo


Autor: Érico Fuks

É quase impossível encontrar uma lógica narrativa nessa terceira parte da franquia corsária tendo como ponto de partida seus instrumentos cênicos. O pré-início, a construção da conhecida logomarca Disney, é um idílico céu de estrelas e um arco-íris envolto a um castelo. Essa infantilóide identidade visual, embalada por uma cantilena de ninar, sugere a transposição não-abrupta a um mundo escapista, um universo de sonhos e de magia. Estamos na lândia, pisando nos acres urbanos e ao mesmo tempo utópicos, na terra-do-nunca que pertence a nós mesmos, um espaço onírico e atemporal, sem fronteiras, que nos traz de volta o ego criança que a cidade grande apagou. Como explicar, então, a violência embutida da cena inicial do filme propriamente dito, em que uma fileira de piratas maltrapilhos, a maioria crianças e velhinhos indefesos, se dirigem cabisbaixos à forca? Já nesses minutos o espectador se vê obrigado a se comover não com as fadas-madrinhas, mas com o lado negro e sórdido do ser humano, aquele que castiga os pobres que roubam por falta de opção. Mendigos marítimos desdentados cantando seus últimos suspiros de um lado, burocratas insensíveis da corte real enunciando uma espécie de AI5, um código proibitivo de outro. Pronto. No melhor estilo exagerado das cartilhas maniqueístas de Ken Loach, em que as imagens traduzem o discurso político do autor, sabe-se perfeitamente de que lado o diretor Gore Verbinski está.

Essa retícula acinzentada com gosto de água salobra, ao contrário do que se imagina, não é o tom predominante. Mais adiante (bem mais adiante, para os fãs desesperados de Johnny Depp), uma cena branca, totalmente branca e silenciosa, que mais parece instalação de galeria de arte com vinheta de programa de videoclip, onde um objeto encontra-se milimetricamente colocado ao centro, algo como uma pérola desgastada. De repente, não mais que de repente, surge uma horda (dessa vez, para a alegria dos fãs do ator) de Jack Sparrows, um bando de almas penadas e clonadas disputando o que na verdade nada mais é do que um amendoim. Dado o contraste, que tipo de registro a equipe da superprodução espera de seu público?

É possível que o grande problema da hegemonia da marca Piratas do Caribe seja o primeiro filme. Era uma produção dentro dos padrões de um grande estúdio norte-americano, com seus devidos caprichos nos efeitos especiais, mas não almejava alcançar o que alcançou. Superadas as expectativas e atingidos os recordes, houve a necessidade industrial de uma produção em série. Se mantivesse a falta de compromisso com o mercado e o exercício profissional de cuidados técnicos, mas mambembe de encenação, como os anteriores, dando-se mais ênfase ao trabalho simples e delicado de colocar na tela uma idéia, talvez funcionasse melhor. Mas essa terça parte dos mosqueteiros caribenhos carrega um fardo. Coincidência ou não, outras superproduções concorrentes estão lançando suas terceiras edições, sempre com a promessa mercadológica de se oferecer algo mais do que os antecessores. Além disso, é na última ponta da tríade perfeita tese-antítese-síntese que recai a cobrança das explicações. Na sala ao lado, temos um “Homem-Aranha” em conflito com seu alter-ego, muito mais introspectivo, paradoxal e noturno do que no início. Essa é a verdadeira rivalidade dos piratas. O Titanic amaldiçoado e sua bandeira de caveira hasteada não poderiam renascer das profundezas do oceano apenas como uma brincadeira de truques e efeitos de imagem.

Para se ter uma idéia do perigo que o mar do Fim do Mundo oferece, o filme trata ao mesmo tempo de uma busca ao tesouro com um acerto de contas do passado. O redivivo Capitão Barbossa (Geoffrey Rush) comanda uma tripulação dizimada para não permitir as arbitrariedades do Lorde Beckett, e para isso precisa de ajuda. Entra em ação William Turner (Orlando Bloom), que está dividido entre fazer parte do bem ou virar casaca para cumprir a promessa de trazer a qualquer custo seu pai de volta, condenado a uma eternidade submersa nas águas. Essa difícil decisão pode ir de encontro aos princípios benfeitores de Elisabeth Swann (Keira Knightley), a eterna Rapunzel à espera de seu príncipe encantado, que divide as atenções de Turner e de, obviamente, Jack Sparrow, o mercenário das águas. Histriônico como sempre, mesquinho e afetado mais do que de costume, Sparrow assume um papel de chove-mas-não-molha, aquele que frita o peixe e olha o gato, dividido entre se incorporar à tripulação ou seguir rumo próprio com seu Pérola Negra em troca de pequenas propinas. Pagamentos ilícitos num filme Disney são até uma ousadia, mas aqui vira baderna. É tanta corrupção, suborno, vingança de aliados, que nem o Congresso Nacional de Brasília seria capaz de acompanhar as falcatruas da tela. “Piratas do Caribe” é um filme excessivo, cheio de gorduras, mais confuso e atrapalhado do que dialético. “É tudo política”, diz Sparrow numa cena em que todo mundo luta contra todo mundo, numa tentativa metalingüística de explicar ao atônito espectador o que se passa no navio em desequilíbrio. Mas diante de tantos elementos jogados ao leme, nem o amoral e fraudulento Sparrow é capaz de roubar a atenção dessa vez. O elenco de apoio dessa terceira parte, meros coadjuvantes do passado, ganha um destaque e uma profundidade narrativa quase que equivalente aos astros. O Capitão Sao Feng (Chow Yun Fat) comanda a Companhia das Índias Orientais, em Cingapura, e, diante de tantas idas e vindas, fica-se sem saber se os asiáticos são aliados ou inimigos da trupe. Calypso, a feiticeira afro-americana capaz de ressuscitar os mortos, é a isca para atrair o multitentacular Davy Jones, criatura tão octópode quanto o diretor, que, com seu coração guardado dentro do baú, nutria um amor platônico pela bruxa. Isso sem falar nos Nove Lordes da Corte da Irmandade, uma espécie de liga maçônica dos oceanos que carrega no peito uma valiosa medalha de prata, e a participação especial do rollingstônico Keith Richards.

Sim. “Piratas do Caribe 3” é rock. Mas não o rock básico 4x4. É rock progressivo, lento, interminável e cheio de divagações psicodélicas e inserções virtuosísticas. Hanz Zimmer, maestro condutor da orquestra e responsável pela trilha sonora incidental, deve ter tido muito trabalho para acompanhar ritmicamente as intervenções cênicas de um amontoado de gêneros estilísticos. “Piratas” navega em avalanches o tempo todo, e exige de si mesmo a eterna tensão de alto-mar. O que nos anteriores parecia ser uma liberdade criativa e anárquica do diretor, nesse caso ganha o efeito inverso. Verbinski parece ter tomado uma garrafa de rum antes de montar sua câmera.

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