O PROFETA DAS ÁGUAS:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Leopoldo Nunes
Elenco: Documentário.
Duração: 81 min.
Estréia: 18/05/2007
Ano: 2005


Você sabia?


Autor: Cid Nader

Existem documentários que pegam o espectador de modo desprevenido: pegam pela singeleza, pegam pelo ineditismo, pegam pela surpresa, pelo ritmo, pelas variantes, pelos personagens... "O Profeta das Águas" deve pegar o espectador por quase todas as possibilidades imaginadas ou sugeridas. É daqueles trabalhos que já ganha alguns corpos na largada pelo fato de contar uma história razoavelmente recente e de pouquíssimo conhecimento para a maioria das pessoas. Em tempos de comunicação abrangente e até invasiva, fica difícil ver um assunto virar documentário de uma história que quase ninguém ouviu falar, mas que tem carga de importância por trás; relevância. O modo pelo qual o diretor Leopoldo Nunes resolveu contar essa história "assombrosa" resultou espertamente bem concretizado, com o devido uso – sem muitos arroubos e bem dentro do preconizaria uma cartilha do gênero - das possibilidades oferecidas para a composição de obras dentro dessa linguagem: o modo de apresentar o personagem, alternando-se com o motivo (no caso geográfico) que fez dele um afigura a ser retratada; explorar assunto de componente que corre paralelo – sem importância vital – mas com grande poder lúdico; a explanação mais detalhada do assunto, com o uso de depoimentos e imagens de arquivo; uma espécie de catarse quando o assunto é definitiva e totalmente revelado (e "resolvido"); a volta para os dias atuais e um bom fechamento, de preferência com situações leves – do tipo: "e viveram felizes para sempre".

Pelo que se diz, Leopoldo Nunes demorou quase vinte anos para concretizar "O Profeta de Águas" – que pôde ser concluído, já no século XXI, por cinta de um "mutirão" que reuniu desde a TV Culutra à STV (TV Sesc/Senac), juntando-se às prefeituras de Rubinéia e Santa Fé do Sul (além da colaboração de pessoas fa região de São José do Rio Preto). Os que colaboraram devem ter ficado satisfeito com o resultado, porque o trabalho é um dos mais competentes e humanos feitos nos últimos tempos – em um país que está cada vez mais na ponta como confeccionador de trabalhos do gênero, com alguns dos maiores realizadores do mundo. Já tem uma vantagem inicial para ser tão bom assim: a figura retratada, Aparecido Galdino Jacintho (Aparecidão) é das mais pitorescas que aportaram nas telas ultimamente, de visual interessante que já angaria as atenções desde a primeira aparição, diz-se um benzedor – confirmado por alguns depoimentos que passarão pela tela – e considerado uma figura temerária por alguns setores da ditadura militar. Aparecido começa contando sua história de benzedor, enquanto imagens oficiais vão relatando a construção da hidrelétrica de Ilha Solteira (divisa de São Paulo, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul), como uma das maiores obras da engenharia mundial, e como solução encontrada pelo governo militar para todos os problemas com energia elétrica na região – realmente, uma falcatrua.

Quando já nos afeiçoamos à figura do benzedor, o documentário dá meia guinada em direção a uma "ludicidade" caipira, relatando o destino da cidade de Rubinéia, e surpreendendo totalmente quando apresenta uma voz gravada para um programa de rádio na época (final dos 60, início dos 70), de um dos maiores de nossa literatura, lamentando o destino trágico que se anunciava aos "nomes" de figuras ilustres. É surpreendente mesmo esse momento: bonito e emocionante; além de começar a dar conta da real importância do que estará sendo nos contado durante o transcorrer da exibição película. E uqndo que o documentário é bom, é porque ele cresce o tempo todo em importância: a história de Galdino vai ficando forte e trágica, como se fosse num filme de ficção. As situações que vão se sucedendo, o que ocorre com a figura, as razões que o levaram a ser "mal visto", tudo contado, no início, por depoimentos bem arranjados em sua disposição e importância para se fazer a história ser bem assimilada – há alguns espertos momentos de "acareação" montados pelo diretor, que fazem ficar muito nítido quem mente e quem fala a verdade (e não há manipulação nisso, evidentemente) – e, na seqüência, com documentos e visitas a locais.

Conforme a história vai prendendo a atenção pela insanidade da questão abordada, algumas dúvidas ameaçam a nossa atenção: por conta da "origem" dos depoentes, figuras comuns que poderiam estar criando – ou aumentando a importância - um fato. Mas aí mais uma das virtudes do trabalho – num fato evidentemente bem explorado pelo diretor – surge: o "nível" de quem está contando a história por depoimentos cresce em importância; pessoas inquestionáveis por seu passado, por sua índole, por seu trabalho em defesa dos oprimidos políticos naquele momento de nossa história. E só então se entende que o que se está vendo tem importância muito acima do que foi vendido no belo início. A figura de Aparecido não é mitificada ou endeusada – os momento s finais dão bem a conta de quão humano e falho ele também pode ser -, mas, sem dúvida, sua história é para ser contada. O jeito que Leopoldo Nunes imaginou para isso é digno das melhores considerações: aos poucos, com variantes e histórias dos entornos; além de muita sensibilidade.

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