OLHE PARA OS DOIS LADOS:


Fonte: [+] [-]
Original: Look both ways
País: Austrália
Direção: Sarah Watt
Elenco: Justine Clarke, William McInnes, Anthony Hayes.
Duração: 100 min.
Estréia: 18/05/2007
Ano: 2005


Tudo ao mesmo tempo agora


Autor: Érico Fuks

Olhar para os dois lados pode indicar um conselho ou uma advertência dada a pessoas mais imprudentes antes de atravessar a rua. Pode também clamar para uma atenção especial que deve ser dada a pontos de vista diferentes. Afinal, o mundo espelha-se em perspectiva e provoca uma leitura multiangular de seus aspectos.

“Olhe para os Dois Lados”, longa de estréia da diretora Sarah Watt, procura abraçar ambas as interpretações. A cena inicial gira em torno de um rapaz que corre atrás de seu cachorro e, distraidamente, é atropelado por um trem. Quem presencia o acidente é Meryl, uma artista plástica que tem o dom de antever situações trágicas, representadas na tela por grafismos e ilustrações. Completam o quadro um homem que descobre que está com câncer e um repórter abalado pela notícia de que sua namorada está grávida.

Essa permissividade lingüística, esse direcionamento democrático que dá liberdade a múltiplos pontos de vista em torno do objeto, nesse caso traz mais problemas do que pluralidades dialéticas. Ir e vir a cenas e a fatos do filme, em diferentes contextos e sob diferentes olhares, é um recurso que vem se desgastando tamanho seu uso no cinema independente. Tradicionalmente o cinema é, em suma, entendido como um projeto de escolhas. A diferença entre o amontoado captado pela câmera e aquilo que de fato é exibido em tela passa, em tese, por um rigoroso crivo de tesouras, onde temos como resultado final a visão de mundo autoral do realizador. Aqui no caso a colcha de retalhos multifacetada reflete uma falta de identidade e falta de entendimento da diretora de seu recorte de mundo. “Olhe para os Dois Lados” é de fato um trabalho pessoal, haja visto que a diretora passou pela experiência de filmes de animação e também um dia recebeu a notícia de que estava com câncer. Mas esses dados dizem muito mais dela do que do filme. A necessidade do vomitório imagético é maior de quem filma do que de quem assiste. Aqui se atira pra tudo quanto é lado, do desenho moderno e fantasioso ao dramalhão tradicional. Essa filosofia tudo ao mesmo tempo agora dilui-se num costurado chocho, sem crença, sem impacto. Olhar para todos os lados antes de filmar é um conselho bastante razoável, mas não aponta de forma alguma o trajeto de sua travessia.

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