O HOSPEDEIRO:


Fonte: [+] [-]
Original: Gwoemul
País: Coréia do Sul
Direção: Bong Joon-Ho
Elenco: Song Kang-Ho, Byeon Hee-Bong, Bae Du-Na, Park Hae-II, Ko Ah-Seung, Lee Jae-Eung.
Duração: 119 min.
Estréia: 18/05/2007
Ano: 2006


"Hospedeiro": quem é o verdadeiro monstro nessa história?


Autor: Cid Nader

Vez por outra o fenômeno "cinema coreano" consegue uma brecha em nosso circuito comercial, tirando-nos um pouco do atraso arcaico no qual estamos jogados por conta da ausência de uma via mais confiável, através da qual as obras daquele atípico país extremo-oriental deveriam ter acesso mais facilitado e constante, desembocando em nossas salas de cinema. Kim Ki-duk é um caso à parte, já que quase todos os seus últimos filmes têm encontrado abrigo e receptividade junto a nosso público – e aí interfere uma maldade do destino, pois o diretor tem realizado obras cada vez menos interessantes, cada vez mais calcadas num jeito pitoresco de nos oferecer interpretações vazias e pálidas do budismo e afinidades, mas que chegam ao ocidente muito mais pelo grande poder de marketing e manipulação sabiamente exercitados pelo diretor, do que pela sua qualidade. Mas o destino (tratemos do assunto nessa esfera mesmo) também pode interferir de maneira benévola, por vezes, e nesse momento duas obras bastante distantes do que realiza Ki-duk, e muito mais próximas da real potência e importância daquele país no quesito cinema, estão planando solenemente por nossas telas. Já em cartaz está "Lady Vingança", de Park Chan-Wook, que antes havia estabelecido um razoável sucesso por aqui com "Old Boy" e a estupenda capacidade de sua história registrada num roteiro pra lá de imaginativo (com opiniões favoráveis e discordantes, mas conflitantes por motivos muito mais nobres do que quando a discordância se dá em torno dos últimos trabalhos de Kim Ki-duk).

A outra obra que se apresenta agora é esse "Hospederio", dirigido por Joon-ho Bong, e que chega com algumas aclamações que tendem a se repetir por aqui – é o filme de maior público na história do cinema na Coréia do Sul, e vem respaldado pela chancela de qualidade carimbada nele pela Bíblia da crítica cinematográfica, a revista Cahiers du Cinema. Sem dúvida é um trabalho para não deixar ninguém indiferente. Se passa nas margens do rio Han, e começa já com uma denúncia do poder arbitrário exercido pelos Estados Unidos sobre uma Coréia rendida à superpotência pela necessidade de autopreservação, quando metaforicamente vê um simples funcionário tendo de aceitar a ordem descabida de uma autoridade militar ianque que ordena o despejo de material químico vencido no ralo que desembocará e poluirá as águas do rio – fato verídico realmente aconteceu e serviu de inspiração ao diretor como mote de largada à sua história. De resíduos químicos venenosos a virar um monstro basta um passo – já ensina a experiência cinematográfica com monstros desde que eles pareceram palatáveis ao gosto do espectador – e surge um monstro das águas do rio Han; e se a cria é, historicamente, imagem e semelhança do pai, nada estranho imaginar que dentro dessa possível metáfora imaginada os próprios Estados Unidos tenham sido re-gerados no monstro que passará a assustar e perseguir a população coreana.

Simploriamente, em entrevistas, o diretor atribui a concepção de seu personagem inumano aos tempos em que ficava imaginando o famoso personagem do lago Ness saindo do rio seu vizinho e atacando a população de Seul. Disse que se alguma influência pudesse ser pensada, o Tubarão de Steven Spileberg talvez fosse a indicada, mas que – mais para a essência e idéia central do filme do que para a figura do monstro em si – o filme "Sinais", de M. Night Shiamalan, foi muito mais importante, por seu enfoque e sua referência ao isolamento e à luta de uma família. E aí sim se pode esquecer um pouco o modo simplório de tentar vender seu peixe empreendido por Joon-ho Bong – pela figura de um monstro cinematográfico – e tentar-se embrenhar um pouco mais pelas outras várias possibilidades de leitura que a obra realmente oferece.

A família meio desestabilizada, meio perdedora, que parte na missão da caça ao monstro – por motivos muito particulares – representa de variadas maneiras a sociedade coreana em seu modo atípico de comportamento (isso, numa comparação ao comportamento de seus vizinhos próximos no extremo do continente asiático – um fato que sempre cito quando tenho a oportunidade de comentar sobre filmes de lá). Representa, com seu comportamento exacerbado, e exagerado em emoções fortes, a nação que se dividiu entre a fé católica e o budismo, num rompimento psicológico drástico de tal monta que não se consegue imaginar os habitantes do país como executores de um modo de viver plácido e pacato – basta ver as discussões familiares, ou a reação de estudantes diante de policiais em manifestações estudantis, por exemplo. Representa também uma nação que se viu cingida por motivos políticos e econômicos, que tanto deseja quanto teme a re-união, e que reage de maneira agressiva e medrosa, ao mesmo tempo, aos perigos externos. O que fica patente – e no caso, mesmo se enxergarmos o monstro como "apenas" um ser mutante (como diz o diretor em momentos de simplificação analítica de sua obra) – é que a família meio capenga parte numa missão de vingança a qualquer custo contra o inimigo que interferiu diretamente dentro de sua desarmonia (sem ser convidado).

O filme continua a oferecer possibilidades: quando vemos a inoperância – no princípio – e a lerdeza do poder público, no momento em que surge estúpida e de forma nada delicada a mutante ameaça. Há situações de chacota contra o governo e contra o modo de agir da imprensa, também. São todos fracassados - na família - em suas atividades, e participam da sociedade mais por "dever de ofício" do que por prazer. Mas, o principal, é que o filme se mostra surpreendente pelo ritmo adotado, chegando a ser magistral em sua velocidade e em seus modos de resolução estética por boa parte de seu transcorrer. O monstro criado talvez seja o mais espetacular e "bonito" criado pelo cinema – pelos seus movimentos plasticamente belos, e por sua figura única, nova (o primeiro mergulho dele no rio é de uma beleza plástica irrepreensível). Mas há um porém que incomoda a partir de um certo momento, se estende e toma um corpo estranho: dá-se quando uma música insistente e meio adocicada passa a nortear algumas seqüências afins, desviando o teor de rancor ou ironia que vinham servindo de condutores surpreendentes, para abraçar um certo sentimentalismo (mais, sensacionalismo sentimental) que aproxima o filme em "dúvidas" ao já citado "Old Boy", de Park Chan-Wook.

E esse mal-estar ganha uma certa proporção até o final, a ponto de colocar uma pulga atrás da orelha de quem só vinha se maravilhando com a película. Seria, realmente, uma obra "somente" genial ou um embuste tremendamente bem embrulhado? Talvez dependa das leituras feitas por cada um, do modo de compreendê-lo até seu finalzinho, para ganhar uma avaliação definitiva particular do espectador. Com certeza não deixará ninguém indiferente. Desse mal – a indiferença - ele não padece; com certeza.

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