A MORTE DE UM BOOKMAKER CHINÊS:


Fonte: [+] [-]
Original: The Killing of a Chinese Bookie
País: EUA
Direção: Jonh Cassavetes
Elenco: Ben Gazzara, Timothy Agoglia Carey, Seymour Cassel, Robert Phillips, Morgan Woodward, John Red Kullers, Al Ruban, Azizi Johari, Virginia Carrington, Meade Roberts, Alice Fredlund, Donna Marie Gordon¹, Haji, Carol Warren, Derna Wong Davis.
Duração: 135 min.
Estréia: 11/05/2007
Ano: 1976


Um Cassavetes mais lento


Autor: Cid Nader

Nesse filme, já com muito tempo de estrada percorrido e com seu cinema autoral e independente definitivamente reconhecido por qualquer um que entenda algo do assunto, o mais interessante é notar que John Cassavetes já demonstrava a "coragem" de construí-los (aos filmes) mais desacelerados em sua encenação, onde a história em si – a trama – conseguia e oferecia tempos de respiro, com uma dramatização mais "lentificada", a ponto de fazer com que os espectadores pudessem recostar um pouco mais relaxados nas cadeiras, sem o medo iminente de perder algo importante a um simples piscar d'olhos. E tudo isso obtido com a persistência de sua marca registrada, que sempre foram os cortes abruptos emendando cenas e cenas, numa abdicação da "textura" do drama que flui entre as divisões dos atos, principalmente por conta da carga dramática empreendida via atuações – isso é, Cassavetes sempre cortou e emendou suas cenas, mais acreditando no poder do impacto da imagem que encavala por cima da anterior do que na fluidez narrativa, que normalmente encontra seus pontos de divisão ditados, normalmente, pelo modo de agir dos atores/protagonistas naquele instante específico.

Diante de "A Morte de um Bookmaker Chinês", é nítido que o diretor já domina com tanta segurança a maneira de entregar um produto pronto com total certeza do que está sendo entregue. E o trabalho trilha os caminhos de um filme de clima noturno, meio detetivesco e muito amparado na performance de um ator – sim, seu cinema também é essencialmente de atores - (Ben Gazarra), que se repete eternamente com as mesmas caras e mesmas expressões tristonhas. Gazarra é típico ator de diretores cults – amigo e um dos mais admirados pelo diretor -, e dizer que se repete em suas interpretações não significa necessariamente carga negativa contra ele. A coragem, no caso, de Cassavetes, nesse filme, é que aparentemente esse trabalho tem um jeitão de obra realizada e pensada especificamente para o ator, desde sempre, no papel principal – e realmente não dá para imaginar o filme com outra cara masculina.

Mais coragem por optar por um estilo, um gênero – o de filme noturno detetivesco – que engessa as possibilidades de vôos mais ousados ou manifestações mais autorais; o gênero carrega em si alguns dogmas estéticos que dificultam fugas ou heresias. E o diretor enfrenta esse "engessamento", ou "dogmatismo", com coragem e confiança em sua capacidade. Dúvida, porém: o fato de ele ousar e tentar driblar um estilo impondo o seu, teria resultado num filme mais lento que, me pareceu, resultou, conforme já comentei acima; ou ele teria ousado enveredar por esse tipo de "gênero" como um desafio, e na tentativa de desmontá-lo, ou melhor, de moldá-lo ao seu jeito, deu mais potência e vez ao estilo do ator (e da atuação, conseqüentemente), o que teria acabado por determinar o tal ritmo mais lento? Não resta dúvida de que o filme acaba por se ressentir justamente da falta de ritmo; um pouco, nada de tão drástico, mas com perda em relação a outros trabalhos dele.

Mas não resta dúvida, também, que Jonh Cassavetes – à parte a pequena mudança de "estilo" – continuou tocando os pontos "humanos" que são um dos pilares de sua carreira. O diretor aposta na figura quase que "repetitiva" de Ben Gazarra para dar credibilidade ao seu personagem, Cosmo Vitelli, um dono de boate e eterno jogador, endividado e que recebe uma proposta da Máfia que o eximiria das dívidas caso aceitasse matar um figurão chinês do submundo de Los Angeles. Cosmo é um sujeito da vida e da noite, com seu prazer de viver sob as luzes artificiais, e com um olhar ao mesmo tempo eternamente entristecido, como que a pensar nas mazelas que o submundo sobrepõe aos personagens que vivem sob seus domínios. E esses personagens estão lá: mulheres strippers, belas e subjugadas, um cantor/ator que reclama injustiça quanto à avaliação de sua arte, uma mãe negra e seus questionamentos. Cosmo namora uma de suas garotas, negra e bela, e Cassavetes, novamente, a partir desse "gancho", volta a posicionar boa parte de suas preocupações e atenções, que por diversos momentos em sua obra recorre à temática dos negros norte-americanos. Como se um filho de gregos, sentindo-se tão excluído quanto os negros em meio a uma sociedade opressivamente branca, quisesse marcar posicionamento; como que a dizer que um grego, um chinês ou um negro estavam naqueles momentos no mesmo balaio da exclusão.

P.S.: a seqüência final, que envolve tiro, luz noturna, paciência e um certo conformismo, é das mais belas da história do cinema; sem exagero.

Leia também: