HÉRCULES 56:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Silvio Da-Rim
Elenco: Documentário
Duração: 94 min.
Estréia: 11/05/2007
Ano: 2007


Necessário e informal


Autor: Marcelo Lyra

O documentário “Hércules 56”, de Sílvio Da-Rin insere-se na vasta e interminável filmografia que tem a ditadura militar de 1964 como elemento inspirador. O tema é recorrente, seja no documentário (“Jango”, “Barra 68”, “Vlado”), seja na ficção ("Batismo de Sangue", “Prá Frente Brasil”, “Lamarca”), sem falar em “O Que É Isso Companheiro”, de Bruno Barreto, que narra o mesmo episódio priorizando o entretenimento.

Para quem conhecia a história do seqüestro do embaixador americano e sua posterior troca por 15 presos políticos (enviados no México a bordo do tal avião Hércules 56) apenas pelo filme de Barreto, o documentário de Da-Rin é uma proveitosa luz na escuridão. A começar por colocar o deputado Fernando Gabeira, autor do belo (e oportuno à época) livro que inspirou o filme, em seu devido lugar: um mero coadjuvante do seqüestro, ao ponto de nem participar do filme. Ele apenas é citado no depoimento do hoje ministro Franklin Martins, este sim um dos mentores do plano.

Sílvio Da-Rin se propõe a contar a história do seqüestro e da viagem dos presos políticos a partir do depoimento dos envolvidos. Teórico do documentário, ele é autor do ótimo “Espelho Partido”, um livro que contextualiza a evolução da linguagem do gênero e enumera as armadilhas que espreitam o caminho de quem pretende fazer do documentário um reflexo da realidade. Para Sílvio, esse reflexo tende a funcionar melhor com a transparência de sua metodologia, ou seja, a quebra do espelho, para a reflexão possível depois de montados os cacos.

O teórico se sai muito bem quando passa à prática. Dribla como Garrincha duas das principais armadilhas dos depoimentos históricos, ou seja, uma certa tendência do depoente a reinventar o mundo de forma favorável e a visão translúcida de fatos distantes no tempo. Ao reunir os mentores do seqüestro numa mesa de bar (aparentemente sem bebidas alcoólicas), ele consegue uma melhor aproximação entre reflexo e real. Na presença de todos os envolvidos, quase como uma acareação, é muito mais difícil distorcer a realidade. Da mesma forma, lapsos de memória de um são preenchidos por outro.

A presença de velhos conhecidos à mesa de bar permitiu um clima amplamente favorável ao tema. Possibilitou um dos grandes momentos do filme, que é a sincera autocrítica dos resultados da luta armada no Brasil. Só isso já valeria o ingresso, mas o filme de Sílvio oferece mais. Na contra corrente da não utilização da música no documentário, ele a usa de forma contida e absolutamente funcional dentro da história que pretende contar. Desde “Hasta Siempre Comandante”, fechando a fase cubana, até a contida versão de Jards Macalé para “Aquele Abraço”, na volta ao Brasil, em plena sintonia histórica com os relatos, até os sons de fundo como moldura para certas passagens.

Os depoimentos são colocados de duas formas distintas. Os mentores do seqüestro contam suas versões na mesa de bar, com o processo de filmagem escancarado. Os microfones invadem despudoradamente a cena e o próprio Sílvio aparece ao lado dos depoentes, fazendo poucas intervenções. Paralelamente, os presos políticos que embarcaram no vôo do Hércules 56 são entrevistados da forma habitual, sozinhos, em suas casas ou escritórios. Afinal, são visões individuais da soltura e da viagem.

Outra boa sacada e a manutenção do letreiro com o nome do depoente sobre suas fotos em dois momentos: na época e nos dias atuais. Não é uma criação funcional apenas do ponto de vista estético. Ela permite ao espectador uma dimensão do tempo que nos separa do vôo do Hércules.

Outro mérito do filme é que a informalidade permitiu boas doses de humor, com efeito bastante reflexivo. Há episódios pitorescos, como a chegada ao México, quando as autoridades mexicanas reclamam junto aos militares, em espanhol, do uso das esposas (algemas) nos presos, e o comandante militar brasileiro responde que nenhum dos presos veio com as esposas (mulheres), que diz muito sobre o preparo dos militares para a missão. Mas há também divertidas autocríticas da tendência ao divisionismo das esquerdas, como quando um deles conta que um torturador, em meio à tortura, diz que eles nunca vão vencer os militares com tantas facções distintas. O diretor teve o bom-senso de não tentar didatizar as dezenas de grupos políticos citados pelos depoentes, caso contrário teria de dobrar a metragem do filme.

Da-Rin faz bom uso (ainda que econômico) de um minucioso levantamento de imagens antigas. Os seis integrantes do grupo de presos políticos que já morreram aparecem em preciosos depoimentos dados à época em que desembarcaram em Cuba. Cenas da decolagem do Hércules, a chegada ao México, a passagem por Cuba e outras, estabelecem bom diálogo com os depoimentos, construindo um todo coeso. Brilhante como forma e conteúdo, “Hércules 56” entra para a galeria de grandes documentários brasileiros em lugar de destaque.

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