ALILA:


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Original: Alila
País: Israel / França
Direção: Amos Gitai
Elenco: Yaël Abecassis, Ronit Elkabetz e Liron Levo.
Duração: 121 min
Estréia: 19/08/2005
Ano: 2003


Alila: o novo libelo anti-militarista de Amos Gitai


Autor: Cid Nader

Amos Gitai deveria ser classificado como um diretor do mundo, não somente de Israel. Discute em suas obras um processo que extrapola as fronteiras de sua pequena - e disputada - terra, no qual seres humanos são esmagados e cerceados por modelos de governos tirânicos, opressores, que por interesses próprios ou de minorias criam estruturas de defesa, dentro das quais só maluca ou insanamente podem acreditar ser possível viver por tempo indeterminado. Especificamente em Israel, tem constantemente filmado e denunciado tal “modelo de gestão”, respaldado - Gitai - por movimentos de cunho humanista, constituídos tanto por judeus como por palestinos.

Sua obra realmente tem forte cunho político, de posição bem definida e engajada, na qual discute a opressão e marginalização sofrida pelo povo palestino; opressão, essa, exercida por um governo de extrema direita, militarista, que acredita na força bruta e não no diálogo, como a melhor maneira de sobrevivência. Obra, que usa como veículo de contestação à obrigatoriedade do serviço militar, em região eternamente conflituosa, que sujeita seus jovens a perigos reais e constantes, a todo momento.

Em seu primeiro sucesso, “Kippur”, relata fato auto-biográfico, quando, ainda estudante universitário, é obrigado a cumprir o serviço militar, vindo a descobrir o verdadeiro sentido do horror que pode causar uma simples batalha, em meio à uma guerra sem fim.

A discussão do conflito israelense / palestino é, superficialmente olhando, a mola mestra de seu trabalho. Dizem radicais e ortodoxos, que ele defende a causa palestina, traindo, assim, sua origem, seu berço. Aí reside o grande erro de seus detratores, pois Gitai se habitasse outras paragens desse nosso planeta, investiria sempre contra o poder que oprime, contra a “desumanidade”. Usa a arte para isso, simbólico: combater canhões com flores.

Em um de seus mais inspirados filmes, Kedma, no qual usa de maneira preciosa o recurso do plano-seqüência - teria até encomendado a uma empresa filmes de maior metragem - nos presenteia com uma das cenas mais pungentes e emocionantes do cinema atual, quando preenche a tela com a imagem de um camponês palestino que, invadido e usurpado, vocifera imprecação amaldiçoando, no presente e no futuro, a presença dos judeus em sua terra, prometendo que nem ele ou seus descendentes abandonarão seu chão; se preciso serão escravos, mas também algozes - discurso que, com certeza poderia ser pronunciado por qualquer ser de outra parte do planeta, ao ver seu povo marginalizado, escravizado ou oprimido.

“Alila”, que estréia hoje, classificado por alguns como comédia, nos conduz por uma Tel-Aviv caótica, confusa, estressada e até mesmo engraçada, com personagens confusos, estressados, e também por vezes engraçados, na verdade representando a Israel, confusa com relação a seu futuro - afinal, como pensar em viver para sempre protegendo-se atrás de colunas de concreto e sob a guarda de gigantescos esquemas de segurança; como desapropriar colonos que imaginavam ter encontrado terra firme e porto seguro após séculos de peregrinação.

Longe de ser um filme menor, é mais um libelo anti-militarista engendrado por Amos Gitai. Nesse seu eterno discurso contra a militarização de uma pátria, lá está ele, novamente recitando seu papel.

Como em todos os seus filmes anteriores ele se apresenta, sob a capa de algum seu personagem, discursando a favor do humanismo.

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