BAIXIO DAS BESTAS:


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Original: Idem
País: Brasil
Direção: Cláudio Assis
Elenco: Caio Blat, Matheus Nachtergaele, Dira Paes, Hermila Guedes, Marcelia Cartaxo.
Duração: 80 min.
Estréia: 11/05/2007
Ano: 2007


Baixio das Bestas: Rigor sem concessão


Autor: Marcelo Miranda

O diretor Claúdio Assis, novamente aponta sua câmera para o cotidiano de trabalhadores na região do Recife – agora, na zona da mata regional, em meio à monocultura da cana-de-açúcar. Jovens sem rumo certo, prostitutas, garotinhas exploradas sexualmente. É um universo de pretensão realista, mas Cláudio Assis consegue imprimir um misto de verdade e construção com talento raro no cinema brasileiro. Ao mesmo tempo em que se sente a existência daquelas personagens, a aproximação deles rumo à compaixão de quem os assiste e a construção das imagens e dos planos insiste, a todo instante, em dar um tom quase fabular ao que se conta, como se aquela gente estivesse encenando um teatro muito próprio delas, com marcações e movimentos definidos.

O paradoxo está na funcionalidade do procedimento. Claramente ajudado pelo diretor de fotografia Walter Carvalho, o pernambucano usa e abusa de uma câmera rigorosa e não faz concessões em se colocar no filme através dela. Uma hora é o plano fixo a registrar conversas banais, brigas, contação de casos; outra hora é um travelling a partir do teto e passeando pelos cômodos de um prostíbulo – mesmo que o espectador enxergue perfeitamente os cenários montados, Assis consegue ligar o olhar não para a representação física do espaço, mas sim à imagética. É na crueza dos acontecimentos, na violência inerente nos personagens (e não inerente aos personagens) e no vazio de vidas cujo ciclo trabalho-azaração parece jamais ter fim que Assis atinge a autenticidade almejada.

O processo é mais bem sucedido que em “Amarelo Manga”. Se no seu filme de estréia o cineasta ainda demonstrava certa imaturidade e uma ambição que não condizia com as cenas na tela, em “Baixio das Bestas” Cláudio Assis radicaliza e vai fundo na proposta de expor um universo aparentemente sem saída. Há certo esvaziamento e reducionismo no jeito como constrói seus protagonistas – eles são como são e não existe respiro nem possibilidades de mudança (nisso, “Amarelo Manga” ainda tinha gente que buscava alguma coisa, e em determinados casos atingia altíssimo grau de modificação – como era o caso da personagem de Dira Paes). Se num filme puramente maniqueísta ou esquemático, tal reducionismo parecesse gratuito, neste longa de Assis reflete apenas um jeito de escancarar caminhos sem grandes perspectivas. A única a aparentemente sofrer mudança (a menininha explorada pelo avô) muda de ambiente, só para voltar a ser o que já era antes – um objeto de deleite a caminhoneiros e canavieiros.

Incrível como o rigor extremo de Assis parece funcionar em praticamente o filme inteiro. Quando se diz que o diretor está presente ao longo de toda a projeção, é num sentido estritamente autoral, de um artista que ousa em dar a sua cara ao trabalho apresentado. Assis parece respirar a cada cena de “Baixio das Bestas”. Cenas que não dialogam, a princípio. Um plano não carrega o outro, o corte vem ora seco, ora em fades, e a imagem surgida a seguir parece iniciar alguma outra ação, sem dar continuidade à anterior. Essa modernidade intensa vem carregada, em alguns casos, de simbolismos um pouco exagerados, como é o caso da invasão do grupo de maracatu na casa do avô. Mas Cláudio Assis, no talento de conseguir costurar cenas sem acorrentá-las, cria outro paradoxo: dá frescor a um processo narrativo que exige do espectador manter-se firme, por conta de seqüências nada “agradáveis” aos olhos – porém, com impacto genuíno pelos seus significados de construção e intenção. Só vendo.

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