LADY VINGANÇA:


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Original: Chinjeolhan geumjassi
País: Coréia do Sul
Direção: Park Chan-Wook
Elenco: Lee Yeong-ae, Choi Min-sik, Go Su-Hee, Kang Hye-jeong, Kim Be-Seon, Kim Byeong-ok, Kim Shi-Koo, Kwon Yea-young, Lee Seung-Shin, Lim Su-gyeong.
Duração: 112 min.
Estréia: 11/05/2007
Ano: 2005


Champinha em pele de Bento XVI


Autor: Érico Fuks

Num mercado cinematográfico dominado pela chegada das terceiras edições de aranhas, piratas e ogros, o cinema coreano de ponta também merece seu lugar ao sol. “Lady Vingança”, última parte da “trilogia da vingança” do diretor Park Chan Wook, encerra a saga com algumas semelhanças mais evidentes e mantém o mesmo clima dos anteriores, mas traz também diferenças fundamentais. A primeira delas, talvez a mais importante, é o fato de a protagonista ser uma persona feminina, carregando consigo toda uma aura dúbia de veneração idílica envolta por preconceitos culturais.

Fechar o caixão da tríade, lacrar o invólucro vingativo não significa necessariamente encerrar o tema, muito pelo contrário. “Lady Vingança” deixa furúnculos abertos e não parece ser muito otimista quanto às suas possibilidades de cicatrização. De acordo com o diretor, os dois primeiros longas da trilogia se concentravam na vingança agressiva e explosiva dos personagens masculinos. Já “Lady Vingança” busca um ódio mais elegante e uma violência mais delicada. Tanto é que, em suas acepções sobre o tema, o primeiro, “Sympathy for Mr. Vengeance”, trata o seqüestro, enquanto que “Oldboy” aborda o confinamento e este último enfoca a redenção.

“Lady Vingança” busca os caminhos mais tortuosos para se chegar a algum lugar. Não existem soluções fáceis nem atalhos pré-determinados. É um filme emblemático, que se constrói por fragmentos inusitados. Começa com um coro musical basicamente feminino, vestido de Papai Noel, debaixo da neve, ensaiando canções natalinas. Só que com um detalhe: a música não se escuta. Não bastasse um grupo de mulheres estar fantasiado de homens, uma série de questões surge e muitas outras permeiam o entendimento da construção narrativa. Por que mostrar a comemoração de uma ocasião tradicionalmente cristã, se o país mantém suas raízes religiosas orientais? Por que mostrar um grupo de mulheres tristes e chorosas, como se estivessem num ritual fúnebre, se a ocasião festiva pede a paz e a alegria de uma noite feliz?

Esse distanciamento entre os conceitos sócio-cinematográficos cristalizados já era suficientemente percebido em “Oldboy”. Naquele filme há uma cena bem ilustrativa dessa tese, em que o prisioneiro se contorce debaixo de uma portinhola rente ao chão para pedir algo e, quebrando a expectativa de que o ambiente interno é pequeno e sujo, a cena seguinte mostra essa prisão enorme e confortável. Aqui em “Lady Vingança” a sucessão de cenas molda-se de maneira ainda mais iconoclástica, mais radical, beirando o caótico. Existe nitidamente um trabalho cuidadoso na direção de cenas e na composição de planos e de espaços, mas incompreensível na montagem. Imagens que se intercalam sem fazer o menor sentido e, quando o fazem, há toda uma simetria de ângulos e cortes mas que, justapostos e subseqüentes, deixam a obra ainda mais confusa. “Lady Vingança” é em síntese a frase da música-concreta de Arnaldo Antunes, “tudo ao mesmo tempo agora”. Por trás de toda uma limpeza e transparência estética revela-se um amontoado de figuras, cada qual carregando seu peso dramático intenso e conturbado.

A figura central do texto é por si só um poço paradoxal de contradições. Geum-ja é uma jovem que chocou a população do país quando foi incriminada pelo seqüestro e assassinato de um garoto. Não bastasse o ato frio de crueldade, o que mais comoveu as pessoas é o fato de uma moça tão bonita, de traços tão angelicais, ser capaz de um gesto hediondo como este. Durante seus 13 anos de cadeia, elabora um plano e ganha a simpatia do povo carcerário, o que lhe rende o apelido de “doce” Geum-ja. É essa analogia que se estampa no cartaz de divulgação do filme. A criminosa é vista como uma beata, uma salvadora, uma maria-cheia-de-graça, uma Madre Teresa de Calcutá às avessas. Ao contrário do que qualquer religião românica prega, a canonização da protagonista se dá pela imagem externa, pelo aspecto físico, pela pele branca e lisa que a terra há de mastigar. Já o seu caráter e as suas predestinações pra lá de duvidosas, a essência da alma que a Igreja propaga que valoriza no Homem, são colocados em segundo plano no que diz respeito a essa sacra idolatria.

Pois bem. As antíteses e os contrapontos, a dialética humana jogada às telas como se fosse um quebra-cabeça de 10 mil peças é uma característica autoral de Chan Wook. O diretor não apresenta, mas esparrama seus personagens e suas questões. A ruptura paradigmática de linguagem, de sentidos e de valores é colocada quase às últimas conseqüências. Mais difícil de compreender é o motivo pelo qual o cineasta vai aos poucos amansando sua voracidade e buscando colocar uma linearidade em seu diagrama. Assim como em “Oldboy”, o se acostumar à desordem é um campo fértil para a organização de suas idéias, expostas de modo, digamos, mais convencional. Por mais estapafúrdio que possa parecer o desfecho, e por mais improváveis que sejam as motivações dos atos dos personagens, o filme vai costurando suas arestas e encontrando caminhos narrativos mais lógicos. No contexto filmográfico isso soa mais como um problema do que como a resposta de uma equação misteriosa. A trilogia da vendetta sul-coreana apresenta-se como um exercício de experimentalismo formal, mas não tem colhões suficientes para carregar esse ideograma até o fim. A trajetória parcialmente anárquica dos planos estampa muito mais um estilo Chan Wook de filmar e se sobrepõe à densidade de seus dilemas. Difícil afirmar se é truque ou ingenuidade, mas “Lady Vingança” é bem carmelita nas soluções encontradas para seus filhotes travestidos de barra-pesada. O que parecia no intróito ser uma rebelião estilística e uma explosão criativa finca-se no rabicho com o esclarecimento da “surpresinha”, no pior dos sentidos. Tudo e todos parecem encontrar seu espaço. É quando o diretor faz as pazes com seu cinema, muito embora mantenha seus personagens em pé-de-guerra. “Ninguém é normal”, uma derradeira frase proferida em um dos momentos mais tensos do filme, funciona mais como o grito de sua visão de mundo do que a conclusão de uma hipótese apresentada. E esse versículo apocalíptico não se encontra em nenhum testamento religioso.
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