ODIQUÊ?:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Felipe Joffily
Elenco: Cauã Reymond, Dudu Azevedo, Cássia Kiss e Alexandre Moretzsohn.
Duração: 90 min.
Estréia: 04/05/07
Ano: 2006


“Estereótipo e esquematismo na auto-representação”


Autor: Anahí Borges

“Antonia”, de Tata Amaral, trouxe novamente o debate público sobre o descompasso existente no cinema brasileiro contemporâneo: filmes que falam da periferia, mas cujo público consumidor desse cinema é a classe média. E como a classe média pouco se interessa pelas problemáticas sociais assim estampadas na tela não assiste a esses filmes, o que gera pouca bilheteria para eles. Pra bem da verdade, há tempos essa discussão existe, nos remetendo inclusive ao período do Cinema Novo, por exemplo. O fato é que essa discussão foi reacesa poucos meses faz, valendo-se até de Ismail Xavier definindo, na Folha Ilustrada, o cinema nacional atual que segundo ele oscila entre “a representação da pobreza” e o “ressentimento da classe média”. E eis que aparece “Ódique”, um filme que aparentemente rompe com a tendência da representação da pobreza e propõe um retrato da classe média alta carioca, mais diretamente, dos jovens desse estrato social.

Retomando a citação ao Cinema Novo, se Arnaldo Jabor, em “Opinião Pública”, ousou compor um quadro crítico da burguesia com um humor fino, cínico e sarcástico, gerador de forças dramáticas, de representação e de pensamento brutais que até hoje ressoam e nos emocionam, Felipe Joffily, em “Ódique”, se vale do mais autêntico estereótipo e da mais esquemática dramaturgia para fazer um filme que se pretende porta bandeira da juventude transviada dos altos escalões sociais. Esses transvios, no entanto, incomodam pelo esquematismo, superficialidade e gratuidade: a história se passa em uma noite em que jovens burgueses, a fim de conseguir dinheiro para irem ao carnaval na Bahia, cometem as maiores atrocidades morais e sociais com os outros, como agressões físicas, ameaças, criminalidade, banditismo. O fato é que muitos gestos e intenções das personagens não convencem, sendo, inclusive, incoerentes. Por exemplo, como compreender e acreditar que o playboy que leva o golpe dos “amigos” tenha aceitado participar de um crime no qual receberia financeiramente um valor próximo à R$200,00? Uma personagem rica, mimada pelos pais, que sequer apresenta traços de violência e mal caratismo?

Diferentemente de “Proibido Proibir”, de Jorge Durán, que tem representado um ambiente de classe média coerente, interessante, com personagens concretas e complexas cujos conflitos interiores e exteriores são próprios de suas condições sociais e faixa etária, “Ódique” se alia a “Cama de Gato”, de Alexandre Stockler, para taxar a juventude burguesa, construir um imaginário pouco convincente dos jovens filhos da elite nacional. São filmes que parecem antes de tudo querer incomodar o espectador, chocá-lo, agredi-lo. É como se os realizadores, pertencentes à própria classe média, quisessem rejeitá-la de tal forma e com tamanha intensidade para destruí-la. Antes o caminho para essa destruição fosse reflexivo, criativo, provocador. Pelo contrário, o esquematismo e as banalidades narrativas desses filmes, e, no caso, de “Ódique”, o aproxima de um filme de ação comum cujas personagens têm um objetivo, enfrentam obstáculos e vencem no final – tudo isso banhado a tiros, sangue e muita violência. “Ódique” também resvala no filme de tese que argumenta uma idéia sob um ponto de vista do diretor, anterior ao próprio filme. Retomando a citação de Ismail Xavier arrisco dizer que “Ódique” entraria na categoria do cinema de “ressentimento da classe média”, mas um ressentimento que se esgota, extrapola seus limites virando ódio e rebeldia.

Outro aspecto muito claro em “Ódique” é o diálogo que estabelece com “Cidade de Deus”, de Fernando Meirelles. Se este último retrata a violência e a criminalidade na favela carioca, o primeiro as adapta para o universo da elite carioca, valendo-se de uma linguagem cinematográfica muito semelhante com a que Meirelles utilizou em seu filme: a câmera na mão, movimentos rápidos, montagem acelerada, fotografia contrastada e, inclusive, o brilho na pele dos atores dando um aspecto hiperrealista à imagem. O diálogo proposto por Jofilly entre os filmes possui o seu momento explícito quando uma das personagens aponta a arma para o amigo e diz: “Dudinha o caralho, meu nome agora é Zé Pequeno”. Entretanto, diferentemente de “Cidade de Deus” em que as personagens por serem marginais e oprimidas pelo sistema social não tem saída e morrem, em “Ódique” os criminosos burgueses sobrevivem e alcançam seus objetivos. Em um prevalece à punição e em outro a salvação. Essa proposta dialógica em “Ódique” não deixa de ser uma leitura cartesiana da luta de classes.

Retomando a questão inicial sobre bilheteria: filmes nacionais, para quem? Se por um lado filmes que lidam com problemáticas de classes populares, tão comuns em nosso cinema, não atraem a classe média que é o público consumidor de cinema, o que esperar então de “Ódique”? Relevando, se é que seja possível relevar, duas questões importantíssimas e urgentes: a do filme ter estreado, em São Paulo, em apenas duas salas e simultaneamente ao lançamento de um imponente blockbuster, o “O Homem Aranha 3”, a bilheteria de “Ódique”, acredito eu, não vai faturar muito. Isso porque a maior parcela do principal público a que se destina – a juventude de classe média – pouco se interessa pelo cinema nacional, seja ele o de “representação da pobreza”, seja o de “ressentimento da classe média”.
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