EU ME CHAMO ELIZABETH:


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Original: Je M'Appelle Elisabeth
País: França
Direção: Jean-Pierre Ameris
Elenco: Alba Gaia Kraghede Bellugi, Stéphane Freiss, Maria de Medeiros, Yolande Moreau e Benjamin Ramon .
Duração: 90 min.
Estréia: 04/03/07
Ano: 2006


Falsa singeleza. Realidade que importa.


Autor: Cid Nader

A linda e esperta garotinha Betty, protagonista central desse “enganador” filme francês, vivida por Alba Gaïa Kraghede Bellugi, não se notabiliza em seu trabalho nessa obra dirigida por Jean-Pierre Améris pelo simples fato de ser uma linda e esperta garotinha, somente. Os olhos de Betty têm expressão indubitavelmente adulta que se mistura ao brilho proveniente da sinceridade e curiosidade típica dos de sua idade (10 anos). E esse componente acaba por ser um dos fatores que indicam a complexidade de um trabalho que, a olhos superficiais e ligeiros, poderia ser erroneamente entendido como um conto infantil sobre solidão, medos e particularidades típicas de uma garotinha, vivendo na década de 40, num bucólico interior francês. Quando disse que “Eu Me Chamo Elizabeth” é um filme enganador, quis fazer entender que isso, no caso, é uma virtude do trabalho, advinda da bela e nada previsível maneira encontrada pelo seu diretor de imprimir ritmo e sobriedade ao legado técnico que conduz o filme; além do jogo de cintura demonstrado, quando o que se conta aqui é uma história de um ser em evolução e crescimento, que sofre em seu íntimo as ameaças da dissolução de um lar, e manifesta em sua aparente inocência ter medo de enlouquecer.

Um filme que tem uma criança manifestando medo do enlouquecimento, já parte na frente, quando o caso é o espectador entender o quão duro e angustiante pode ser o mundo de alguém que ainda deveria estar somente preocupada em brincar com bonecas, ter medos dos trovões e do escuro (ela ainda os tem); que ainda deveria estar apenas preocupada em ser criança. A história conta o momento na vida de Betty, que vê sua irmã e melhor amiga – Agnes (Lauriane Sire) partindo de volta para a cidade por conta do período letivo, enquanto ela permanecerá no “bucólico interior francês”, ao lado dos pais em crise conjugal, Régis (Stéphane Freiss) e Mado (Maria de Medeiros), numa escola com poucos amigos, com casas “assombradas” em seu entorno, e um hospital psiquiátrico como fundos de sua residência. As possibilidades da exacerbação no quesito atuação, quando se joga tremenda responsabilidade nas costas de uma criança, principalmente quando em seu entorno as situações são de teor altissimamente combustível, são sempre algo a amedrontar. Mas o mérito da pequena atriz e, de quebra, do diretor, que não deixou vícios e clichês se apoderarem do momento propício ao erro, fizeram com que o filme em boa parte de sua trajetória caminhasse por vias plácidas e tranqüilas.

Sim em boa parte, mas não em sua totalidade. A entrada do personagem “maluquinho”, Yvon (Benjamin Ramon) – fugitivo da clínica vizinha -, de importância inquestionável para a história e para a compreensão do real objetivo a ser atingido pela película, acaba por criar momentos um tanto mais fracos e menos críveis, deslocando um pouco o foco sensível e bem executado até então, para colocar algumas pitadas de exagero no tempero até então sutil e equilibrado. Não que o trabalho perca completamente seus méritos após esse episódio, mas é que, um tanto por conta da atuação de Benjamin e outro tanto pela interação muito “adulta” da atriz mirim com ele, algo que vinha até então com cara de encantamento total, cede um pouco e perde em sensibilidade confiável.

Mas, como não há bem que sempre dure, também não há mal que persista até a eternidade, e o filme, mesmo sofrendo nesses momentos menos felizes de composição do novo personagem e sua conjunção com outros, consegue num dado instante alçar-se e distanciar-se do caminho ruim que parecia ter se delineado como obstáculo incontornável. A entrada de um ser “irracional” para formação de uma tríade, resgata um bocado da força e da beleza que conduziram a obra por um grande período, e indicam, novamente, que um trabalho acima da média da mesmice não poderia sucumbir totalmente a um apelo fácil e mal administrado momentaneamente. É resgatada, portanto, no final, a aura da diferenciação que se fez presente por um bom e “enganador” período.

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