MARCAS DA VIDA:


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Original: Red Road
País: Escócia
Direção: Andrea Arnold
Elenco: Tony Curran, Kate Dickie, Martin Compston, Nathalie Press.
Duração: 103 min.
Estréia: 04/05/07
Ano: 2006


Sentir x Explicar


Autor: Fernando Watanabe

Os primeiros 90 minutos de "Red Road" (o filme tem 113 min) são preciosos, pois durante essa uma hora e meia acompanhamos uma personagem interessante e enigmática, Jackie. A opção da diretora Andrea Arnold é filmar segundo o ponto de vista dela, usando a câmera subjetiva da personagem de forma criativa e atual: Jackie é vigilante monitora de câmeras de segurança espalhadas pela periferia de Glasgow, e ao comandar as câmeras instaladas naquele espaço, essa personagem guia também nosso ponto de vista, já que a visão das câmeras de segurança preenche a tela de projeção do cinema.

O ponto chave do filme é a ambigüidade e a incerteza acerca das motivações das atitudes nada comuns de Jackie. Ela nos é apresentada como uma pessoa solitária e observadora. Não se sabe se ela persegue Clyde a trabalho, ou por puro voyeurismo, se ela entra na vida dele por se sentir atraída pelo universo de Clyde, ou se está dissimulando como a melhor das agentes infiltradas. Centrado mais em acompanhar a imersão de Jackie naquele mundo que para ela é estranho do que em criar um enredo maquinal, o filme prioriza e acredita nas ações dela mais do que constrói um discurso com distanciamento. Diferente de "Os Infiltrados" de Martin Scorsese, que claro, é um filme produto de outra lógica cinematográfica. Aliada a uma ambientação claustrofóbica cinematograficamente bem composta (enquadramentos fechados, sombras, montagem que dilata o tempo e brinca com a tensão, que é crescente), é o nosso fascínio diante de fatos tão insólitos que segura o filme, até o limite. É inevitável não passar o filme inteiro perguntando-se "Por favor, não estrague tudo!".

Até que a meia hora final passa a rasteira: explicam-se as coisas. De forma minuciosa. Se esclarecem de forma apressada todas as motivações psicológicas e patológicas que levaram Jackie a fazer aqueles atos estranhos, que justamente por serem estranhos eram tão sedutores. A primeira uma hora e meia de filme nos leva a um mundo ficcional que beira o fantástico pela inverossimilhança dos fatos que uma pessoa tida como normal praticaria. Mas a explicação final determina e impõe à força bruta o sentido; sabemos que sentido dado quase sempre é sentido morto. E Red Road, para mim, morreu ali, aos 90 minutos.
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