HOMEM ARANHA 3:


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Original: Spider-Man 3
País: EUA
Direção: Sam Raimi
Elenco: Tobey Maguire, Kirsten Dunst, James Franco, Thomas Haden Church, Topher Grace, Bryce Dallas Howard, James Cromwell, Rosemary Harris, J.K. Simmons, Dylan Baker, Bill Nunn, Theresa Russell, Cliff Robert.
Duração: 120 min.
Estréia: 04/05/07
Ano: 2007


“Homem-Aranha 3” – a libido, a virtude americana, a religião.


Autor: Cid Nader

Quando inicia, "Homem-Aranha 3" remete, logo nas primeiras cenas, aos traços originais da história criada pela Marvel na década de 60. O cenário ao fundo, de prédios "desenhados" e jeitão de tirados do gibi mesmo - que emoldura a figura de estivador (em fuga) de Flint Marko/Homem Areia (Thomas Haden), com sua camiseta de listras horizontais –, comporá a película, do início ao fim, da maneira mais ostensiva e reverencial entre todos os filmes baseados nas graphic novels que remetem os fãs a uma Nova Iorque de tempos d'antanho. O personagem vivido por Haden, talvez só encontre similar em caracterização em filmes realizados à época, tanto por conta da precisão do figurino, quanto na caracterização tremendamente bem exercitada pelo ator. E assim, logo no início, um dos grandes trunfos desse grande filme dirigido por Sam Raimi é colocado na mesa, como um aviso do que virá mais à frente.

Mas, sabendo que somente de visual – mesmo que dos melhores, e tão justo a uma idéia que pareceria impossível qualquer apreciação caso tal cuidado não tivesse sido tomado – um grande filme não se sustentará para a eternidade o (num primeiro momento fugaz, talvez sim, por conta de um certo tipo de público tão antenado quanto desmemoriado), o diretor resolveu mostrar dessa vez um super-herói que cresceu, fugiu dos questionamentos de um adolescente em crise, mas que não obrigatoriamente atingiu um patamar de calma e paz interior suficientes para guindá-lo à proximidade de uma divindade inquestionável e segura. "Homem-Aranha 2" – no qual Peter Parker (identidade civil do herói, sempre vivido pelo "interessante" Tobey Maguire) revela-se o adolescente em crise pelo fato de ter que arcar com a tremenda responsabilidade de ter de ser um salvador de vidas e protetor das propriedades – ainda continua sendo o melhor da trilogia, quase uma obra- prima, insuperável em seu detalhamento carinhoso do personagem; mas esteve próximo de ser desbancado por essa nova versão, justamente pela interessante delineação do caráter do ser que cresceu e "modificou", continuando a se mostrar vulnerável, agora por "adultez".

Peter Parker cedeu às tentações da fama: revela-se um novo adulto que não está insatisfeito em ser aclamado pelas ruas, nos noticiários, nos cartazes, aproveitando-se de seu status de ídolo, para coreografar suas investidas contra os bandidos, para mostrar-se e exibir-se a todos - mais especificamente para as mulheres. Movimentação da libido em alta nesse novo ser, que vê o sexo oposto muito além do que "somente" o ser humano que teve sempre a "obrigação" de defender; que se encanta pelas mulheres e não nega ser um homem, afinal, num outro estágio natural da vida. Sam Raimi recheia seu novo trabalho de mulheres tentadoras – que quase sempre andam em dupla, como que para afirmar de maneira mais próxima algo muito comum no imaginário masculino, com a sensação de que estão sempre a comentar algo, entre cochichos e maliciosas risadas, cabelos esvoaçantes e olhares falsamente furtivos. E o rapaz não consegue parar de virar o pescoço à procura delas por boa parte do filme, a ponto de cometer uma heresia (como confirmação do poder da libido a mil, mexendo, nesse caso, com os hormôniosa) quando, numa homenagem em agradecimento por um salvamento exemplar – de uma mulher quase tão espetacular quanto sua amada Mary Jane Watson (a cada vez mais espetacular, Kristen Dunst): a "loira" Gwen Stacy (Bryce Dallas Howard) -, repete, para que os fotógrafos se deliciem, a famosa cena do beijo em que ele, de cabeça para baixo, permite que ela descubra parte do seu rosto. Nesse ponto, a libido (e os hormônios) exacerba e chega ao cume, interferindo gravemente em seu relacionamento com a namorada, a quem está prestes a pedir em casamento e que se sente traída, num momento de insegurança que já vem desde frustrações no trabalho não percebidas por um homem que não anda com a cabeça lá muito bem aprumada. Peter se vê objeto de atenção de todos (inclua-se aí os do sexo masculino ou as criancinhas), e nutre-se ostensivamente da tentadora fama.

Mas estamos em território ianque, e o que se espera sempre é a volta por cima de seus filhos (perdido ele que estava em devaneios); Homem-Aranha, como um dos mais dignos e respeitados não será o primeiro a quebrar a escrita. Nesse momento as lutas – algo tão esperado por grande parcela do público - se acentuam, e a tela explode em violência; gráfica e exasperante. E o melhor modo de "voltar à Terra" é quando o país se vê mais do que nunca à mercê da própria sorte, ou de quem a defenderá do perigo. E as pessoas vibram nas ruas com a volta do super-herói (que além de ter cedido à libido, havia sucumbido ao "mal" – do qual falarei abaixo). A virtude do "povo escolhido" surge, e se vê refletida na coragem do herói inferiorizado, que apanhará muito, sofrerá muito, mas nunca desistirá; representará dignamente tal virtude que vem desde sempre como exemplo a ser seguido e enobrecido, que motiva uma nação que se acredita como "escolhida" (o cinema nunca se furtou, e sempre fez disso um grande motivador). O filme é espetacular visualmente nesses momentos de combate e, a partir deles, se faz possível entender um pouco onde foram gastados os quase 300 milhões de dólares anunciados como peça de respeito.

No início do filme algo inexplicável cai, vindo diretamente do céu, na Terra, e uma "entidade" espacial passa a tentar se posicionar em nosso planeta. Percebe-se mais à frente que tal exemplar de vida desconhecida veio como um representante do "mal". Se transformará, crescerá e, pior, transformará o super-herói, digno representante da bondade – afinal, apesar de "meio perdido" por motivos mundanos -, em uma representação de forças ruins; e há um alto sentido religioso embutido aí. Mas fica uma dúvida no ar: a partir desse "pedaço de vida extraterrestre" um anti-herói negro surgirá, e logo após um Homem-Aranha vestido de negro (fashion, sim, muito mais elegante do que a roupa azul e vermelha – Estados Unidos, virtude americana...) que estará, num primeiro momento, sentindo os instantes de indecisão que transformam um ser puro em um ímpio. Se observado com rigor e "ranzinzice" tal momento da história, pode-se chegar a conclusões nas quais se entenderia que o filme simplifica e diminue avaliações entre o bem e o mal, entre o inferno e o paraíso, entre os escolhidos por Deus e os escolhidos pelo diabo; e a obra perde um pouco de dignidade – enquanto ganha apelo mais etéreo. Associar o lado negro das coisas ao mal é fato repetido desde sempre, e por tal razão me permito entender que Sam Raimi o tenha feito. Mas o mal que se constrói pela religião, deverá ser dizimado por ela, também. E surgirão "os sinos" e seus sons como possibilidade de salvação de um povo que não mais enxerga o bom futuro de tanto ver seu herói sofrer. À parte um tanto simplista esse modo de enveredar por caminhos divinos, é justo emparelhar o super-herói ao criador (ou salvador, ou redentor...).

É complexo esse filme que transforma o adolescente Peter Parker em um adulto. Duas figuras têm importância fundamental nesse processo – e entre elas não está Mary Jane. O personagem ainda humano (antes da transformação) do Homem-Areia é um digno representante dos desvalidos, dos desprovidos da sorte, e suas "razões" servirão de ensinamento ao super-herói; tanto quanto a complexidade de seu inimigo/amigo íntimo, Harry Osborn (James Franco), que irá e virá durante o filme, até se tornar um dos pontos decisivos para um desfecho que somente trará ganhos a ele.

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