MISS POTTER:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: EUA
Direção: Chris Noonan
Elenco: Renée Zellweger, Ewan McGregor, Emily Watson, Bill Paterson, Barbara Flynn, Lloyd Owen.
Duração: 92 min.
Estréia: 27/04/2007
Ano: 2006


Comum


Autor: Cid Nader

A história de Beatrix Potter - que viveu entre a virada do século XIX para o XX - é dessas enobrecedoras, que resgatam as batalhas de grandes pessoas lutando contra o “estabelecido”, e normalmente saindo como vencedoras; ao menos enxergando seus triunfos através da ótica da posteridade. Quando a pessoa a ser retratada é mulher, as possibilidades da empatia à causa se multiplicam, por conta da sabida dificuldade a mais que o sexo feminino teve como uma eterna tentativa – e execução - de entrave desde o “quase sempre”, no percurso humano sobre a Terra. Conhecida como Miss Potter, ela, de família bastada – embora não necessariamente nobre -, teve sempre à mão as possibilidades de um bom viver, com a única dificuldade imaginável surgindo no momento da escolha de um marido “sugerido” anteriormente. Só que não era uma conformada, e resolveu que teria a possibilidade de inscrever-se de algum modo na história, justamente no grupo dos que lutaram contra a conformidade e as normas.

Beatrix (aqui representada pela avermelhada Renèe Zellweger – sim, avermelhada, talvez a solução possível imaginada pelos realizadores da película como melhor maneira de fazê-la semelhante a uma inglesa) saltou o muro que separa os que ficarão no limbo (os comuns) dos “bons”, no momento em que resolveu mostrar seus desenhos de bichos humanizados aos irmãos e editores, Harold e Fruing Warne (Anton Lesser e David Bamber), que, como jogada para livrar-se de um empecilho recém-surgido em seu trabalho – o irmão mais novo, Norman (Ewan McGregor) –, resolveram pôr-lhe em mãos a função de tirar de leite de pedra do que supuseram seria um provável e retumbante fracasso junto ao público. Intuição falha, palpite enganado, e os desenhos dela não só conquistaram o público da época, como atravessaram a fronteira temporal sendo reconhecidos e admirados até os dias atuais.

A moça, de personalidade forte e determinada, amparou-se na independência conquistada com a crescente venda de seus livretos para determinar um destino muito particular para si, num crescendo de aprendizado tão grande, que terminou a vida reconhecida como uma das grandes protetoras de terras e do ecossistema da região de Lake Discrict, Inglaterra, naturalmente. Mas o que pode ser considerada uma vida exemplar, não ganhou um retrato dos mais interessantes quando transposta para o cinema pelo diretor Chris Noonan. Curiosa a ligação desse realizador a “bichos humanos”, já que seu maior sucesso no cinema foi com “Babe – O Porquinho Atrapalhado” (1995). Só que em “Babe” o diretor mostrou-se mais ousado, mais “antenado”, mais sensível às possibilidades que tinha em mãos – apesar de ser um filme preferencialmente infantil, destinado a um público supostamente menos exigente. Em “Miss Potter”, a boa relação com os bichinhos desenhados pela própria são o que há de melhor - os personagens ganham vida através de animações sensíveis, bem realizadas, que não tentam se tornar o grande “mote” do trabalho, na marra, imiscuindo-se em poucos momentos, de maneira elegante, fazendo jus à elegância de seus traços originais. Mas fica somente aí o que o filme tem de muito bom e como tentativa de algo mais ousado.

O grande “volume” do trabalho, a história da gente (humana) que transita por ele, a luta de Betrix Potter contra o sistema, a paixão dela por Norman Warne, por suas criaturas e pelas suas terras, o grosso do filme, enfim, foram tratados de modo comum pelo diretor. O excesso na ênfase em favor da boa reconstituição de época, da fotografia correta e glamourizada, das caracterizações “britânicas” de todos os personagens, e o modo chatamente elegante como tudo é filmado, sem “erros” mas também sem surpresas - como é sem surpresa o roteiro ou mais sem surpresa ainda a montagem -, só fazem pensar no filme como resultado de um trabalho muito conformado, acomodado, comum. Será que precisamos de trabalhos desse tipo, ainda?

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