OSCAR NIEMEYER - A VIDA É UM SOPRO:


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Original: Idem
País: Brasil
Direção: Fabiano Maciel
Elenco: Documentário
Duração: 90 min.
Estréia: 20/04/2007
Ano: 2007


Um trabalho feito com respeito e carinho


Autor: Fernando Watanabe

No primeiro plano, a câmera filma pelas janelas as montanhas cariocas de dentro do reduto do arquiteto, já esclarecendo a chave na qual o filme irá operar: o olhar de Niemeyer sobre o mundo. E é justamente por se estruturar em torno de seu personagem que o filme revela-se muito mais do que uma simples homenagem. Há três atitudes que a obra toma em relação ao arquiteto: reverência, ilustração do que ele diz, e aprofundamento.

Em entrevistas, o diretor enfatiza que a intenção do documentário era mesmo homenagear Niemeyer. Isso seria extremamente nocivo se somente este aspecto de reverência fosse trabalhado, uma vez que é o lado fraco do filme. Em uma hora e meia e dividindo tempo com os outros dois aspectos, a reverência se manifesta pela tradicional pontuação de trechos da vida do artista (porque para Niemeyer arquitetura pode ser uma arte), infância, início da carreira e a construção de Brasília. E sobre esta última, a escolha do material de arquivo que vez ou outra aparece é um reflexo dessa idolatria, a princípio, um pouco ingênua. Explica-se: os arquivos são em sua maioria pequenos filmes propagandistas, da década de 50, feitos segundo a ideologia progressista que o governo de Juscelino divulgava. Também não poderiam faltar os vários amigos ilustres (Chico Buarque, Ferreira Gullar) falando coisas boas sobre Niemeyer. E, para completar, somos enviados a uma viajem num ritmo vertiginoso pelas obras que ele construiu mundo afora. Em um minuto estamos em Paris, noutro em Nova York, e por aí vai a pontuação biográfica, numa montagem acelerada que dilui justamente o prazer contemplativo que a arquitetura proporciona.

Tal prazer é expresso por Niemeyer, citando Baudelaire: "A arte deve inventar espantar" e "Eu, quando faço uma obra arquitetônica, quero que as pessoas parem e se espantem!" Ora, mas a montagem apressada não nos permite contemplar as construções: dois segundos de imagem do Congresso, corta, dois segundos de imagem da sede da ONU, corta, e por aí vai. Mas há um ponto elogiável na filmagem das construções, que é a realização desta segundo um critério rigoroso: a maioria dos planos das fachadas externas é fixo, e a contemplação da arquitetura vem do já referido prazer de parar, olhar e se espantar. Uma pena que os cortes apressados eliminem a contemplação, mas a fixidez do plano é correta. Por outro lado, quando a câmera entra nos interiores, ela quase sempre se movimenta, bailando, como o olhar de um de nós que por lá caminha, observando e sentido a força que emana de ver aquele espaço mudando a toda hora em nosso campo visual, uma vez que estamos em movimento. E perto do fim, Niemeyer discorre sobre a efemeridade da vida e dos homens. E então planos das construções são filmados com a câmera se movimentando de maneira rápida, fugidia, nada mais se apreende pelo olhar, tudo foge pelas bordas do quadro.

O segundo aspecto é o da ilustração, e é bem simples. Os assuntos introduzidos pelo personagem levam a montagem a colocar algum material de arquivo, depoimento, ou imagens que reforçam e confirmam o que ele diz ou dizem dele. Por exemplo: falam que ele sempre foi fiel às suas convicções, que é um pessimista, com um pé no comunismo. Corta, e entram imagens de Jean Paul Sartre dizendo: "a Revolução Cubana está seguindo o caminho certo, e dele não pode se desviar". O filme passa a impressão de que segue o fluxo inquieto e ao mesmo tempo desencantado do pensamento do personagem.

E esse fluxo culmina no aprofundamento, certamente fruto da curiosidade do diretor por Niemeyer. Ele escava, e tira dele opiniões não só sobre arquitetura, política e arte, mas principalmente sobre sua visão pessimista da vida, apesar de toda a alegria da qual é amante. Segundo palavras do próprio arquiteto, a vida é maior que todo seu trabalho, é maior que nós. E, felizmente, o filme respeita com carinho esse personagem, observa-o, reverencia-o, reforça suas opiniões, até chegar a uma simbiose entre personagem e a linguagem do realizador, que juntos revelam o verdadeiro sentido deste documentário: um atestado de resistência e indignação com o mundo em que vivemos.

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