LUA CAMBARÁ - NAS ESCADARIAS DO PALÁCIO:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Rosemberg Cariry
Elenco: Dira Paes, Chico Diaz, Toni Silva.
Duração: 98 min.
Estréia: 20/04/2007
Ano: 2002


Equívoco de Rosemberg.


Autor: Cid Nader

Não dá para falarmos em cinema nordestino como coisa única, de mesma identidade narrativa, contextualizações temáticas, origem étnica ou coisas em comum a mais. Não dá porque, já a princípio, seria tentar aglutinar identidades em torno de concepções de vida particulares, de modo a caracterizá-las de modo pitoresco, vistas por um olhar rasteiramente observador. Recentemente, aqui no site, fiz uma comparação entre o que acontece na região – falando de cinema mais especificamente -, e ficou evidente que existe um pólo onde efervescem idéias e projetos, enquanto os outros manifestam-se de modo mais tímido e menos ostensivo. O tal pólo situa-se em Pernambuco – mais especificamente, Recife – e já existe, tanto quanto cresce, há alguns bons anos. Do Ceará, aparentemente, um outro foco difusor anda ameaçando ganhar potência e indicar caminhos muito próprios para uma produção cinematográfica interessante. Mas sem alongar demais as possibilidades, vou centrar o tema em torno da figura já mais “antiga” do diretor Rosemberg Cariri – e é bom lembrar, novamente, que ele faz cinema cearense, com algumas características comuns que o ligam ao seu local e aos outros realizadores locais, mas não é o Ceará; até porque não existe um só Ceará, e como já havia sugerido, pensar assim seria criar uma idéia de “pitoresquice” execrável.

O diretor é reconhecido no meio como um defensor contumaz de seu estado, chegando, por vezes, em seus discursos, a criar uma divisão quase sólida entre o nordeste e a “rica e branca” região mais ao sul do país. À parte tanto fervor exercido em algumas ocasiões, o diretor surgiu para o cinema com obras que sempre tentaram fugir da mesmice narrativa, utilizando-se nessas tentativas de diversas situações pinçadas do folclore local; utiliza-se invariavelmente das histórias e riquezas literárias da região, sem dúvida. Surgido em meados dos 80, teve como grande destaque em sua carreira a confecção de “Corisco e Dadá” (seu terceiro longa-metragem para o cinema, 1995); um filme interessante e atipicamente autoral. Ano passado, Cariry fez uma outra obra bastante interessante, “Cinema Tapuia”, onde abdicou das possibilidades acomodadas e construiu uma espécie de “relicário (musicário) emocional” – com referências a “Iracema” (a obra máxima literária cearense, escrita pelo local José de Alencar).

Então é chegada a hora de voltar ao ano de 2003, e tentar entender o que aconteceu de errado no filme “Lua Cambará: Nas Escadarias do Palácio”. É óbvio que obras irregulares podem surgir no meio do trajeto, até de gênios da humanidade. Não chega a ser o caso de Cariry - ainda, ao menos – mas também não posso dizer que esse filme seja apenas um tropeço; é quase um desastre, na realidade. Para contar a história de uma filha negra bastarda, durante o século XIX, o diretor quer na realidade enaltecer a figura mítica da sertaneja. Até aí nada demais, contanto que se tomasse mais cuidado com a composição da personagem por parte da atriz Dira Paes, que foi pouco exigida em sua atuação (e aí vejo provável culpa do diretor, que não conseguiu uma atuação razoável de todo elenco). O filme peca bastante nesse quesito (atuações), a ponto de deixar dúvidas: se elas foram mal desenvolvidas mesmo pelos atores, mal exigidas por parte do diretor ou de algum responsável pelo elenco, ou pareceram ruins pela opção urgente no momento da montagem das seqüências, que são abortadas quase que durante todo o trajeto da história – fiquei realmente em dúvida, se tal “urgência” nos cortes e emendas teriam sido uma opção equivocada no modo de fluidez do filme, ou se teriam sido executados por conta da falta de opção quando constada, na ilha de edição, que os momentos dos atores não foram dos mais felizes.

Por conta desse mau desenvolvimento dos atores, cenas assustadoramente ruins infestam o filme o tempo todo, e qualquer tipo de possibilidade prazerosa vai-se esvaindo. Só que tem pecados até maiores, a película: a tentativa de “antropologização” de situações, atividades e camadas humanas do filme – há sertanejos, há fazendeiros e há ciganos – remete-o a uma “pitoresquice” ultrajante (como não poderia deixar de ser), que passa a impressão de momentos realizados para uma historieta teatral de escola; nem as músicas tem naturalidade nessas ocasiões. E há a tentativa de “ostentação estética”, que parece ser uma preocupação constante dentro do clã Cariry – seu filho Petrus, que o auxilia em seus últimos filmes, tem demonstrado grande apego a um modelo estético bastante específico em seu trabalho de curta-metragista, normalmente com bons resultados. O que não é o caso em “Lua Cambará...”, que sofre da maldição da grua – um truque gratuito e rasteiro – e inicia com uma desnecessária tomada a partir de um helicóptero; em algumas situações o filme leva lucro pelo “arrojo” nessas tentativas (eles têm um domínio de um estilo, com câmera que corre na horizontal sempre a partir de um ponto nada comum), mas de resto, um tanto desse pendor estético só contribui para o ar de artificialidade do trabalho, juntando-se às atuações e às situações “étnicas”.

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