BATISMO DE SANGUE:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Helvécio Ratton
Elenco: Caio Blat, Daniel de Oliveira, Cássio Gabus Mendes, Ângelo Antônio, Marcélia Cartaxo e Murilo Grossi.
Duração: 110 min.
Estréia: 20/04/2007
Ano: 2007


"Batismo de Sangue" – há a Terra e há o céu; há um mau filme e um bom filme.


Autor: Cid Nader

Uma vez fiz um comparativo aqui no site entre o modo argentino de encarar os duros momentos impostos pela ditadura e o jeito brasileiro de fazê-lo – tomando o cinema como instrumento para esse relato. No cinema do país vizinho – que fez daquele momento desejavelmente esquecível uma espécie de mola impulsora e inspiradora para produtores e diretores, com recorrência exaustiva na abordagem do tema – se re-constrói a história quase sempre em torno de grupos, de amontoados de pessoas que passaram pelo evento. Ao contrário do Brasil, onde a tendência é da individualização do assunto, quando – normalmente – se isola a figura de alguém e se trata do mesmo assunto enfocando e valorizando o drama pessoal do indivíduo; com notável perda de resultado para o nosso lado.

"Batismo de Sangue" vem um pouco na contra-mão da tendência, por enfocar – mesmo que a partir de um relato pessoal, buscado no livro de autoria de Frei Betto – um grupo de padres dominicanos que, a partir dos muros da PUC (Pontifícia Universidade Católica), ensejaram uma reação muito particular e ativa contra os militares governantes e seu sistema punitivo e sufocante. Quando digo que vem "um pouco", é porque a partir de um certo momento do filme a história passa a dar maior ênfase à figura angustiada de Frei Tito, isolando-o um pouco mais do contexto geral que vinha desenhando a trama, mas com fácil compreensão para tal procedimento (a figura do frei interpretado por Caio Blat não se faz aglutinadora e arregimentadora sentimental por imposição – o que costuma ser o caso de outras produções nacionais quando buscam a empatia do público, querendo crer que isso se dará mais facilmente, até, com a utilização de atores com evidente apelo popular -, mas sim por ser o "mote" mais destacado, já desde a construção da obra literária).

É sabido e notório o papel forte e determinado de grandes setores da Igreja Católica na luta contra o sistema que se estabeleceu com o golpe de 1964 – "determinado" certamente, mas não saberia dizer ao certo o quão "determinante" foi tal atuação (e aí coloco na mesma embalagem da dúvida todos os outros setores que se ofereceram em sacrifício pelo fim do regime), já que tenho formulada internamente a idéia de que a força dos militares expirou, como o ar que se acaba nas pessoas velhas e desinteressadas, e muito por conta do fim da necessidade de manutenção dos militares no poder por parte de seus verdadeiros patrocinadores; que era a instituição EUA. O modelo pé no chão, Jesus na Terra, seres humanos vistos como habitantes do planeta e, portanto, necessitados da ajuda, num primeiro plano, por aqui mesmo, criado através da Teologia da Libertação (que surgiu e passou a tomar forma com o Concílio Vaticano II, década de 60, e que teve entre seus maiores "abastecedores" alguns padres da América Latina subjugada - o peruano Gustavo Gutierrez ou o brasileiro Leonardo Boff), foi bastante contundente nessa tentativa de desafio e se uniu a setores combatentes dos mais inimagináveis até então, como os membros de clandestinas organizações comunistas e socialistas, dentre elas a Ação Libertadora Nacional, comandada pelo mito Carlos Marighella.

Indo mais diretamente ao filme e o modo pelo qual o diretor Helvécio Ratton resolveu contar parte dessa história: há problemas graves nessa película, certamente; tanto quanto virtudes inquestionáveis. Mais no início – diria que na primeira metade – o diretor praticamente entrega seu trabalho aos leões, quando imagina que preciosismo na forma cenográfica e nos modelos de comportamento são algo absolutamente imprescindível quando se vai contar uma história de época (logicamente que esse tipo de cuidado é necessário, inclusive cobro fidelidade nesses momentos), a ponto de evitar completar situações de diálogos ou ações mais importantes para a trama, para intrometer alguém cantando uma "singela" bossa nova, por exemplo, no meio do caos, do nada, para tentar criar clima de naturalidade e espontaneidade. O que consegue, na realidade, e isso principalmente nesse instante de apresentação das situações e dos personagens, é um clima de artificialidade e superficialidade que chega a exasperar – um risco forte corrido, já que tais situações podem fazer com que parte dos espectadores não volte a conseguir foco na trama nos momentos em que ele se tornará mais densa e bem executada. Nesses momentos mais iniciais, também, e justamente quando se fixa a situação dos padres agindo de maneira mais terrena, diálogos aparecem de forma mais implausível e impostada, situações de reconhecimento e confronto parecem "desenhadas" demais e um certo clima de produção televisiva teima em desenhar os contornos do filme.

Mas nada como uma metade após a outra. E como se fosse possível imaginar o cinema montado como algo realizado linearmente, desde os momentos da filmagem até os momentos de sua construção final – e sabemos que não é assim –, em sua "segunda parte" o trabalho de Ratton ganha corpo; decola. Quando todo o estardalhaço inicial já foi deflagrado, as situações terrenas todas devidamente evidenciadas, o filme parece dar uma guinada em direção âmago mais verdadeiro da questão, e ganha uma aura, uma velocidade e andamento muito mais condizentes com o que se espera de um bom cinema. E chega a surpreender com o amadurecimento que vai se evidenciando cada vez mais, enquanto caminha em direção ao seu final. As situações de lembranças dos momentos do cárcere continuam a assomar à tela e tentam prejudicar um momento no desenvolvimento que ganha força a cada frame, a cada nota musical – mas consegue-se, com um pouco de boa vontade, imaginá-las como algo referente ao lado não tão bom do trabalho, lá no seu início. Parece, até, que o diretor deve ter imaginado um filme em duas partes. Como os dois modos possíveis de participação da Igreja. No primeiro e mais ostensivamente momento - o terreno –, ele falha. No segundo, quando há a fuga da realidade por parte de Tito, quando ele, exilado, se retira no convento da França, e não consegue mais agir de forma racional (terrena, metaforicamente), há a aproximação com o fim (pensar em espiritual, não é absolutamente descartável nesse momento), e Ratton se "redime". Um filme que seria para mostrar a ação dos padres juntos aos seus ainda em terreno firme, sólido, realiza-se satisfatoriamente somente quando se aproxima do inexplicável, do intocável (mente humana, ou Deus, tanto faz). Curioso. Mesmo sem saber se foi essa realmente a intenção do diretor.

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