VERMELHO COMO O CÉU:


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Original: Rosso come il cielo
País: Itália
Direção: Cristiano Bortone
Elenco: Luca Capriotti, Francesca Maturanza, Simone Gulli, Paolo Sassanelli.
Duração: 95 min.
Estréia: 20/04/2007
Ano: 2004


Um Belo Filme


Autor: Cesar Zamberlan

“Vermelho como o céu” estréia com o endosso de ter sido eleito o melhor filme pelo público na última Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Vendo o filme é fácil entender porquê e com certeza ele arrancará lágrimas dos mais sensíveis. Ingredientes para isso não faltam. Um breve resumo do filme já diz tudo: garoto se fere em acidente com uma arma, fica quase que totalmente cego (vê apenas umas manchas), é obrigado a se separar da família e vai para uma instituição educacional de cegos para continuar seus estudos. Nem é preciso dizer mais. Porém, o filme não faz isso de forma apelativa, respeita a inteligência e os sentimentos do espectador, acaba não caindo no melodrama rasgado.

Talvez, o problema do filme seja de outra ordem e está relacionado à questão da verossimilhança de algumas seqüências que acabam sendo bem mal resolvidas e jogadas na tela de forma capenga, forçando o espectador a aceitá-las, visto que o filme, como indica um letreiro no início, é baseado em fatos reais, na vida de Mirco Mencacci, renomado editor de som da indústria cinematográfica italiana. Esse recurso, comumente usado no cinema, de justificar uma verossimilhança na ligação do filme com a realidade não se sustenta, porque o que vale é o que está na tela e por mais que aquilo tenha ocorrido, é preciso dar à cena uma nova realidade, fazê-la verdadeira, ou melhor, verossímil na sua segunda existência. Digo isso porque tanto a seqüência do acidente no início do filme como a seqüência da manifestação na parte final do filme são muito mal ajambradas, provocam um ruído na comunicação que o filme estabelece com o público.

Este problema do filme, no entanto, acaba sendo menor diante dos seus acertos. Cristiano Bartone consegue um equilíbrio adequado entre as duas partes do filme: a primeira e mais curta, luminosa, o antes do acidente na idílica Toscana e a segunda, mais sóbria, o pós-acidente na escola em Genova. A adaptação de Mirco a nova realidade provocada pela cegueira, sua recusa inicial a escola e seus métodos, até a descoberta de uma nova forma de ver o mundo são construídas de maneira sempre correta. Bartone poderia até ousar mais, mas se contém, colocando a história na frente de qualquer arroubo estético. Consegue também trabalhar bem com seus atores mirins, fazendo aquilo que para muitos pode parecer difícil: extrair das crianças a honestidade que lhes é natural, mas que muitas vezes a câmera e todo peso do dispositivo do cinema rouba.

Esse respeito pela história rende bons momentos, atinge uma dimensão quase épica no momento que Mirco consegue contaminar seus colegas na encenação do seu conto de fadas construído com os sons que a partir de agora o guiam pelo mundo. Esse novo mundo de Mirco, o renascer do garoto agora movido pela audição é retratado de forma inspirada, envolvente e emocionante e é o momento chave do filme. As demais questões que circundam o filme como a questão política: o método opressivo da instituição num momento histórico de grandes contestações, o pós 68 e o início da década de 70, acabam como um pano de fundo mal resolvido ou mal utilizado, mas ainda assim, com boa vontade são superadas, pela contagiante alegria de Mirco e companheiros.

É certo que Bartone poderia ser um pouco mais ousado, em alguns momentos a sua câmera compartilha da cegueira quase total de Mirco: ela vê com ele e, como ele, explora o seu mundo de manchas coloridas. Mas, na encenação que os alunos realizam para os pais, Bartone resolve neutralizar a câmera em relação ao que ela narra, poderia ele ter colocado os espectadores na mesma situação que os pais dos alunos, escurecendo a câmera com a venda que os pais dos alunos recebem e nos permitindo ouvir apenas, assim como eles. Até porque o mais importante neste momento é a não imagem: é o som.

Ainda assim, na sua extrema correção, “Vermelho como o céu” tem muitos encantos.

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