HANNIBAL - A ORIGEM DO MAL:


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Original: Hannibal Rising
País: EUA/Reino Unido
Direção: Peter Webber
Elenco: Gaspard Ulliel, Gong Li, Helena Lia Tachovska, Aaron Thomas, Rhys Ifans, Richard Brake, Kevin McKidd, Stephen Walters, Ivan Marevich.
Duração: 117 MIN.
Estréia: 20/04/2007
Ano: 2007


Barbárie de um diretor se impondo à desejável sutileza.


Autor: Cid Nader

A idéia inicial implementada nessa história é a de detectar o momento – e mais do que isso, as razões – em que nasce um monstro, uma aberração. Lembrando que tal personagem a ser buscado na origem é o famoso e violento, ao mesmo tempo em que refinado, Hannibal Lecter, lembrando da caracterização bastante particular, sutil e surpreendentemente "cool" emprestada por Anthony Hopkins no segundo e terceiro filmes da "série", lembrando de sua origem européia oriental, e lembrando, principalmente, que a intenção é a de mostrar um início de tudo – donde se depreenderia, a princípio, construção de traços, detalhamentos de origem psicológica... –, mais uma vez me senti traído pelo modismo, para mim inexplicável, do sangue que jorra e espirra, da violência explicitada até nausear, da falta de "finesse" que assomam a tela quase do início até o fim do filme.

Antes de continuar a falar sobre o filme, quando digo que para mim parece inexplicável essa opção pela estética do retalhamento, da desfiguração, do massacre da carne, quando digo que para mim parece inexplicável o nauseabundo jorro sangüíneo, o faço, inclusive, como um questionamento da real verdade sobre o gosto popular por tais contundências. Será verdade que o grande público prefere optar pelo susto – ou medo - causado pelo impacto físico, pelo impacto visual, ao bom e "generoso" escarafunchar mental que as situações sutilmente criadas por um bom domínio da psicologia conseguem quando bem organizadas e arquitetadas? Se sim, faço uma nova pergunta: será que o cérebro humano tem sofrido transmutações de origem química, ou por conta das modificações nos modos e velocidades de imposição das informações neste mundão cada vez mais computadorizado, a ponto de modificar os gostos e caminhos mais interessantes para se adquirir sustos e afins? Brinco, na verdade, com tal questionamento. Mas não consigo imaginar as razões que levam alguém a preferir esses métodos mais "modernos" utilizados por filmes de ação, terror ou suspense.

Deu para perceber, pela minha indignação inicial, que esse novo filme da saga Hannibal não me agradou, realmente. Mas o pior é que o filme não é só ruim por conta da violência utilizada como opção estética. A história se passa próximo do final da Segunda Grande Guerra, numa Lituânia disputada por nazistas e soviéticos. A rica família do pequeno Hannibal Lecter (aos oito anos, interpretado por Aaron Thomas) se refugia, com jóias, e sua irmã mais nova, Mischa (Helena Lia Tachovska), no interior do país. Toda a ação inicial do filme se passa neste palco, violentado pelos combates, e pelo excesso dos efeitos especiais que já indicam mais uma opção estética equivocada. O diretor Peter Webber, que havia surgido com um filme não tão bom - mas ao menos plácido no comportamento e no andamento –, "Moça Com Brincos de Pérola", resolveu que nesse seu segundo trabalho no cinema deveria dar uma guinada e "adrenalizar" seu método, para evitar ficar conhecido como diretor que retrata artes e artistas plásticos, em filmes com "andamento" mais condizentes.

Bem, equívoco um: excesso de sangue e pedaços de corpos soterrando a desejável sutileza . Equívoco dois: o uso e o abuso de efeitos especiais, soterrando a apreciável sutileza. Então vou ao equívoco três: o filme é todo – e quando digo todo não estou sendo metafórico – calcado no velho e ruim truque dos flash-backs, para realçar os momentos que teriam sido os deflagradores dos recalques e outros probleminhas mentais mais comuns que delinearam os caminhos de um monstro em seu momento de construção; ou surgimento. E junto com o uso nefasto dessa muleta que pretende "pensar" pelos espectadores – e juro que isso parece ter sido extraído de uma cartilha – a indefectível música melosa/recorrente, que pontua quase todas as passagens de seqüências e tenta criar momentos de intensidade dramática – sendo que o que consegue mesmo é ser mais um motivo para enjôo; já não bastasse o "cheiro" do sangue. O ator Gasppard Ulliel, que faz o próprio Hannibal em início de atividades, já como jovem adulto, força a barra, com expressões que se repetem, uma impostação de classe que o personagem pede muito da mal engendrada e poses marciais que, sinceramente... A linda e extraordinária atriz chinesa, Gong Li (no papel da tia e possível amante, Murasaki Shikibu), está linda e extraordinária como sempre, "somente"; e colocá-la para representar o papel de uma japonesa, denuncia um certo quê no modo de Webber pensar, que me faz suspeitar de sua integridade como realizador. Não bastasse a simplificação violenta que ele impôs à obra do escritor Thomas Harris – que,a propósito, aceitou o cargo de roteirista do filme.

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