VIÚVA RICA SOLTEIRA NÃO FICA:


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Original: Idem
País: Portugal/Brasil
Direção: José Fonseca e Costa
Elenco: Bianca Byington, Ricardo Pereira, Diogo Dória, Cucha Carvalheiro.
Duração: 136 min.
Estréia: 13/04/07
Ano: 2006


Vindo de um desconhecido...


Autor: Cid Nader

Por mais incrível que possa aparecer para cinéfilos mais incautos, quando se fala em cinema português nos dias de hoje uma certa expectativa de que se estará falando de filmes de qualidade se faz presente. O cinema lusitano foi tomando lugar de destaque – mundialmente falando, e não só para nós que temos uma ligação de afeto insuspeita com nossa pátria matriz - nas últimas duas décadas, principalmente por conta da confirmação do veterano e quase centenário Manoel de Oliveira como um dos principais e mais profícuos autores em atividade. Nesse ínterim surgiram nomes acima de qualquer suspeita, como o do falecido e anárquico João Cesar Monteiro e seu cinema que desmontava rigorosidades sociais, ou os "complexos" Teresa Villaverde e Pedro Costa – uma, com um cinema radical, na busca do âmago e das razões dos intrincados meandros dos desejos ocultos, que afloram como aberrações extirpadas quase a fórceps (literalmente, inclusive); outro, com um modo muito particular de fazer ficção, contando histórias documentais dos imigrantes caboverdianos exilados nas periferias de Portugal, e representados (ficcionalmente) por elementos não artistas da própria colônia.

De repente surge um filme, de nome para lá de estranho, "Viúva Rica Solteira Não Fica", com a brasileira Bianca Byinghton como o elemento de mais familiaridade para os que conhecem o cinema da terrinha, e dirigido por um diretor (José Fonseca e Costa) que, realmente, não consta dos catálogos desses mesmos cinéfilos; cabendo ressaltar que não se trata de realizador iniciante, já que nasceu em 1933, e tem perto de vinte filmes em seu currículo. Já de início uma surpresa: estamos diante de um filme de época. Quando se falava em obras portuguesas de qualquer origem até meandros dos 80, imaginava-se quase sempre trabalhos que remontavam aos tempos do país como grande potência colonizadora. Algo mudou com o surgimento de alguns escritores "modernos" – notadamente, o surgimento de José Saramago como um "avatar das letras" -, o despertar para o mundo de alguns artistas plásticos de renome e essa geração de novos cineastas com seus novos cinemas. Há uma corrente que defende que essa "modernização" no modo de se encararem a si mesmos, talvez tenha como pilastra mais notável – e absolutamente concreta – o momento da reconstrução e remodelação de Lisboa (investimento forte da Comunidade Econômica Européia); como se novos horizontes finalmente tivessem se apresentado como paisagem, em substituição à das edificações coloniais.

Com história que se passa em fins do século XIX, tudo inicia com a volta a Portugal de uma jovem aristocrata – vivera no nordeste no Brasil. Ana Catarina (Bianca Byinghton) tem sua mão prometida por seu pai e acaba por ter de ser peça daquele velho jogo de conveniências casando-se contra a vontade. De família muito rica, subitamente vê-se herdeira da fortuna com a morte do pai, paralelamente à do marido. Como numa peça teatral – pelo modo de construção da película, e mais ainda pelo modo como é construída envereda a trama – sucessões de maridos vão passando pela cama e vida dela. Torna-se viúva repetidas vezes de modo inexplicável, a princípio, e caminha na história sempre amparada pela velha ama, Mariana (Cucha Carvalheiro), e por um velho abade (José Raposo). Logicamente, Ana passa por todos esses momentos de casamentos à espera do momento em que poderia dar uma chance ao desejo carnal verdadeiro: de nome Adriano (Ricardo Pereira) e bem mais jovem que os falecidos, evidentemente.

O veterano e desconhecido diretor até que não se sai mal. O fato de não ser conhecido, e nem seu modo de filmar, parece que acaba contribuindo. Algumas surpresas estéticas surgem na tela; um certo dinamismo também – a mais do que se poderia pensar. O filme esbarra no perigo de sua duração alongada (135 min.), esbarra na "cara" de teatro da história, esbarra no velho problema do enfoque de época sem muito dinheiro para adornar a tela. Mas tem um humor interessante, uma trama razoavelmente interessante – com um quê a mais que a tira da probabilidade de contar mesmices históricas sisudas -, e a nossa atriz patrícia consegue emprestar um certo ar de sensualidade que vai além das expectativas iniciais. Uma obra média, que não fará mal a quem resolver prestigiá-la. Mas também, realmente, não enriquecerá quem optar por vê-la.

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