MARIA:


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Original: Mary
País: EUA/Itália
Direção: Abel Ferrara
Elenco: Juliette Binoche, Forest Whitaker, Matthew Modine, Heather Graham, Marion Cotillard, Stefania Rocca, Gisella Marengo, Francine Berting, Massimo Cortesi, Jean-yves Leloup, Gretchen Mol.
Duração: 89 min.
Estréia: 13/04/07
Ano: 2005


"Maria" – algo no céu e Ferrara na Terra


Autor: Cid Nader

Qual a melhor maneira de discutirmos nossa relação com o divino? Encarar a figura de Deus de frente e aceitá-lo ou desafiá-lo? Relegá-lo a fruto de mera criação da mente humana que, desesperadamente, desde o eterno sempre, buscou no imponderável, no invisível, razões que fizessem valer a pena viver descentemente para depois encontrar um fim absoluto e frio na morte? Entendê-lo como o melhor remédio – ali, à mão, à pequena distância de uma oração - a ser utilizado na hora do desespero ou das doenças; da dor física, talvez nosso maior temor? Quando tais questões são levadas ao cinema – nossa ferramenta de discussão preferida para assuntos variados – várias e inumeráveis maneiras já foram encontradas para desvendar e evidenciar opiniões, com realizações que transitaram desde as mais risíveis a obras sublimes.

Abel Ferrara discute religiosidade em seu cinema pouco comum. No decorrer de toda sua extensa carreira, os signos da religiosidade – a monoteísta que originou as religiões de matiz ocidental e médio-oriental (Judaísmo, Cristianismo e Islamismo) – marcaram presença constante e perturbadora nas reações e mentes de seus personagens atormentados, drogados ou desesperançados. Seus trabalhos, de maneira evidente, remetem seus seres a inúmeros questionamentos do por quê, das reais razões de tantos tormentos a assomarem e se tornarem parceiros indesejáveis em seu cotidiano. E Ferrara utiliza Deus como uma das tentativas de resposta a esses porques, a essas razões. Basta lembrar – para citar somente um exemplo em uma carreira bastante produtiva e de pouco "teor" para exportação – o conflito vivido pelo policial drogado e corrupto personificado por Harvey Keitel em "Vício Frenético", que se droga e auto-condena, simultaneamente, por atos próprios, ante a visão de imagens religiosas que tomam vida; como que para alertá-lo, em momentos de delírio (que são, na realidade, o modo pelo qual atingimos as entidades divinas idealizadas), da eterna proximidade e vigilância, do "observador" sobre o observado.

Não, não é um teísta ou um pregador religioso esse diretor norte-americano de origem italiana, que decidiu seguir caminhos paralelos e "marginais" para se expressar, com seu cinema virtuoso, visceral e tremendamente bem filmado.

"Maria" surge, então, num momento contundente e importante, num mundo que presencia o confronto cada vez mais evidente entre a "razão" e a "crença" (o iluminismo e a fé?). Dentro de um momento que, antagonicamente, esquece uma "espécie de meio campo", para amparar idéias absolutamente díspares sobre a existência; quando fica cada vez mais nítido o posicionamento de parte da humanidade ao lado da ciência e do racionalismo, enquanto, de outro modo, manifestações de crença exacerbada se avolumam e ganham cada vez mais adeptos extremamente rígidos em suas crenças e conceituações. No filme, uma atriz, Juliette Binoche, representa o papel de Maria Madalena em uma realização de segunda categoria, e se sente tocada a tal ponto pelo papel que resolve abandonar o mundanismo para embarcar numa viagem na qual buscará a fé, abandonando tudo e todos, e partindo para Israel nessa empreitada. Por outro lado, é contada, simultaneamente, a história de um jornalista, Ted Younger (Forrest Whitaker), um tanto cético, mas que encara a religião como um produto digno de discussão; a tal ponto que produz um programa televisivo no qual o assunto discutido é a existência ou não de Jesus.

Abel Ferrara, constrói um trabalho cheio de "clima", quando nos oferece momentos de "catarse mística", obtidos com sua câmera que plana – flutua – entre as situações comuns no dia-a-dia em Nova Iorque, a "viagem sobrenatural" de Binoche por recantos de Jerusalém e trechos do filme realizado pelo diretor "aproveitador", Tony Childress, representado aqui por Matthew Modine (que, de quebra, representa o próprio Jesus Cristo em sua película, de nome, "This Is My Blood"). A luz é de extrema importância em seu trabalho pregresso, algo que se confirma novamente aqui, e ganha força quando os personagens e seus dramas vagueiam do mundo comum e atormentador ao místico e "prometedor". O diretor não impõe sua opinião particular, descaradamente, na história, mas deixa que seus personagens tomem decisões e atitudes de puro teor redentor – no caso de Juliette, por uma opção muito própria em busca "da verdade", mas opção plácida e tranqüila; no caso de Whitaker por temor, por medo, por culpa, chegando a oferecer-se em sacrifício (em oração) pelo bem dos seus que estão em perigo.

Mas vai mais longe o diretor, quando cria espaço para todos os tipos de diálogos possíveis para tratar e discutir esse monoteísmo: aproveita-se do programa televisivo para que várias opiniões sejam dadas a respeito da existência de Jesus e do papel de Maria Madalena (teólogos, estudiosos céticos, padre...); apresenta-nos vários momentos de fé quando transita com sua câmera por templos cristãos, judeus ou muçulmanos, em uma Jerusalém que, absolutamente, tem clima e emociona; e mistura a tudo isso a questão da intransigência causada pelas desavenças entre os que crêem e os que não crêem; ou entre os que crêem e os que também crêem de outra maneira. O diretor, que é acusado sistematicamente – por alguns setores menos atentos - de ser radical e adepto de um cinema que prima mais pela exuberância suja no modo de contar uma história do que na exposição de um texto de forma mais "adulta", demonstra aqui, um intrincado e elaborado trabalho de análise da questão mais fundamental e pertinente dos dias atuais. Belo exercício de cinema; completo em sua forma e discussão interior, e a confirmação de uma carreira que vem se estendo firme e sempre importante. Mas de pouco interesse aos distribuidores.

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