TÃO DISTANTE:


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Original: Distance
País: Japão
Direção: Kore-eda Hirokazu
Elenco: Arata Yusuke, Iseya Susumu, Terejima Yui, Natsukawa Tadanobu
Duração: 132 min
Estréia: 12/08/2005
Ano: 2001


Tão Distante - Hirokazu Kore-eda e seu Cinema Necessário


Autor: Cid Nader

Figura que transita por vias alternativas nessa estrada que chamamos de cinema, Kore-eda vem marcando seu caminho não com derrapadas e marcas de pneu queimando o asfalto, mas pela maneira tranqüila, sensata, coerente e sem pressa com que dirige seu veículo - veja o caso da obra-prima, "Ninguém Pode Saber", filmado no decorrer de 1 ano, necessário para acompanhar, em tempo real, o crescimento dos seus atores mirins. É certo que não procura o bom piso - mérito -, dando preferência a estradas esburacadas, quando não de pedras e terra, de acessos difíceis e curvas perigosas, que nos fazem sentir a morte de perto; flertando com ela - tudo isso, porém, sem colocar as nossas vidas em perigo, pois ele sabe o que faz e para onde nos conduz.

Dizem que Kore-eda usa a morte como tema recorrente, pilar, de seus filmes; não há como negar quando observamos sua obra através de uma rápida passada d'olhos. Porém, mais importante, a meu ver, é o fato de ele procurar um diálogo "tète-tète" com ela; respeita-a e reverencia; procura um contato mais estreito - isso como uma tentativa de mostrar que deveria ser encarada como o próximo passo, o futuro mais natural e certo.

Valoriza, com certeza, a vida, como nos apresenta na discussão central contida em "Depois da Vida" - seu filme ligado de maneira mais direta ao assunto morte. Suas estradas nos conduzem a lugares magistralmente filmados - com certeza ama seu lindo Japão. Os seus personagens procuram o entendimento, o confronto, a conversa com esse instante que tanto amedronta da finitude terrena, em lugares apropriadamente cheios de paz e isolamento, com o tempo - condições climáticas - compondo o painel de fundo. Temos a pequena praia de pescadores em "Maborosi", onde a atormentada mulher de um suicida tenta retomar a vida e, principalmente, encontrar motivação para continuar; também o lago místico, localizado em região montanhosa, fria, linda, isolada, por onde as nuvens passam em alta velocidade - momentos de claro/escuro dominam a tela - e quatro pessoas rezam, fazem oferendas e questionam a razão e os motivos ... não, não é justo entrar mais a fundo na história desse filme, "Tão Distante", que estréia aqui após 4 anos de sua realização.

Essa "nova" obra nos revela um Kore-eda exibindo facetas não tão comuns em seus trabalhos anteriores. Ele usa - e bem - em boa parte do filme o recurso da câmera na mão, obtendo resultados da mais alta qualidade - alguém duvidaria? Usa o flash-back, conduzindo-nos para que entremos e entendamos, aos poucos - sem aceleração brusca - a verdadeira que quer que conheçamos. Também investe num final inesperado - talvez aí a maior novidade num seu trabalho - que eleva o filme a um patamar supremo de humanidade (sofrimento, vergonha, tentativa de redenção).

Os personagens densos, inquieta e silenciosamente questionadores estão lá; como sempre. A fotografia iluminada de maneira única e particular, também - dizem alguns que ninguém usa, no cinema de hoje, a luz como ele.

É um trabalho de Hirokazu Kore-eda certamente, mesmo com algumas novidades na concepção, com todo seu peso e estilo. Um belo veículo, conduzido, com destreza e perícia, por estrada sinuosa. Para terminar; impossível deixar de dizer o quão afortunados somos nós que, num mesmo ano, temos a oportunidade ver aqui exibidos dois de seus trabalhos. Há poucos dias saiu de cartaz "Ninguém Pode Saber", que ao final de cada sessão por mim assistida - sim, vi o filme algumas vezes - assombrava-me pela reação que provocava nos expectadores, de profundo silêncio e angústia. É um filme que chamo de necessário.

P.S. "Tão Distante" será exibido em formato digital e não em película. Pena.
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