SUNSHINE - ALERTA SOLAR:


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Original: Sunshine
País: Reino Unido
Direção: Danny Boyle
Elenco: Michelle Yeoh, Cillian Murphy, Chris Evans, Rose Byrne, Cliff Curtis, Troy Garity, Hiroyuki Sanada e Benedict Wong.
Duração: 117 min.
Estréia: 13/04/07
Ano: 2007


Fogo Pálido


Autor: Alfredo Luiz Suppia

Assisti hoje a Sunshine – Alerta Solar (2007), do diretor britânico Danny Boyle. Decidi escrever este texto motivado pela repercussão do filme na lista do Clube de Leitores de Ficção Científica e por uma crítica publicada na revista Veja, comparando o filme aos grandes títulos do gênero, dentre eles 2001: Uma Odisséia no Espaço (1968), de Stanley Kubrick.

De início devo destacar o absurdo da comparação de Sunshine a títulos verdadeiramente preciosos da ficção científica. O filme de Danny Boyle não é bom. Ao invés de recuperar a tradição dos grandes filmes de ficção científica, Sunshine é na prática um desfile de clichês e imitações dos outrora bons momentos do cinema do gênero. No filme de Danny Boyle temos tudo que há de mais desgastado no subgênero da exploração espacial: a onipresente “Lei de Murphy”, os mais-que-previstos qüiproquós de ordem tecnológica (mecânica, hidráulica ou eletrônica), o sacrifício do astronauta valente, em geral o capitão da missão, a abordagem da espaçonave à deriva, o intruso escondido a bordo, o tripulante que pirou (neste caso, intruso e tripulante biruta são o mesmo personagem), a famosa escassez de oxigênio, as contagens regressivas com correria antes da detonação, o conveniente (e muitas vezes necessário) deus ex machina, etc. Alguém poderia objetar dizendo que tudo isso faz parte do subgênero da exploração ou odisséia espacial. Mas, convenhamos, para que simplesmente repetir temas, situações e clichês quando diversos outros filmes já utilizaram as mesmas fórmulas de maneira tão ou mais eficiente? Nesse sentido, Sunshine provoca uma tremenda sensação de déjà vu. Boyle já dá sinais de que seu filme não vai brilhar muito quando sacrifica o personagem interpretado pelo ótimo Hiroyuki Sanada, protagonista de O Samurai do Entardecer (Tasogare Seibei, 2002), de Yoji Yamada. Sacrificar um ator desses por causa de um clichê não é lá muito sensato.

O filme até que tenta trilhar o caminho da ficção científica hard, mas naufraga no percurso, e nisso 2001 já fez muito melhor. O apuro descritivo e a inventividade do filme de Kubrick/Clarke ainda estão anos-luz à frente do filme de Boyle, especialmente se considerarmos a defasagem tecnológica entre as duas produções. Para não dizer que nada se salva em Sunshine, chamo a atenção para o design de produção, os trajes espaciais interessantes e a aparência das naves Icarus I e II. Mas isso só corrobora a hipótese de que, desde Things to Come (1936), de William Cameron Menzies, os filmes de ficção científica britânicos são geralmente muito transados em termos de set design – e só. E por falar em Icarus I ou II - a referência ao herói da mitologia grega no nome das espaçonaves é comovente -, um filme melhor que Sunshine é justamente o tcheco-eslovaco Ikarie XB 1, dirigido por Jindrich Polák e lançado em 1963, ainda antes do célebre 2001 de Kubrick. Em Ikarie já estão a nave em missão de salvamento da espécie humana, o drama do isolamento, o convívio conturbado da tripulação, a pequenez do homem em face do cosmo, o tripulante que enlouquece, a abordagem de uma nave à deriva, etc. Pode ser apenas coincidência, mas há tanto Ikarie XB 1 em Sunshine quanto The Last Man on Earth (dir.: Ubaldo Ragona, 1964), The Omega Man (dir.: Boris Sagal, 1971) e Dawn of the Dead (dir.: George Romero, 1978) noutro filme de ficção científica de Danny Boyle: Extermínio (28 Days Later, 2002). Isso me leva a crer que Boyle não cita ou simplesmente homenageia, nem tampouco recicla. Ao que parece, ele repete e pasteuriza mesmo, mas de uma forma “transadinha”, com aparência de cult movie.

O tema do isolamento e da conseqüente loucura, tão forte nos filmes sobre jornadas no espaço, já foi muito melhor explorado em Ikarie XB 1, Solaris (1972), de Andrei Tarkovsky, ou 2001. E quando Sunshine invoca o elemento transcendente ou religioso, também o faz de maneira pouco criativa, inferior aos três títulos mencionados acima. O tripulante biruta que assume o papel de profeta é uma figura bizarra se comparada ao personagem equivalente de Ikarie XB 1, caracterizado de forma muito mais sutil. Sim, nesses filmes sobre longas jornadas espaço adentro é inevitável que alguém endoideça – mas se tem que ser assim, façamo-lo com classe. O tripulante “pancada” da Icarus lembra demais o Freddy Krueger. Até O Enigma do Horizonte (Event Horizon, dir.: Paul W. S. Anderson, 1997) se saiu um pouco melhor: assumiu logo o módulo de filme de horror e apresentou um hellraiser saído do fundo do buraco negro. Aí está: O Enigma do Horizonte é outro filme que, a exemplo de Ikarie XB 1 e 2001, parece estar impresso no DNA de Sunshine.

Os últimos momentos da odisséia espacial de Boyle, quando os mocinhos enfrentam o bandido dentro da superbomba nuclear enquanto o espaço-tempo sofre distorções, bem que poderia ser louvado, não fosse o caso de em 2001 vermos praticamente a mesma situação, mas tratada de forma mais interessante. A propósito, tenho a impressão de que Boyle foi mais pretensioso em Sunshine do que Kubrick o foi em 2001. Por incrível que pareça. A grandiloqüência de várias passagens, a trilha sonora indutora (ah, cinemão!) e a vocação lacrimogênea lembram os “bolerões” de ficção científica do alemão Roland Emerich, o mais americano dos diretores. Sunshine emula o cinema norte-americano, como boa parte do cinema britânico e australiano. E os excessos da longeva (para não dizer desgastada) fórmula do cinemão incomodam quem assiste a filmes de forma um pouco mais crítica e técnica, não apenas como puro entretenimento. Não custa dizer que o kitsch paira a espreita de filmes como Sunshine, película-prima de Armageddon (1998), de Michael Bay. Que saudades de filmes como Solaris ou O Sacrifício (Offret, 1986), de Tarkovsky, ou ainda do americano On the Beach (1959), de Stanley Kramer.

Com tudo isso, Sunshine passa a impressão de que Boyle coletou material de diversos outros filmes de ficção científica melhores e anteriores, reapresentando-os ao público de “roupa nova”, ou seja, com um belo toque de cinema digital. O resultado é um filme de apenas 107 minutos que aparenta ter duas horas e meia de tão chato. E aí surge a pergunta: por que a mania tão recorrente nos últimos tempos de se fazer remakes de obras-primas ou novas abordagens de temas tão magistralmente tratados no passado? É nesse contexto que surge um Adrian Lyne refazendo Lolita, ou um Gus van Sant refazendo Psicose. Filmes como Lolita (1962), de Kubrick, ou Psicose (1960), de Alfred Hitchcock, mergulham qualquer remake na sombra. Somente em alguns casos, como Cape Fear (dir.: J. Lee Thompson, 1962), o remake resulta em algo do mesmo nível ou superior ao original. Refiro-me a O Cabo do Medo (1991), de Martin Scorsese.

É preciso diferenciar um grande filme de um filme “transadinho”, um grande diretor de um diretor “da moda”. Sunshine e Danny Boyle se enquadram nas segundas modalidades. Cova Rasa (Shallow Grave, 1994) e Trainspotting (1996) são filmes bacaninhas, talvez até muito bacaninhas. Extermínio e Sunshine são “transadinhos”, e A Praia (2000) é uma total perda de tempo. Isso faz de Boyle um diretor mediano, nada de enfant terrible ou auteur até agora. Se é para escolher um filme de ficção científica britânico recente e “estiloso”, fico com Código 46 (2003), de Michael Winterbottom, ou Filhos da Esperança (Children of Men, 2006), de Alfonso Cuarón (o diretor é mexicano, a produção é nipo-anglo-americana e o filme, ao que parece, foi rodado na Grã-Bretanha). As especulações sociológicas nesses dois filmes me parecem bem mais interessantes que os clichês e a aura de auto-ajuda de Sunshine.

P. S. : Esse texto foi originalmente produzido para o portal do Clube de Leitores de Ficção Científica (CLFC)
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