I HATE SÃO PAULO:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Dardo Toledo Barros
Elenco: Cláudio Fontana, Wolney de Assis.
Duração: 90 min.
Estréia: 06/04/07 (Exibição Digital / Pop Cine)
Ano: 2003


Complicado


Autor: Cid Nader

Ouvi muito o diretor, Dardo Toledo Barros, falando antes da exibição da cabine desse filme – um fato incomum, bem raro, já que essas sessões para imprensa pressupõem que o crítico terá total autonomia e independência para uma avaliação mais livre da obra. Ele contava suas experiências na cidade de Nova Iorque, seu trabalho relacionado ao cinema independente (por lá, também), suas saudades dos tempos do cineclubismo paulistano na década de 80, sua razoável falta de conhecimento do que se passa aqui na cidade nos dias atuais; tudo embalado por uma certa nostalgia estranha, de tempos e de modelos. Quando começou a exibição, notei o diretor sentado na segunda fileira, inquieto, olhando repetidamente para trás a fim de tentar perceber as reações dos críticos durante a projeção. À saída mais uma atitude estranha quando veio perguntar nossa opinião sobre o filme. Não posso falar pelos outros jornalistas, mas imagino que sejam como eu: não gosto de falar sobre um filme logo na saída; com o próprio diretor, então, impensável.

Tanta insegurança por parte de Dardo me faz pressupor que ele não confia tanto no filme que realizou. Ouvi alguns comentários bem contrários à obra, na realidade. Mas não consegui detectá-lo tão desprovido de qualidades assim. Tem graves e óbvios problemas, uma indecisão no rumo narrativo a ser tomado, momentos falhos na captação de imagens e um pouco mais graves na edição. Mas tem um certo clima, também. Obtido, principalmente, dos momentos em que a autobiografia do diretor – que é na realidade o mote do trabalho – se desnuda da impostura emprestada pelas interpretações, mergulhando menos amedrontado nas possibilidades de momentos de catarse intimista. O filme falha muito quando é retrato daquele diretor inseguro que ficou rondando a sessão; deveria ser mais a cara de um Dardo que procura seu passado a qualquer custo.

"I Hate São Paulo" é uma volta despudoradamente nostálgica e saudosista à cidade da juventude do diretor. Fala da morte de seu pai quando tinha ainda dez anos de idade, mas está fixado - tem seu presente narrado - no momento em que ele é um jovem e ambicioso corretor da Bolsa de Valores, que sofre um golpe fatal em suas finanças por conta de uma ousadia e ganância. Sua vida de casado desmorona e ele, por um acaso qualquer, descobre um velho amigo do pai que revela outras razões e outros modos para a sua morte. A partir desse momento, passa-se a compreender com um pouco mais de lucidez o formato meio deformado, meio capenga, do filme. Um misto documental passa a compor uma outra extensão possível à forma de narração, se aproveitando de imagens de arquivo obtidas de um incipiente documentário que pretendia contar a história de alguns imigrantes da cidade. Há algumas interpretações que se misturam às possibilidades oferecidas pelos depoimentos verdadeiros e que deixam dúvida sobre uma origem ficcional ou documental. Essa pequena dúvida é um fato interessante no modo de construção da obra.

Mas o que "pega" mesmo, o que fica mais evidente e marcado, é a pouca qualidade técnica do trabalho. Chega a ser constrangedor em alguns momentos. Percebe-se, por esse lado, a pouca intimidade do diretor por trás das câmeras ou na ilha de edição. Essa falta de qualidade no que salta de maneira mais evidente aos olhos e à primeira impressão, que é a forma que vemos projetada na tela, é o que está fazendo o filme ser tão mal avaliado. Na realidade é bem grave e quase invalida o filme como um todo. Quase...
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