CARTOLA:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Lírio Ferreira e Hilton Lacerda
Elenco: Documentário
Duração: 88 min.
Estréia: 06/04/07
Ano: 2006


"Cartola" - um belo registro do músico e de sua época


Autor: Cesar Zamberlan

De uns anos para cá, com a explosão da produção de documentários no Brasil, várias personalidades brasileiras chegaram às telas. Destes documentários, o que mais fez sucesso junto ao público foi “Vinicius” de Miguel Faria Junior que ultrapassou a barreira dos 250 mil espectadores, algo difícil em se tratando de um documentário. “Cartola” de Lírio Ferreira e Hilton Lacerda, exibido na Mostra, segue a mesma linha biográfica e deve ir bem de bilheteria, sobretudo, porque o público mais jovem descobriu Cartola e o venera. Na Mostra, a exibição que vi, estava cheia e a faixa etária dos espectadores era menor que os 30, com certeza.

Um grande achado do filme é que os diretores ousaram na construção do roteiro, fugindo de uma biografia mais didática e explorando não apenas o músico, mas todo o cenário da música e da marginalidade carioca do período. Essa liberdade criativa explode na tela logo no início do filme que traz cenas do início de “Brás Cubas” de Bressane no qual um microfone explora a ossada de Brás como que querendo ouvir o morto. A brincadeira faz sentido e não apenas por ser o documentário um resgate, mas porque Angenor de Oliveira, o Cartola, nasceu no Rio de Janeiro, em 11 de outubro de 1908, dias depois da morte de Machado. Fora isso, Machado em sua obra mostra como a música popular começava a se infiltrar nos lares de um Rio que buscava se modernizar. José Miguel Wisnik explora bem a questão no seu ensaio “Machado, Maxixe”.

O filme ao citar Machado e o “Brás Cubas” de Bressane delimita de forma clara algumas fronteiras. Temporais, a morte de Machado, que melhor que ninguém retratou o Rio do segundo reinado, ocorre num momento de modernização do Rio, com a construção da Avenida Central, entre outras obras transformadoras, e na qual a cultura popular começa, num processo irreversível, a se fundir com a cultura dita erudita: o samba ganha o subúrbio e a zona sul. E formal, estabelecendo um diálogo com imagens, ficcionais ou não, que retratam o período em que Cartola viveu.

O filme segue nessa trilha e não se fixa unicamente no biografado, retrata sua época, seus contemporâneos e o Rio da época até que Cartola se torne, com todos os altos e baixos que marcam sua carreira, no gênio que foi. Vários músicos que foram parceiros de Cartola dão seu testemunho, e um riquíssimo material de arquivo possibilitou aos diretores construir um vivo painel da época. Além da aula de cultura popular, temos vários depoimentos de Cartola, alguns emocionantes como a entrevista que ele concede ao lado do pai e executa a pedido deste um dos seus sucessos. Um belo filme. Imperdível.

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Uma aposta bonita, mas não tão ousada quanto talvez fosse possível