AS FÉRIAS DE MR. BEAN:


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Original: Mr. Bean's Holiday
País: Inglaterra
Direção: Steve Bendelack
Elenco: Rowan Atkinson, Max Baldry, Willem Dafoe, Emma de Caunes, Steve Campos, Jean Rochefort.
Duração: 90 min.
Estréia: 06/04/07
Ano: 2007


"As Férias de Mr. Bean" - meta-cinema


Autor: Cid Nader

O personagem Mr. Bean, criado no início da década de 90 pelo ator Rowan Atkinson, já desde seu surgimento percebia-se ser uma espécie de Frankstein, que era formado por vários pedaços de personagens famosos do início do cinema, e da comédia nele. Não dá para deixar de pensar em caretas de Buster Keaton quando Bean desata a fazê-las em profusão e de maneira muito mais caricata. Não dá para deixar de lembrar de alguns gestos e movimentos de Carlitos (Charles Chaplin) quando Atkinson faz seu personagem tentar empreender alguns truques espertos – apesar de sua inequívoca tendência ao bom-mocismo. Mas o que mais o aproximava, já nesse seu surgimento em seu veículo de origem – a televisão -, de alguma pessoa comum eram características similares às de Jacques Tatit e seu M. Hullot; que era um comediante mais humano, menos heróico ou ostensivamente patético.

Mesmo em seu veículo de origem, o personagem Bean nunca constituiu unanimidade, ou algo mais próximo dela como o que sempre ocorreu com os outros três exemplos que citei acima. Apesar da semelhança um tanto mais próxima da "humanidade" de Hullot, ele já nasceu com algumas particularidades e peculiaridades que não eram fácil atrativo para um certo tipo de público: muito careteiro, angariava e afastava fãs; distraído ao extremo, mas com um jeitão de quem não se importaria muito se percebesse ter sido responsável por algum desastre causado por isso, não obtinha um meio termo de apreciação ou empatia (era, ame-o ou deixe-o); a exacerbação aos limites das manias advindas do "modo de ser britânico", obviamente que atraía admiração ou ódio.

Agora, desloca-se o personagem para o cinema – na realidade houve anteriormente "Mr. Bean – O Filme" (1997) –, e problemas óbvios já põe pulgas atrás da orelha mesmo antes da constatação do resultado. Fazer um ser oriundo das limitações físicas impostas pela caixa de um televisor - criado para atuar dentro desse universo contido - funcionar bem quando jogado às infinidades e espaços ampliados da tela grande, já caracteriza um desafio que se sabe quase nunca consegue obter bons resultados. Trabalhar roteiros e histórias preparados para um personagem que tem sempre um tiro curto como limite para a exposição de seus dons e dotes físicos (sim, Mr. Bean, afinal, é um daqueles personagens que se notabilizaram pelo seu humor físico, acima de tudo, com gags, tropeções, trombadas não notadas...), dentro de um patamar que estica sua exposição temporal direta ao público em ao menos três vezes o usual, é risco certo.

Risco assumido, realização concretizada; o que resultou? "As Férias de Mr. Bean" ressente-se, realmente, das possibilidades cerceadoras que imaginei acima. Para preencher a história, para esticá-la e não permitir que uma repetição extensa e viciada de trejeitos do personagem fossem a opção única para conduzir o filme até o fim, uma história das mais manjadas foi criada. Não imaginava, realmente, que alguma exceção literária viesse a ser criada para tentar dar bom prosseguimento a esse trabalho dirigido por Steve Bendelack; mas o filme foi muito óbvio quando se apoderou de uma criança como um fio condutor sentimental/engraçado sem risco do erro. As gags de Mr. Bean ganharam um pouco de consciência para se moldarem à "boa" tentativa de resolver a vida de Stepan (Max Baldry), que se perde do pai, Emil Duchesvsky (Karel Roden), durante trajetos ferroviários em direção à cidade francesa de Cannes. A história se passa numa ensolarada França, por conta do prêmio que Bean ganhou num bingo de igreja – além da viagem, ganhou também uma filmadora digital, de vital importância para definir o que o filme tem de bom.

Pois é, se o filme se mostra acomodado pela opção na escolha da trama sentimental, ganha muitos pontos quando se transforma em um meta-cinema. Mr. Bean com sua câmera de mão, faz a obra ficar bastante interessante. Ele filma tudo com sua camerazinha; tudo mesmo. E isso compõe parte substancial do material exibido na tela grande. Fica como se o diretor quisesse demonstrar o que se pode esperar do cinema nessa época de extrema democratização das possibilidades de captação das imagens. E as gags do personagem ganham nova vida ante novas possibilidades de exposição e manifestação. Ele continua exagerado – principalmente quando longe do garoto -; pelo bem e pelo mal. A história ganha um novo sopro quando adentra o mundo do cinema – há o festival de Cannes correndo paralelo, os personagens que trabalham a linguagem dentro do filme (Willem Dafoe como um diretor, e a delicada Sabine, como uma atriz em busca da fama). Dedução: funciona mal quando esmorece à facilitação dourada do piegas, e funciona bem quando se assume uma homenagem ao cinema, estranhamente oriunda de um personagem ícone do veículo inimigo que é a televisão. E esse personagem ícone que é Mr. Bean, consegue arrancar algumas boas gargalhadas – há uma equação, uma divisão de tarefas; ponto para o filme.

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