300:


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Original: Idem
País: EUA
Direção: Zack Snyder
Elenco: Gerard Butler, Lena Headey, David Wenham, Dominic West, Vincent Regan, Michael Fassbender, Rodrigo Santoro, Andrew Tiernan, Andrew Pleavin, Tyrone Benskin, Marcello Bezina, Clint Carleton.
Duração: 117 min.
Estréia: 30/03/07
Ano: 2007


"300": Filme-se a lenda


Autor: Fábio Yamaji

De “O Homem que Matou o Facínora”, um dos clássicos de John Ford, ficou a célebre frase: “Quando a lenda é mais forte que a verdade, imprime-se a lenda!”. É exatamente o que vemos em “Os 300 de Esparta”, caprichada HQ de Frank Miller: a leitura fantasiosa de um fato histórico – em si já impressionante, cujos acontecimentos foram reduzidos a sequências esteticamente espetaculares. Originalmente lançada como minissérie em 5 capítulos, a graphic novel voltou às bancas em luxuoso volume encadernado – aproveitando o lançamento do filme. Reedição merecida, já que neste livro apreciamos o característico traço silhuetado de Miller combinado às cores aquareladas de Lynn Varley, que usou uma paleta dominada por sépia e vermelho pra iluminar metais, sangue, terra e vestimentas – uma relevante contribuição estética na obra de um autor com pelo menos 2 obras-primas, “O Cavaleiro das Trevas” e “Sin City”.

Pois bem, pra evitar decepções, é importante estar ciente que “300, o Filme” é fiel ao livro de Miller, e somente a ele – no texto, nas cores e na narrativa - e não à história em que ele se baseia: a Batalha de Termópilas, travada na Grécia Central em 480 a.C., quando 300 espartanos liderados pelo Rei Leônidas enfrentaram milhões de persas sob o comando do Rei Xerxes. Fidelidade ao fato não é o foco, e, sim, a representação da ação nele vivido. É um recorte. Pobre em informação histórica e contextualização, mas generoso na construção do guerreiro e suas táticas de combate. Nada se fala de muitas coisas. Portanto, a decisão do governo iraniano em proibir o filme localmente é um exagero, uma paranóia. Tempestade em copo d’água, como na reação à “Turistas” por parte dos brasileiros. Deveriam então ter barrado a graphic novel em sua época de lançamento (os iranianos são descendentes diretos dos persas, e tomaram as dores pelo tratamento maniqueísta e desfavorável a seus ancestrais, pelo autor Frank Miller).

Recentemente, outro filme foi bastante criticado por ignorar o potencial do tema – o povo maia - e ater-se somente à ação: “Apocalypto” de Mel Gibson, do qual ficaria a impressão de que violência e barbarismo eram o que de principal se poderia destacar desta civilização. Sabemos que não, longe disso, e Gibson perdeu a oportunidade de mostrar algo do legado dos maias. Mas enfim, o recorte (ou talho) é dele. Ficar na superfície tem seu preço, e “300” também paga por isso.

Assim, o visual, o som e a ação acachapantes não se mostram suficientes pra segurar um roteiro pouco consistente. Criou-se até um assunto em paralelo, ausente na HQ, envolvendo a Rainha Gorgo (esposa de Leônidas), que só enfraquece e ridiculariza o todo. Esperava-se mais do diretor Zack Snyder, que apareceu com a excelente refilmagem de “Madrugada dos Mortos” e parecia um talento promissor. Aliás, seus dois filmes apresentam argumentos bastante semelhantes: um grupo de pessoas em desvantagem numérica (pessoas comuns / guerreiros espartanos), encurralado (num shopping center / no desfiladeiro de Termópilas) e ameaçado (por zumbis / por exércitos persas), lutando pra defender seu espaço e sobreviver – ou ao menos atrasar o avanço dos oponentes. A grande diferença está na construção e inter-relação dos personagens do grupo, que é bastante elaborada em “Madrugada” - com a adicional ameaça de possível transformação de aliados em zumbis - e primária em “300”, no qual o grupo é homogêneo e estável. Neste segundo, destacam-se as estratégias de guerra, o trabalho em equipe e o conflito entre o “bem” e o “mal” - temas que se esvaziam numa história de narrativa deficiente. Coincidentemente, já vimos neste ano uma obra-prima que cerca este argumento com sofisticação, sensibilidade e culhão: “Cartas de Iwo Jima”, de Clint Eastwood. Mas daí a conversa muda totalmente de parâmetro…

Resta-nos apreciar o que “300” tem de diferencial que é o visual gráfico alcançado pela manipulação do material filmado, na fase de pós-produção. E como quase tudo o que se vê no filme é criação digital – com exceção dos atores, seus acessórios e alguns cenários – não deixa de ser um deleite, reparar nos detalhes dos elementos em quadro. Cenários, criaturas, céus e ambientes, tudo conversando diretamente com a arte do livro. A reação do espectador perante o filme é próxima do comportamento do fã de quadrinhos ao ler uma graphic novel: curtindo cada plano, cada desenho, cada traço, cada mancha de cor. É aí que está o barato de “300”.

Vejo nesta solução estética, a conseqüência do fracasso da computação gráfica em tentar simular seres humanos digitalmente – casos das animações “Final Fantasy” e “Expresso Polar”; que parecem protagonizados por zumbis. Demorou a cair a ficha pra se perceber que ao precisar de seres humanos em cena, basta filmá-los. Parece absurdo, mas o deslumbramento em cima das possibilidades da computação gráfica reduziu o bom senso de boa parte de seus entusiastas. Tentaram colocar o carro na frente dos bois; empacaram. A sensatez voltou há uns dois anos. Filmes como “Sin City”, “300” ou “O Homem Duplo” provam que, para se chegar a uma estética diferenciada, mais vale manipular a imagem dos atores na pós-produção que tentar gerá-los integralmente no ambiente digital.
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