A LESTE DE BUCARESTE:


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Original: A Fost sau-na Fost?
País: Romênia
Direção: Corneliu Porumboiu
Elenco: Mircea Andreescu, Teodor Corban, Ion Sapdaru.
Duração: 89 min.
Estréia: 23/03/07
Ano: 2006


Os novos mundos do cinema continuam sendo descobertos


Autor: Cid Nader

Os romenos têm muito sobre o que discutir quando o assunto seu passado. País constituído no meio da Europa Oriental por exilados políticos pelo regime do grande império romano, acabou por se tornar uma nação um tanto atípica na região - de comportamento mais expansivo (um pouco mais ao jeito latino) e idioma, obviamente, originado do latim. Em tempos mais recentes, também, tiveram a política como fator decisivo a se refletir em seu modo de comportamento: dominados pelo império soviético acabaram por passar pelo infortúnio de terem sido subjugados e governados por um dos mais sangüinários ditadores da história recente, Nicolae Ceausescu. Em "A Leste de Bucareste" o assunto se faz mote e revela a nós que, talvez, o país possa vir a se apoderar dele para discutí-lo por um bom tempo através de seu cinema.

Mas, diferentemente de nossa vizinha Argentina - que discute seu infortúnio ditatorial em uma de cada três produções -, ao menos nesse filme, o modo encontrado para sua explicitação vem carregado de uma auto-ironia e humor bruto quase inacreditáveis (latinos? Mistura de comportamento latino à mescla considerável com os ciganos?). Num programa de televisão, meio mambembe, de uma pequena cidade localizada a leste da capital (Bucareste), o assunto do dia será o de se discutir a participação da cidadezinha na revolução que acabou por determinar o fim da opressão exercida por Ceausescu. O encaminhamento oferecido à trama pelo diretor Corneliu Porumboiu, acaba por revelar – um pouco , ao menos - a maneira como a qual a civilização local encara seus problemas. Os habitantes locais não acreditam muito em seu auto-aclamado heroísmo e o põem em dúvida. No filme, mais especificamente, tal contestação passa a surgir num momento de entrevista, em que um professor meio-alcoólatra e endividado e um velhinho de quase oitenta anos são replicados por seus atos naquele momento histórico (1989) pelos espectadores, que participam com perguntas através do telefone - o que acontece para incitar tal comportamento de contestação por parte dos espectadores, surge despertado pela falácia e auto-aclamação do professor, que vai sendo desmontada a cada discussão telefônica. Toda essa seqüência do programa televisivo - cerca de metade do filme - chega a ser construída com momentos de humor que beiram o antológico. A utilização do aposentado nos momentos frente às câmeras - que desfocam, se mexem, filmam o que não deveriam - é de uma felicidade incomum e, imagino, represente algo da característica da população local. Impossível não rir - e muito - com a anciã figura.

Essa espécie de bengala – sem nenhuma infâmia proposital de minha parte – que o diretor utiliza com a participação do aposentado, empresta ao filme grandes momentos de fluidez narrativa e, principalmente, tem a capacidade de inserir definitivamente o espectador dentro do filme. Em toda essa seqüência televisiva, um respiro com cara de novidade chegando, dá esperança na novidade que está se nos apresentando. Além das micagens do ancião, há uma brincadeira com as possibilidades técnicas bastante interessante: a mesma câmera que filma o programa de televisão cumpre o papel de fazê-lo com o filme, também, e – no contexto de um país ainda empobrecido materialmente que ainda oferece pessoas despreparadas para algumas funções - o que acontece em termo de gags visuais por conta do despreparo do camera-man, beira os extremos do ótimo humor escrachado (aproveitando para servir de "toque" sobre os problemas do país).

Mas todos os momentos precedentes e o final, revelam um diretor sensível com suas lentes, que sabe mostrar características físicas da região, empobrecida e fria - revelando um país bastante desconhecido para nós -, como se estivesse querendo mostrar as cicatrizes decorrentes da "bárbarie oficial". Filma as pessoas em seus lugares, em seus lares, revela um chinês sábio na sua simplicidade e atacado por xenofobismo em momentos de descontrole emocional; emociona quando persegue o carro que se desloca pela cidade gelada no aguardo da neve do natal e emociona mais ainda, quando vai fechando o filme com takes estáticos das ruas, ao anoitecer. Tem muito humor, mas muita revelação. Não faz de seu povo um povo "heróico"; mostra-o comum, como todos nós, mas ressalta suas peculiaridades e se aproveita delas para direcionar a essência do filme. Surpreendente trabalho de pormenores.
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