O CHEIRO DO RALO:


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Original: Idem
País: Brasil
Direção: Heitor Dhalia
Elenco: Selton Mello, Silvia Lourenço, Paula Brown, Leonardo Medeiros, Flávio Bauraqui, Alice Braga, Milhem Cortaz, Martha Meola, Dionísio Neto, Lorena Lobato, Lourenço Mutarelli, Susana Alves.
Duração: 112 min.
Estréia: 22/03/07
Ano: 2006


Selton Melo rouba a cena em "O Cheiro do Ralo"


Autor: Cesar Zamberlan

“O Cheiro do Ralo”, segundo filme de Heitor Dhalia, já fez uma legião de apaixonados admiradores antes mesmo de entrar em circuito. O filme ganhou prêmios nas Mostras do Rio e de São Paulo e tem tido uma repercussão extremamente boa por onde passa. É inegável que é um filme divertido, e muito, muito mais redondo que “Nina”, seu primeiro trabalho, mas não me incluo na lista de fãs do filme, apesar de admirar o trabalho e a figura de Lourenço Mutarelli cujo livro originou o filme. Acho aliás que “O Cheiro do Ralo” livro é muito mais interessante enquanto trabalho artístico que o filme. É muito menos pretensioso e muito mais honesto nessa despretensão. E que fique claro e frisado que esta comparação não se dá entre conteúdo e forma do livro ou filme, o que seria uma estupidez, mas em relação aos produtos mesmos, afinal, são projetos diferentes, em linguagens e suportes diferentes.

Admiro a simplicidade do livro e sua secura. Lourenço Mutarelli em várias palestras e encontros justificou a narrativa curta, em linha reta, vertiginosa e sem maiores subordinações entre os períodos ao fato de não “saber escrever” ou por estar aprendendo a escrever, sendo ele egresso de uma outra linguagem que é a dos quadrinhos. E esse estilo, provocado por essa “limitação” confere uma graça ao livro que o torna simpático e prazeroso de ler. Há uma relação honesta no contrato de leitura. O livro é fiel aos seus propósitos, se desnuda ao leitor com suas imperfeições, e o conquista.

No filme, esse registro fragmentado perde esse aspecto rudimentar para virar algo mais elaborado, ornamentado, quadrado em sua estrutura de situações mesmo quando tenta aparecer o oposto, ou seja, filme alternativo na sua proposta e visual, feito com poucos recursos financeiros. É certo que a grana, ou a falta de, não determina a opção estética de um projeto. Limita é fato, mas o material filmado, com o perdão do trocadilho, revela mais do que qualquer discurso a intenção ou o que resultou do processo criativo; e o filme na tela não é nada despojado, sujo ou alternativo como falsamente procura ser.

“Cheiro” trilha um caminho já percorrido pelo cinema independente norte-americano célebre em décadas passadas. Aposta na montagem fragmentada; usa planos fixos e amplos com enquadramentos que trabalham a relação homem/paisagem urbana, repetindo esses planos para dar uma idéia de ciclo, de rotina; cria tipos engraçados que freqüentam um mesmo espaço e dão movimento ao filme; usa trilha sonora não só para pontuar a ação como fundo para o desenvolvimento da trama, mas como corte para outra seqüência; tem na sua estrutura narrativa um narrador em off e texto engraçado - o que remete ao cinema de Jorge Furtado, mas, diferente deste, é mais radical na proposta que os filmes do diretor gaúcho. E digo remete, porque o texto é quase que integralmente transposto do romance de Lourenço Mutarelli que originou o filme e a lembrança aqui é muito mais em função de uma característica do escritor que influencia de Furtado sobre Dhalia, que nem sei se existe.

Voltando a Lourenço, ele faz uma ponta e surpreende pela naturalidade com que faz o papel do segurança do dono da loja de objetos antigos que se chama também Lourenço e é vivido por Selton Mello. Confesso que demorei a embarcar no personagem criado por Selton Mello e acho a sua construção um tanto quanto afetada e caricata, pensada e artificial demais. Essa história dele se inspirar assumidamente em Paulo Cesar Pereio é complicada porque ele fica preso a um modelo, o copia mal e faz uma interpretação viciada.

A platéia costuma rir muito com o Lourenço de Selton Mello, mas fico imaginando e peço licença para tal suposição e intromissão de como o filme ganharia se Lourenço fosse interpretado pelo próprio Mutarelli, sendo assim liberto da vaidade às avessas de Selton que ajudado pelo tratamento dado ao personagem pelo diretor Heitor Dhalia constrói um personagem espetacular na sua escrotidão quando ficaria melhor, peço licença de novo, na sua estupidez primitiva e “apagada”. Selton na sua “brilhação” exagerada e incontida se apóia no personagem principal para legitimar o filme/espetáculo e o personagem/escroto. Anulando, por mais paradoxal que seja, o brilho do personagem que no livro é detestável, mas tem traços mais humanos e, por incrível que pareça, simpáticos.

O forte do livro e do filme é a relação do poder que emana do personagem que, por ter dinheiro, tem certeza que pode comprar tudo. O cheiro do ralo que o obceca é uma metáfora para toda essa merda de sistema do qual Lourenço é a expressão típica: ele tem dinheiro, portanto dá as cartas e comanda. Pena que Dhalia, em vez de retratar essa questão de forma mais crítica, preferiu o espetáculo, oferecendo o filme para Selton Mello que se excede, rouba a cena e tira o filme de um caminho que poderia ser muito mais interessante.
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