EXILADOS:


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Original: Exiled
País: Hong Kong
Direção: Johnnie To
Elenco: Anthony Wong, Francis Ng, Nick Cheung, Josie Ho, Roy Cheung, Lam Suet, Lam Ka Tung, Cheung Siu Fai, Tam Ping Man, Hui Siu Hung, Ellen Chan.
Duração: 107 min.
Estréia: 19/03/2007 (Exibição Digital)
Ano: 2006


Os bons companheiros


Autor: Marcelo Miranda

Fazer um cinema de referências, referenciar no cinema. Tarefa das mais árduas ao cineasta que a assume, porque citar e recitar não é simples. Não basta apenas jogar na tela imagens icônicas. É preciso emular o mestre e ser ele mesmo, o diretor, um mestre. Criar algo novo, partir do conhecido ao indefinido. Para ficarmos nos recentes, é Quentin Tarantino no genial (e genioso) "Kill Bill", é McG no pouco valorizado "As Panteras Detonando". E há, das antigas, Sergio Leone, italiano sensivelmente casca-grossa que reverenciou e referenciou o faroeste enquanto gênero cinematográfico ao mesclar, no seu fabuloso "Era uma Vez no Oeste", temas e estilos do passado para, num grande caldo cinefílico, fazer nascer uma obra única e particular, um tratado sobre o próprio faroeste e seus significados históricos e éticos.

É justamente Sergio Leone e a ética as chaves para se adentrar no universo de violência e sangue de "Exilados", mais recente trabalho de Johnnie To. Cineasta nascido em Hong Kong, virou, com motivos de sobra, queridinho da crítica ao ter alguns de seus projetos exibidos em festivais como Cannes e Veneza. O que torna esse fator surpreendente é To trabalhar dentro de um cinema de gênero muitas vezes malvisto pelas camadas ditas entendidas de cinema: o thriller policial de ação. Pois assim como Leone o fizera com o faroeste, To parte das crenças em outros mestres para moldar um mundo à sua maneira e de acordo com o seu olhar sobre como agir nas situações impressas na tela.

Desde antes da primeira cena é possível sentir a atmosfera de "Exilados". O som de um chocalho de sinos é ouvido num lento crescendo, enquanto a tela escura nada mostra. A importância do som será explicada adiante, mas logo que a imagem aparece, vemos uma mão batendo numa porta. É a deixa para o enredo que se inicia, enredo este que não se preocupa com coerência ou verossimilhança. Logo neste início, temos uma primeira citação a Leone: os capangas enviados para matar um "dissidente" da gangue lembram o pistoleiro "mau" e sua primeira aparição em "Três Homens em Conflito", quando ele assassina toda a família a sangue frio.

Esta será apenas a primeira semelhança entre muitas. Johnnie To se utiliza de mis en scène tipicamente "leoniana": os enquadramentos, a música ora calma, ora explosiva, os tiroteios rapidamente definidos, a suspensão do tempo (percebida especialmente na seqüência final, quando a lata de energético é arremessada ao alto enquanto o conflito se resolve no chão). Tematicamente, também há traços de Leone: a nulidade das autoridades oficiais, a atitude feminina ativa frente à tragédia (o que nos remete à personagem de Claudia Cardinale em "Era uma Vez no Oeste").

E há o companheirismo. Quando "Exilados" começa a se parecer apenas um mastigado de citações (incluindo também aí a estilização da violência de Sam Peckinpah), entra o fator ético. Os personagens centrais do filme (cinco homens de uma mesma facção) têm características que causam certo estranhamento. Basta o corte para uma foto antiga, sem cores, e o espectador entende serem aqueles homens não só capangas. São amigos de longa data, possuem uma vida juntos, parecem dispostos a se sacrificar um pelo outro. Num discreto lance de linguagem, sem explicitar nada através da palavra, Johnnie To nos apresenta um passado de alegrias e camaradagem – prestes a ser quebrado pela possibilidade de desistência por parte de determinado membro do quinteto.

As ações do grupo vão se acumulando e mostrando, a cada instante, que eles não querem matar o amigo. Desde a arrumação dos móveis na casa, o jantar, a aceitação de uma missão final, a preocupação com a esposa e o bebê recém-nascido, a cabine fotográfica, tudo se conjuga para a imensa solidariedade e compaixão existentes entre os companheiros. O poder, a facção, a lealdade profissional, não suplantam o carinho. Isso não os torna menos selvagens: todos são rápidos no gatilho quando é preciso atirar e se defender – inclusive defender-se entre si. Isso novamente nos leva a Sergio Leone e ao trabalho de sua vida, o épico "Era uma Vez na América", lançado um ano antes do italiano morrer. A saga de mafiosos judeus tinha todas as jogadas típicas da vida criminosa, mas também guardava as ações fraternas entre os envolvidos.

To vai por este caminho, mas não hesita em deixar claro que, na hora final, não existe salvação nem redenção. Assim como já o fizera em "Eleição – O Submundo do Poder", o diretor define o destino de seus personagens a partir da briga por poder e dominação. É onde entra a política de seus filmes: por mais que o bandido queira manter o coração puro (ao menos a pureza possível dentro das regras de uma organização criminosa), as circunstâncias ao redor não permitem. São necessários sacrifícios, dor e morte – aqui, no caso, muitas mortes. Nada disso, porém, vai apagar a camaradagem. Não é por outro motivo que To fecha "Exilados" novamente com a imagem dos cinco amigos ainda jovens. Companheiros para sempre.
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