PONTE PARA TERABÍTIA:


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Original: Bridge to Terabithia
País: EUA
Direção: Gabor Csupo
Elenco: Josh Hutcherson, AnnaSophia Robb, Zooey Deschanel, Robert Patrick, Bailee Madison, Kate Butler, Devon Wood, Emma Fenton, Grace Brannigan, Latham Gaines, Judy McIntosh, Patricia Aldersley.
Duração: 95 min.
Estréia: 19/03/07
Ano: 2007


Escapa, por pouco, do comum.


Autor: Cid Nader

No mínimo curioso pensar em analisar uma primeira obra de um diretor quando esse trabalho foi realizado quando ele já pode ser considerado uma pessoa madura (cronologicamente falando, evidentemente) nos seus 55 anos de idade. Curioso para aqueles que insistem em ter de analisar a vida artística pregressa dos diretores, para poderem tentar entender seu trabalho dentro de contextos onde se pode compará-lo a outras escolas, outras inspirações, outras possíveis referências. Com certeza, deve ser mais fácil tentar se fazer tal tipo de análise, quando de obra inicial, no momento em que se constata que o realizador ainda é jovem, o que justificaria mais facilmente tal insipiência. Quando se pega o currículo de Gábor Csupó (húngaro de nascimento) e se constata que sua ligação com cinema está muito mais voltada a produções de animação – ainda mais feitas para televisão -, e que de mais famoso em sua trajetória está a produção executiva e supervisão de animação de alguns episódios do Simpsons, não restam muitas pistas para localizá-lo e colocá-lo sob lupa mais invasiva. Outra curiosidade a seu respeito é que, aparentemente, um se seus maiores orgulhos é ter aprendido a língua inglesa lendo os encartes dos discos do gênio da raça, Frank Zappa.

Ultrapassadas essas dificuldades de vinculação, o mais interessante acaba por parecer fixar atenção somente no filme (filho único), sem penduricalhos a tentar conduzir a análise em sua solidão e vida própria. “Ponte Para Terabítia" é baseado no livro homônimo escrito em 1977 e escrito por Katherine Paterson. Conta a história de dois pré adolescentes, Jess Aarons (Josh Hutcherson) e Leslie Burke (AnnaSophia Robb), e seu dia-a-dia numa típica escola do interior dos Estados Unidos. Jess, o moleque boa praça, meio isolado nesse momento de troca de fases (infância para a adolescência), vive o eterno terror – parece coisa institucional, dada a evidente repetição de sistemática – de estar sempre sendo testado por colegas de classe maiores, mais forte e mais tacanhos também. Leslie, a garota filha de escritores, recém chegada à cidade e à nova escola, que aparece como diferenciada quando comparada aos novos colegas,por atitudes intelectuais e físicas também.

A partir de tal introdução de personagens, o filme passa a tentar situá-los dentro do que a história tem a contar, e o que se torna evidente ao primeiro olhar e às primeiras impressões sentidas é que a composição das personalidades são muito fruto das tais cartilhas que regem – cada à sua maneira –, com normas pré-estabelecidas, o modo de conduta e construção de dos habitantes de uma trama em cada uma de suas situações específicas. No caso desse filme, a situação específica é a dos personagens mais sensíveis e "diferenciados" que tem têm de lutar contra a barbárie exercida pelos mais fortes (fisicamente) e mais fracos de raciocínio – ou inteligência (em proporção diametralmente oposta de valência). Fato comum e repetido exaustivamente em filmes de tal tendência. O que poderia diferenciar este de outros do gênero? Algumas diferenças existem, sim. Uma delas, a mais aparente que se instala já praticamente desde o início, tem a ver como o modo de escape optado – ou encontrado – pelo jovem casalzinho, que descobre um recanto isolado na outra margem do bucólico rio do local e faz de lá seu local de fuga, isolamento e reconhecimento mútuo, potencializando a descoberta com a invenção de um mundo particular e fantástico, habitado por seres de matiz lendária. O filme ganha algum charme com essa possibilidade, e o modo de animação para a apresentação dos seres não humanos é sutil e pouco invasivo. Ponto para uma das razões de diferenciação.

Outro fator que o distancia um pouco de outros é a carga de personalidade de personagens adultos, que não os homogeneíza, e, sim, evidencia sutilezas que terão sua vez no decorrer da trama - não são só os pais, mas uma professora mais despachada de música que será de intervenção decisiva ao fato mais importante e conclusivo do filme, cabe até notar, que os únicos momentos em que as diferenças são amainadas entre os adolescentes ocorrem durante as aulas dessa professora. A irmãzinha é muito "ok" e o cachorro que entra na história também. O filme tem altos e baixos, apesar desses detalhes que procuram distanciá-lo da mesmice. Tem peso – no mal sentido – quando arrasta algumas situações ao modo manipulador imposto pela "cartilha" - existem, também, e são facilmente identificáveis.

Mas poderia ser todo reavaliado e discutido pelo seu desfecho: de forte impacto e que arrancará lágrimas sinceras. Existe um momento decisivo no filme. Como seria de se esperar, há a busca da catarse. Mas ela não vem a qualquer preço e nem sei poderia definida como tal ou como anti-catarse. E esse momento decisivo teria todos os elementos para afundar um trabalho que caminhava, até então, numa corda bamba. Seria fácil cair no mundo da pieguice, jogá-lo na condição de dramalhão deslavado e sem-vergonha. Mas o diretor húngaro, Gábor Cspó, soube como resolver essa má tentação que se apresentava, dentro de um quadro de tênue diferença – entre o louvável e o execrável -, com um não "mostrar", com um sugerir, com um fazer compreender através da dor da não presença. Parece vago o que digo? Mas é que consideraria um pecado revelações desse teor para quem resolve ler críticas antes assistir aos filmes. Sei que muitos críticos o farão. É questão de opção. Confio na possibilidade de ter entre os leitores aqueles que vão desinformados para a sala de cinema.
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