SCOOP - O GRANDE FURO:


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Original: Scoop
País: Reinoi Unido / EUA
Direção: Woody Allen
Elenco: Scarlett Johansson, Woody Allen, Hugh Jackman, Ian McShane, Romola Garai.
Duração: 96 min.
Estréia: 19/03/07
Ano: 2006


Ligeiro demais


Autor: Cid Nader

Curioso que Woody Allen – um nova-iorquino convicto que poderia constar no calendário turístico da cidade como uma de suas atrações, devido sua ligação a ela, que, aliás, também serviu de palco para quase toda a sua cinematografia – tenha optado por Londres para realizar seus últimos filmes, sob pretextos de que a mudança de ares e travessia do oceano se dera porque a capital inglesa lhe oferecera mais dinheiro para concluir suas realizações, e que o orçamento de "Scoop" tenha girado em torno de meros US$ 4 milhões (algo fácil de se conseguir até no Brasil e que não representa mais para nós quantia avolumada e considerável). Como resultado dessa empreitada transoceânica de Woody, já havíamos ganhado, ano passado, "Match Pont". O que poderia ligá-lo mais diretamente a esse novo trabalho seria, por exemplo, a direção (obviamente), o fato da capital londrina sendo utilizada como palco para o desenvolvimento da trama (obviamente, novamente), e a re-escalação da jovem musa Scarlett Joahnson, no papel da estudante de jornalismo, Sondra, para o papel principal.

Ligadas as similaridades mais aparentes, resta a constatação de que dessa vez o diretor quis ousar menos, ir menos aprofundadamente às discussões. Se em "Match Point" o que se viu foi uma história "dostoyeviskiana", com pitadas de humor psicológico entremeado com discussões de caráter social e de posicionamento social (com ambições exercidas a ferro e fogo em busca de um topo, de reconhecimento), com construção bem elaborada e carga mais pesada do roteiro, dessa vez o que se poderá perceber é que Woody Allen adotou um tom mais ligeiro, de comédia (mais ou menos) que não é afim de discutir perfis mais detalhadamente. O que aconteceu, é que resultou um filme ligeiro, com gags e trapalhadas dignas dos melhores momentos do Allen ator e algumas piadas elaboradas bem ao seu estilo. Nada contra, aliás, a filmes/comédias ligeiros, ainda mais quando embalados e executados por um diretor de reconhecido talento para isso. Só que despretensão tem um preço a ser pago. E o filme paga uma moeda um tanto mal gasta quando opta por construir essa ligeireza, também a custo de algumas mal resolvidas seqüências.

Há um evidente comodismo na construção de alguns momentos, que se iniciam e acabam atropeladamente como que para poupar tempo de película. Algumas conversas que desencadearão em momentos mais tensos são superficiais, não questionam ou incluem discussões um pouco mais completas para chegarem a um final que, esse sim, será o motivo deflagrador da tal "seqüência tensa ou importante". Há diálogos que são visivelmente mal imaginados, fracos, que servirão de gancho, mas de pouco teor "inteligente" – pecado quando vistos num filme desse diretor, que tem entre suas virtudes a de ser capaz de obras de arte bem verbais, questionando em toda a sua obra algumas instituições, de maneira recorrente, e fazendo com que esses questionamentos ganhassem marca na história do cinema justamente pela qualidade superior da construção literária deles.

Se não é para se contar com "qualidades inteligentes" em diálogos condutores num filme seu, o que restaria? Restou, na realidade – e daí não poder dizer que o filme não preste ou deva ser esquecido no meio de uma carreira tão profícua – que algumas outras características conseguiram se apresentar e fazer-nos notar que o diretor estava por trás do projeto. Existem momentos de humor impagável, resultados da marca de ator de Woody. Alguns momentos em que fala de sua religião (constante e marca registrada) e quando compara algumas situações da elegante "civilização" londrina em oposição ao seu lugar de origem nos Estados Unidos. Ele no papel de um mágico meia-boca, que acaba por envolver-se com Sondra por conta de uma intervenção sobrenatural que vem para acusar Peter Lyman (Hugh Jackman) de principal suspeito numa série de assassinatos de prostitutas; com cabelos lisos e pretos, detalhe.

O fato de passarem a freqüentar a casa de milionários, por conta da "paixão" entre o jovem casal, é suficiente para que Allen se resolva na frente de suas câmeras como aquele grande ator de gags que é. Ele conta piadas, realiza humor físico, no que é mestre (impagável a seqüência em que dirige em alta velocidade sem conseguir se adaptar direito à "mão inglesa"), tropeça, gagueja e inventa situações impensáveis ao ter de criar um falso personagem diante da alta sociedade. Há a beleza estonteante de Scarlett, também admiradíssima pelo diretor e o momento no além, na barca que leva os recém-mortos, conduzida pela figura conhecida da "Morte", de onde se imaginava – até então - impossível a fuga. Portanto, e novamente: não é de se jogar fora totalmente, já que assumidamente um filme ligeiro. Mas peca gravemente por acreditar que tal necessidade de fugacidade possa significar descuido, impune, nas falas intermediárias.
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