MARIA ANTONIETA:


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Original: Marie Antoinette
País: EUA
Direção: Sofia Coppola
Elenco: Kirsten Dunst, Jason Schwartzman, Judy Davis, Rip Torn, Rose Byrne, Asia Argento, Molly Shannon, Shirley Henderson, Danny Huston, Steve Coogan, Aurore Clément, Jamie Dornan, Marianne Faithfull.
Duração: 123 min.
Estréia: 16/03/07
Ano: 2006


"Maria Antonieta" – construção que realça um período da vida humana.


Autor: Cid Nader

"Maria Antonieta" deixa algumas possibilidades de avaliação a serem consideradas: pode ser entendido pelo prisma da obra cinematográfica em seu modo de construção e visto por esse aspecto temos uma grande obra; pode ser visto como um estudo da insanidade que jogava crianças na direção do poder pelo simples fato da manutenção de status ou domínios ou, numa terceira possibilidade, como se fosse uma emissão de opinião – pura e simplesmente – da diretora que, aparentemente, estaria defendendo um regime monárquico ou um saudosismo de tempos tão glamurosos quanto desumanos para os seres comuns.

Sofia Coppola já angariou para si uma certa aura de diretora cult, queridinha mesmo, com uma carreira de, até então, apenas dois filmes, "Virgem Suicida" e "Encontros e Desencontros". Com o seu segundo trabalho alcançou o céu, via orações de agradecimento originadas da crítica e da cinefilia mais exigente. Tal exagero de opiniões tem muita razão de ser, a diretora mostrou-se diferente da mesmice imperante e ousada o suficiente com suas sutilezas e pequenos trechos de "filosofia" pura, embutidos no famoso filme rodado em Tóquio.

Portanto, é valida a tentativa de uma espécie de destrinchamento do filme, fazendo com que tais possibilidades de variados prismas não convirjam, e, sim, mantenham-se independentes, na esperança de situá-lo melhor dentro de alguns contextos diversos: seja como peça de opinião política, seja como trabalho muito voltado ao experimentalismo estético, seja como obra questionadora de vilanias cometidas contra jovens indefesos e sem maturidade suficiente para as posições de poder a que eram galgados.

Se visto como tomada de posição da diretora quanto a assuntos referentes a regimes monárquicos ou coisas semelhantes, como um olhar plácido, contemplativo, conivente e até saudoso (embora nunca vivido) - e o filme até pode passar esse tipo de impressão -, "Maria Antonieta" pode vir a assustar. Sofia Coppola constrói uma espécie de mosaico de várias camadas que perpassa a vida da ex-monarca, algumas absolutamente compreensíveis a olhos questionadores - há a garotinha que chega na corte francesa para servir de esposa ao jovem futuro rei, Luís XVI, e que não está preparada, obviamente, para tal cargo e carga, acabando por tornar-se alvo das fofocas, brigas familiares, fofocas e imposição de etiquetas esdrúxulas - mas essas camadas ganham uma aura de cumplicidade simpática pelo "humanismo santificado" imposto ao jovem casal real. Com o decorrer da película, as atitudes de realeza são invariavelmente colocadas para a platéia de um modo esperto, através do truque de isolar as figuras centrais (principalmente Maria Antonieta) das atitudes mais antipáticas e cruéis que partem dos mandatários daqueles períodos históricos. A partir do isolamento dessas figuras, passa-se a não questionar situações divulgadas através dos séculos e se incuti nos discursos, pequenas falas e atitudes dos personagens centrais, uma "bondade soberana de berço". Não há atitudes deles que suscitariam ostensivamente, por exemplo, o movimento popular que resultou na revolução e conseqüente fuga. Na fuga do casal, todos são muito dignos. O que chama a atenção é que, na realidade, são muito dignificados pelos traços da diretora. Algumas falas são reinterpretadas aos nossos ouvidos – como a famosa resposta da rainha que teria dito para se dar brioches, quando o povo reclamava da falta de pão, e que no filme é tida como falsa. Agora, é de se considerar, também, que Sofia Coppola parece não ter inventado tais re-interpretações que me chamaram a atenção. Ela baseou seu filme no livro sobre a vida da monarca escrito pela historiadora Evelyne Lever, de tendência muito mais simpática e humanizante.

Mas, deixemos de tentar imaginar o que pensa a diretora sobre política e passemos a pensar no trabalho como realização cinematográfica. E aí surge um grande filme. Ousado e quase irretocável. Sofia foi ousada no modo de filmar, na claridade obtida pelas suas lentes, nas cores que remetem ao imaginário de quão vivas deviam ser elas no império francês. O filme, em seu início, explode em cores e luz, de modo agressivo e impressionante. Existem grandes e amplas tomadas externas que dão a real noção do espaço físico habitado pelos personagens. Em contrapartida, as cenas (principalmente as iniciais) são curtas, construídas à base de muitos cortes e edição quase frenética, mas não chega a ser frenética já que tal velocidade vem em benefício do trabalho, de modo a deixar claro que a intenção da diretora é a de contar a história de uma adolescente - afinal - que estaria por vontade própria mais disposta a brincar com bonecas e amigas do que de servir de mãe dos prováveis futuros reis da França. Kirsten Dunt foi uma escolha das mais felizes, por seu jeito eternamente jovem, sorriso mais para o enigmático do que para o escancarado, beleza não convencional. Os momentos de construção que transitam entre a fuga de Maria Antonieta do ranço emanado pela realeza – quando passa a nutrir amizades plebéias e divertimentos mundanos – e o seu amadurecimento, obtido tanto pelo surgimento dos filhos, quanto pela descoberta do verdadeiro amor, num famoso caso extraconjugal, diferenciam-se por novas "velocidades", luzes e cores que vão se avolumando ao já notável pacote técnico inicial.

Junte-se a isso a trilha sonora do filme, tocada por bandas atuais, com ritmos atuais, que embala pertinentemente os jovens momentos dos personagens centrais. Ouvi reclamações quanto à "atemporalidade" das músicas, mas as imagino com um trunfo importante da diretora, não interferem no tempo/cenográfico/histórico, estão como trilha e não como imposição de esquisitices ou intervenção direta nas imagens e na cenografia de época, são boas e emprestam uma dinâmica apropriada a jovens, em atitudes por vezes expansivas e por outras contidas e ensimesmada. Além do mais, compõe muito bem com as opções estéticas da diretora, fazendo-se mais uma das razões da qualidade superior do trabalho.

E há o modo como se mostra a angústia do ser que não queria estar lá, não queria ter perdido o resto da infância, mas que se curvava ante a imposição dos padrões e das normas de manutenção de status. Conformada e tristemente, Maria Antonieta vai sendo construída dentro da película e sua luminosidade – muito também por conta da performance maravilhosa de Kirsten – varia em paralelo às variações de luz do filme. Sofia tenta entender o ser humano e tenta fazer com o que entendamos junto com ela. Ela consegue. E esse mérito, essa observação inteligente das mazelas do poder sobre o futuro de alguém – mesmo quando incidem em seus próximos – é outra das grandezas que o filme traz em si, e é mais uma maneira de colocar a diretora como alguém diferente no cinema atual. O que resta de mais impressionante é o quanto alguém pode fazer de bom, misturando qualidade no ofício e senso de compreensão humana.
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