SHADOWS:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: EUA
Direção: John Cassavetes
Elenco: Ben Carruthers, Lelia Goldoni, Hugh Hurd e Anthony Ray
Duração: 87 min.
Estréia: 09/03/07 (Reestréia)
Ano: 1960


Primeiro trabalho. Primeiro insite de genialidade, de quebra, de invenção, de ousadia.


Autor: Cid Nader

John Cassavetes dizia ao que vinha, sem medo de ser feliz, já desde essa sua primeira obra. Ousadia ou erros? Ousadia e erros. E isso é que é o mais bacana. Um diretor jovem que apresenta as referências, na meca do cinema de entretenimento, sem nenhuma vontade de comportar-se recatadamente diante de uma das vertentes dos mestres da arte. Nessa sua primeira incursão dá para perceber nitidamente a cabeça de um jovem fervilhando e cheia de idéias ante a possibilidade de passá las adiante. Cassavetes não se faz de rogado e empurra pra cima de todos suas concepções estéticas inovadoras, seus cortes velozes e por vezes esdrúxulos, sua montagem rápida e com um monte de equívocos.

Já denota uma inequívoca diferenciação quanto à escolha musical que emoldurará toda sua obra vindoura. Nesse, o jazz é contínuo e de tendência "jam" – tão improvisado quanto momentos de composição do filme. Mas aí já dá para "denunciá-lo" como enganador adorável. Ninguém em sã consciência é capaz de imaginar o jazz, executado em sessões de improviso, como algo que venha somente da intuição. É muito real a capacidade inata da maioria dos músicos, tanto quanto é real a sua dedicação, o seu conhecimento "acadêmico" – mesmo que autodidata -, a dedicação ao aprendizado empreendida para poderem se aventurar de cabeça nas tais jam-sessions. Tanto quanto fica evidente que a tal improvisação de John não é fruto apenas de benção divina. O que ele faz na mesa da montagem, o que ele ousa com câmera na mão, o seu trabalho íntimo com os atores, tudo isso, evidentemente, só pôde ser "ousado" por conta de seu conhecimento do ofício.
Logicamente que tanto arrojo em um trabalho inicial, meio caseiro e feito com a ajuda de amigos, carregaria em seu resultado final alguns erros. Há umas tomadas meio malucas demais e o corte – algo que ele acabou por institucionalizar depois, fazendo dele uma espécie de assinatura –, sem nenhum tipo de desculpas a pedir, retalha momentos, tomando o lugar da atuação como divisor. Muito disso era exercício e se fixou como norma em seus filmes, e com o tempo, evidentemente mais domesticado, só confirmou um talento que já nascia explosivo e genial. "Sombras" já iniciou arrebatando o Prêmio da Crítica no Festival de Veneza.

O filme fala de racismo. Cassavetes, à frente, sempre viria a demonstrar uma certa predileção por contar a história dos negros, ou por introduzi-los em seus filmes como quem não quer nada, mas com nobres intenções. O filme fala da tentativa de amor inter-racial. Fala também do negro não tão "escuro" que quer ser aceito do outro lado, que prefere as artes "brancas", as festas "brancas" e que se ressente um pouco de sua condição. Fala daquele que reage quando se percebe em "território inimigo", se ressente e pede perdão por amor. E tudo isso só para servir mais uma vez de exemplo da comprovação do quanto o diretor era "antenado" e atento ao que acontecia em sua época. Seu trato humanista à questão superava de alguma maneira o modo pelo qual diretores europeus enfocavam temas de desigualdade.

O diretor não julga ninguém, não manipula, não "maniqueísta" o assunto. Também não se apieda. Deixa as coisas rolarem e capta os sentimentos conturbados ou constrangidos de modo muito próximo com suas lentes. As feições, as reações, os temores revelados por olhares, são quase que invadidos por sua câmera, e isso, por si só, já se faz suficiente para evitar pretensas conclusões externas – mesmo que carregadas de bondade.

A atriz Lelia Goldoni (Lelia) é um espetáculo à parte, com seu sorriso, sua desenvoltura, suas mudanças de ares. Emociona ao extremo com um simples baixar de olhos numa dança, próxima do final do filme. Seu personagem é belo, singelo, sonhador, indeciso, esperançoso... Parece que flutua acima do bem e do mal durante todo o transcorrer da película
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