A INACREDITÁVEL BATALHA DOS AFLITOS:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Beto Souza
Elenco: Documentário
Duração: 87 min.
Estréia: 09/03/07
Ano: 2006


Inacreditável: a Batalha dos Aflitos


Autor: Marcelo Lyra

O documentário de Beto Souza (Neto Perde Sua Alma) usa imagens da campanha do Grêmio em 2005 para contar a história da conquista mais heróica de seu time. O ano de 2005 tinha tudo para ser um dos mais vergonhosos do Grêmio de Porto Alegre. Rebaixado para a segunda divisão do campeonato brasileiro, ele iniciou nesse ano uma longa e irregular jornada para tentar voltar à divisão de elite. Depois de se classificar para o quadrangular final, ele chegou ao último e decisivo jogo contra o Náutico (de Recife) precisando apenas de um empate para ser vice-campeão e conquistar a segunda vaga.

Só que o jogo era em Pernambuco. Para complicar, o Grêmio teve um jogador expulso no início do segundo tempo. Como se não bastasse, bem perto do final, aos 35 minutos, o juiz marcou um pênalti inexistente e deu início a uma confusão. Revoltados diante do que poderia ser o final do sonho de chegar à primeira divisão, os jogadores cercaram o juiz aos gritos. Ele expulsou mais um jogador, que o havia peitado. Em seguida outro. Nada do tumulto se acalmar. No empurra-empurra, ele expulsou mais um. Depois de quase 20 minutos de paralisação, quando parecia que o time do Grêmio ia abandonar o campo, tudo se acalmou e o juiz colocou a bola da marca do pênalti, autorizando a cobrança.

Com apenas sete jogadores em campo, um pênalti e a torcida a seu favor, a sorte estava selada. O Náutico tinha tudo para golear o Grêmio. Mas quem disse que milagres não acontecem mais? Galatto, o goleiro do Grêmio, pegou o pênalti. Na jogada seguinte, o jogador Ânderson, do Grêmio, um garoto que mal tinha 18 anos saiu num contra-ataque. A defesa do Náutico acompanhou-o com a tranqüilidade de quem tinha onze em campo. Não haveria dificuldade em parar o solitário atacante que rumava pela esquerda em direção ao seu gol. Mas Ânderson estava em seu minuto de Pelé. Driblou três zagueiros, ficou de frente para o gol e chutou: gol! O silêncio que se seguiu só não foi maior que o do Maracanã na derrota para o Uruguai na Copa de 50, porque havia uma pequena e barulhenta torcida do Grêmio no estádio. Ela vivenciava uma euforia talvez nunca vista em um estádio. Nos dez minutos seguintes, os jogadores do Náutico, psicologicamente derrotados, mesmo em maioria, não tinham organização para fazer um golzinho sequer.

Até aqui esse texto mais parece uma crônica futebolística do que uma crítica de cinema. Mas esse preâmbulo se faz necessário para que o leitor entenda o quão rara e dramática foi a vitória do Grêmio. De tão surpreendente, os narradores da Globo demoraram quase dez minutos para lembrar que, além de ter conseguido voltar à primeira divisão, com a vitória o Grêmio havia se sagrado campeão da segundona. Só então o hino do tricolor gaúcho foi tocado. Um feito épico como esse não poderia ficar sem um registro cinematográfico.

O diretor Beto Souza, gremista de carteirinha, chamou o jornalista Eduardo Bueno (conhecido como Peninha, outro gremista inveterado) para escrever o roteiro. O resultado é um documentário apaixonado, que resgata o momento histórico, fazendo um rápido resumo da campanha do Grêmio até o inesquecível desfecho. Torcedores famosos e anônimos descrevem o que sentiram durante a partida.

O filme começa bem, com algumas boas sacadas, como o torcedor que diz algo como que daqui a alguns anos vão dizer que o Grêmio jogou com cinco jogadores e venceu por quatro a zero. Também impressionam as imagens das ruas de Porto Alegre completamente desertas durante o jogo (já que, além dos gremistas, os torcedores do Internacional queriam secar). Souza alterna cenas dos jogos com depoimentos de torcedores e uma narração em of, procurando recriar a emoção que antecedeu a partida em questão. Muitas imagens filmadas diretamente da televisão, o que cria uma textura original, reafirmando a partida como um evento essencialmente televisivo.

O maior problema é justamente o gremismo excessivo, que quase o torna um filme de o torcedor. A maioria das frases são adjetivadas: jogadas geniais, vitória gloriosa, gol heróico, defesa valente, cada cena em que o tricolor está em campo é narrada com um dispensável adjetivo em favor da glorificação do Grêmio. É como se o diretor não acreditasse nas imagens. A visualização das cenas e da conquista fala por si. Assim, a narrativa redundante incomoda quem quer apenas ver o fato histórico.

A partir da segunda metade as entrevistas começam a se tornar repetitivas e a rotineira interrupção das cenas de jogo para as entrevistas torna-se maçante. A tentativa de se criar um suspense em torno das jogadas torna-se cansativa e atinge o ápice no lance do pênalti derradeiro. Entre sua marcação e a cobrança, o espectador tem de aturar várias entrevistas. Gremismos à parte, o filme faz uma boa crônica dessa conquista, que um torcedor considera, com justiça, mais importante para o time que o Mundial em Tóquio, em 1981. A vitória contra todas as adversidades possíveis, quando o time parecia não ter mais forças e já era tido como derrotado, ao ponto dos vizinhos torcedores colorados soltarem seus rojões, adquire contornos épicos, tornando-se inesquecível e até lendária. Transcende assim os limites dos torcedores gremistas. O filme pode (e deve) ser visto por todos os que gostam de uma boa história de futebol.
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