A GRANDE FINAL:


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Original: La Gran Finale
País: Espanha / Alemanha
Direção: Gerardo Olivares
Elenco: Atibou Aboubacar, Ahmed Alansar, Tano Alansar, Abu Aldanish, Kenshleg Alen Khan, Mahamadou Alzouma, Boshai Dalai Khan, Khoshibai Edil Khan, Mohamed Hassan Dit Blinde.
Duração: 85 min.
Estréia: 09/03/07
Ano: 2006


Ignorância x revelações


Autor: Cid Nader

Tem alguns trabalhos que não podem ser encarados com cara fechada, opinião ranzinza, elucubrações sobre falta de razoabilidade ou acusações de prováveis ações de teor racista ou sectário. São trabalhos que investem na boa idéia e boa índole como suas melhores peças de representação; que buscam na ingenuidade das situações e na reação desarmada e espontânea da platéia como seus maiores trunfos. Pessoas mal-humoradas e "politicamente corretas" talvez não devessem assistir a esse filme, que não se preocupa muito em mascarar as intenções beligerantes e segregacionistas que existem entre alguns grupos étnicos (somos humanos, não? Portanto sempre pré-dispostos a uma boa briga) – muito ao contrário, faz delas seu caminho para arrancar risos – e muito menos em ser totalmente fiel na maneira de retratar seu modo de vida e habitat.

Se bem que, com vagar e sem discursos panfletários, por alguns instantes do filme alguns "toques" acabem por ser dados e recados passados. "A Grande Final" tenta mostrar como três grupos, vivendo em regiões isoladas do planeta – isoladas em relação ao que entendemos rasteiramente por "civilização" – se prepararam para assistir à final da Copa do Mundo de Futebol de 2002 (que afinal acabou com a vitória do Brasil sobre a Alemanha). Para tentar tal empreitada o diretor Gerardo Olivares optou pelo tom de comédia – por vezes é mais fácil ganhar empatia e afastar rancores quando se utiliza tal estilo no trabalho – e surpreendeu pela qualidade das atuações obtidas de não atores e, mais complicado ainda, oriundos de regiões com pouco contato com a cultura e modo de pensar e agir "branco" da humanidade. As peripécias são obviamente estendidas ao máximo em suas dificuldades, com objetivo evidente de se chegar ao final do filme tendo a partida em si como o clímax óbvio. Truque bastante comum em produções do gênero e executado dentro do que ensina a cartilha do gênero. O grande mérito do diretor resultou por conta da cumplicidade que conseguiu obter dos grupos com os quais resolveu trabalhar.

No isolamento da Mongólia obteve grandes e inspirados resultados de fotografia, pela bela maneira como captou o vôo inicial das águias domesticadas; a paisagem incrível da região compõe qualquer cenário de maneira poderosa e a tribo nômade "manda muito bem", com destaque especial para a avó e seus pensamentos filosóficos. No Saara a mistura de algumas outras etnias norte-africanas à dos Tuaregs causa um estranhamento interessante a quem não imagina diversidades tão acentuadas na região (o eterno mal do qual nos ressentimos quando percebemos europeus ou norte-americanos confundindo-nos com argentinos ou guatemaltecos, voltado contra os da África, por exemplo, imaginados por nós como uma única "entidade"): o caminhão lotado e colorido no meio da brancura do deserto e a "pose" do líder com seu guarda-chuva são bastante bacanas, elucidativos e emblemáticos para fazer-nos notar "coisas". E aqui no Brasil, em nossa floresta Amazônica, o diretor conseguiu um feito mais apreciável ainda: escolheu representantes de uma das tribos mais isoladas da região e de comportamento notoriamente violento para os nossos padrões – os "Kaapor" são designados por lá como caçadores de Guajás (uma outra tribo) - e de atitudes de retaliação respeitáveis (dados que me foram passados por um grande conhecedor das etnias indígenas, o Paulo "Xingu" Bagdonas). Conseguiu uma colaboração por parte deles inimaginável em tempos mais antigos; que resultou em momentos ternos, de beleza incomparável.

O que sobrou para a apreciação, foi um filme com "preconceitos", situações impossíveis, e algo mais. O que ficou, além do resultado simpático, ganha importância quando imposta uma velada denúncia ao desmatamento na Amazônia, ou quando comenta o caos que resultou do fiasco do império soviético, ou quando remete, ainda, às eternas promessas falsas que embalam os sonhos dos ex-colonizados da África. Para completar, mais bacana ainda, é o tom politicamente incorreto que passa à "posteridade" a seguinte mensagem: os "maus" do filme torcem pela Alemanha.
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