SONHOS COM XANGAI:


Fonte: [+] [-]
Original: Qing hong
País: China
Direção: Wang Xiaoshuia
Elenco: Gao Yuanyuan, Lin Bi, Tang Yang.
Duração: 123 min.
Estréia: 09/03/07
Ano: 2005


Sonho é com um bom cinema, isso sim!


Autor: Cid Nader

Não podemos esperar que tudo que venha da China nos dias atuais – cinema, mais especificamente - seja de boa qualidade. Quando passaram a aparecer fortes no final dos anos 1980, as realizações cinematográficas de lá surgiram com uma carga inevitável do ineditismo de um país fechado há décadas (por conta do comunismo, já que, por tradição, sempre esteve mais tempo fechado para o resto do mundo do que com vontade de trocar influências), como um elemento arregimentador das atenções pra lá de curiosas ante a nova expectativa. Para completar, os filmes vinham com "segundas intenções" implicadas, sub-leituras a serem feitas, de onde se podia depreender que um movimento artístico/contestatório estava em marcha, e que uma das "armas" utilizadas para explicitar esse nascente movimento era ninguém mais ninguém menos do que nosso velho e conhecido cinema.

Já mais próximo da virada do século começaram a aportar em todo o mundo trabalhos que evidenciavam uma certa novidade temática – para nós, obviamente –, trazendo as histórias para os dias atuais, evitando-se assim o "pitoresco" e os temas de época. Tal safra surgia para contar a respeito de uma juventude transtornada, sem esperanças e amargurada; grosso modo, reduzindo essas complexidades a um novo produto originado da meia-abertura do país ao ocidente, com seus cantos de sereia e falsas ilusões. Uma china jovem e sem esperanças passou a tomar conta das telas do mundo, com trabalhos superiores e inquestionáveis – Jia Zhang-Ke talvez seja a figura mais respeitável dessa nova onda de qualidade superior, nobre pela qualidade e, até, imprescindível para quem quer tentar entender pra valer o cinema dos dias atuais.

Mas, nem tudo que tem origem nobre, o é obrigatoriamente. E esse "Sonhos de Xangai" não é um digno representante do que se faz de melhor, hoje, no enorme país do extremo-oriente. Wang Xiashuai – mais conhecido por "Bicicletas de Pequim" – nos conta histórias de descontentamento adulto diante de desmandos e atitudes oficiais, que deslocaram populações de trabalhadores em favor de uma política nova e agressiva de mercado -, e de descontentamentos juvenis, obviamente fruto do eterno conflito de gerações, explicitado no ocidente há mais tempo – tema, também, dos filmes que citei acima, mas realizados de maneira tremendamente mais competente -, e muito mais recentemente no país que se abriu um pouquinho e importou sonhos tipicamentes nossos.

A maneira de contar essa complexidade, porém, não é das mais felizes. O diretor adotou um padrão narrativo semelhante ao que se utiliza em novelas, com carga dramática exagerada – se aproximando dramalhão, mais diretamente -, soluções fáceis, estereotipando personagens que poderiam render "um bom caldo". O modo de filmar é "bonito demais", limpo demais, pitoresco demais: belas tomadas amplas, que conseguem transmitir um misto de grandiosidade geográfica embaladas por saudades de tempos ancestrais. Xiashuai nos revela um país que tinha (ao menos ainda em 1989, época da história) aparência de quem ainda não havia emergido totalmente de tempos razoavelmente antigos – com ruas e mato, ladeiras e chuva, neve e fumaça dos fogões a lenha. Se o filme tem algo de bom é isso: o respeito pelo cenário e a qualidade na captação de suas (do cenário) imagens.

Mas aí a coisa pega e o alarme crítico dispara. Não é possível se imaginar - ou no mínimo eu deveria tentar desestimular - um filme tão "para trás", saído de um país que tem se colocado na dianteira do que se faz hoje. Ver um filme que trata um assunto "tão atual" como se fosse peça do ministério da propaganda ou de algum órgão ligado ao turismo, chega a causar indignação. Se eu estiver a fim de me comover e emocionar "gratuitamente", retornarei ao início dos 80; alugarei um DVD de "Sorgo Vermelho" ou "Lanternas Vermelhas". Se parecem "novelescos" hoje em dia, tem a seu favor serem símbolos definitivos de um momento corajoso e histórico de (re) surgimento. Pensar em contemporâneos como "O Mundo" ou "Still Life", deveria fazer com que o diretor de "Sonhos de Xangai" se enchesse de vergonha. O que resta é uma obra decepcionante e careta.
Leia também: