OS 12 TRABALHOS:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Ricardo Elias
Elenco: Sidney Santiago, Flávio Bauraqui, Vera Mancini, Vanessa Giácomo, Francisca Queiroz, Cacá Amaral, Lucinha Lins.
Duração: 90 min.
Estréia: 09/03/07
Ano: 2006


Os Doze trabalhos" - O que fazer?


Autor: Fernando Watanabe

No início, a voz em over diz sobre uma tela preta: “a gente tem vontade de mudar as coisas”. Corte para plano próximo do olho de Herácles em uma cena em que ele explica seu passado na Febem e o desejo de conseguir o trabalho numa empresa de motoboys. Não, não é seu desejo conseguir o emprego: é necessidade. Introdução sintética que já diz muito sobre o personagem, o tema principal, e sobre o ponto de vista adotado pelo filme: o olhar de Herácles sobre as coisas.

E não é a obviedade de um olhar de ex-interno que guia o filme, mas acima de tudo, o olhar de um jovem que vive em São Paulo, uma maneira de ver que mistura certa inocência (o primeiro contato com certas situações) com perplexidade (incompreensão).

Em uma cena, há um motoboy atropelado e outros motoboys ao redor. Os companheiros de trabalho irão perseguir o culpado pelo acidente, chamam Herácles, ele hesita, e acaba não indo. Sua reação é negar a vingança e adotar a camaradagem, e acaba por ajudar o motoboy ferido. Em outro momento, ele é encarregado pelo primo de pegar a aliança de uma ex-namorada que o primo não quer ver mais. Herácles e a mulher se beijam , mas fica claro que o objetivo dele não é o envolvimento sexual com ela, talvez por imaturidade e insegurança, mas principalmente por respeito e fidelidade ao primo. Herácles é generoso, bondoso. É nosso herói simples do cotidiano, isto é, suas grandes peripécias, antes de serem atos heróicos sobre humanos são questões de atitudes e de posturas, de ética pessoal. Ele é puro, entrando em contraste com os adultos “corrompidos” do filme, sejam eles os outros motoboys, os clientes de classe média alta para quem ele faz entregas, todos ao seu redor.

Ele é um mediador entre filme e espectador. Quando ele entra em uma repartição pública, um outro menino motoboy passa rapidamente para entregar algo, carimbar um papel e se retirar, mecânico e objetivo. Herácles vê tudo, com a perplexidade de quem tenta compreender o que é isso que acontece todos os dias mas nós não paramos com atenção para ver. Na mesma cena, um plano descritivo chama a atenção: do plano geral da repartição passa-se para um plano médio de uma funcionária trabalhando em sua mesa. A ação é parada em favor da descrição de uma figurante qualquer que está ali, algo que numa montagem correta seria proibido. Esse plano é tão significativo por que revela que, se a câmera assumisse por completo o ponto de vista do filme, a abordagem daquele universo seria mais direta. Ao contrário, na maioria dos momentos onde poderia haver descrição, quem vê é Heracles, utilizam-se muitos planos subjetivos, pois é ele quem olha e não a câmera.

Também contrariando uma montagem mais correta e fluida, em alguns finais de cena, a narração dos acontecimentos literalmente pàra, a câmera perde os personagens e hesita, enquadra um espaço qualquer, vacilante. A locução em over sempre descreve algum personagem secundário: “este é fulano, ele faz isso e aquilo, etc”. A voz do locutor é de Herácles, mas no filme não há nada que demonstre como ele possui tamanho conhecimento dos personagens descritos pela voz over. Ou seja, o conhecimento dos realizadores do filme é repassado a Herácles, tornando-o um personagem narrador onisciente, mais do que nunca transportador do olhar e saber dos verdadeiros narradores, os realizadores (roteirista, diretor).

A utilização dos mediadores já é há algum tempo objeto de estudo por parte da crítica. Filmes como Cidade de Deus, Carandiru e Antônia, fazem uso desse recurso, que geralmente tende a criar um distanciamento das situações mostradas, com olhares de quem “vê de fora”. Mas, no caso de “Os 12 trabalhos”, o mediador possui a função principal de relativizar os significados imediatos das situações, de propor uma parada na correria louca de São Paulo e refletir sobe as coisas, de nunca achar normal o tempo escasso e o trabalho movido a dinheiro que estão implantados nas relações interpessoais na grande cidade.

O final aberto deixa toda a problemática do filme sem solução, questão de coerência, pois a impressão que se tem é que, tamanha a atenção aos detalhes cotidianos mostrados, o filme chegou ao seu limite de análise da situação. Está exausto, assim como seu personagem que, ao fim de seus 12 trabalhos, se retira para uma praia onde vislumbra o futuro incerto e experimenta um raro momento de liberdade, condição determinada pelo ambiente, pela fuga da grande cidade. Mas isso não acontece sem que antes ele jogue uns punhados de dinheiro em cima de uma mesa, encarando cara a cara o elemento absurdo que é o dinheiro. Temos no mesmo plano o mediador diante do elemento motor da trama. Herácles termina por observar as notas, hesitar, e finalmente pegar de volta a grana e colocar no bolso. Aquelas notas de papel são nocivas, porém necessárias, e o que fazer para mudar isso é algo fora do alcance do filme, pois fora do alcance de todos nós.

Conformismo derrotista? Exposição não resolvida e incompleta da situação? Covardia? Pragmatismo pé no chão? Desejo de potência reprimido ou ainda imaturo? Determinismo espacial financeiro? Creio que o mais correto é: inconformismo de um olhar perplexo diante da situação diagnosticada. O que virá depois?
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Bom Trabalho