A PELE:


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Original: Fur: An Imaginary Portrait of Diane Arbus
País: EUA
Direção: Steven Shainberg
Elenco: Nicole Kidman, Robert Downey Jr., Ty Burell, Jane Alexander, Emmy Clarke, Christina Rouner, Emily Bergl, Marceline Hugot, Genevieve McCarthy, Lynn Marie Stetson, Boris McGiver, Harris Yulin.
Duração: 97 min.
Estréia: 09/03/07
Ano: 2007


Falta identidade, tomada de posição.


Autor: Cid Nader

Existe um certo inconformismo por parte de alguns setores da crítica, que apontam o dedo acusadoramente para alguns filmes norte-americanos, dizendo que se tratam de produtos que tentam se vender como obras de arte à européia, e que, justamente por isso, são piores do que outros assumidamente "comerciais", ou com interesse desmascarado em atingir a um público específico, sem frescuras ou tentativas de engodo. Conforme caminhava a história contada pelo diretor Steven Shainberg em seu filme, "A Pele", algumas referências óbvias a produtos de "tonalidade" mais artística – de maneira forçada em minha opinião, obviamente - ficavam evidentes e saltavam aos meus olhos (ouvidos, também), e uma certa dificuldade de concentração ante a possibilidade de que alguém tentava me enganar foi complicando as possibilidades de o filme se dar bem ante meu conceito. Prevenção não é uma boa companheira quando entramos para ver algum filme com a disposição de comentá-lo em algum texto crítico. Sinceramente, não fui ver a esse trabalho preparado ou prevenido contra essas possibilidades que passaram a me alarmar conforme a película avançava, mas signos inequívocos me forçavam a resistir e encará-lo de modo mais reticente.

O que poderia caracterizar – rasteiramente – esses possíveis produtos enganadores? A fotografia um tanto enevoada, de nitidez um pouco afetada pela iluminação e cores mais atenuadas, por exemplo. A música que transita por todos os espaços, com certo jeitão de quem não quer ser notada, mas que é tão cheia de "dedilhados" e floreios minimalistas que acaba por se tornar uma parte quase sólida, quase palpável, do filme, como mais um exemplo. As atuações um tanto blazé a mais, contidas e educadas (como se imagina o habitante do velho continente, com suas explosões temperamentais de baixa intensidade – sabemos que clichê puro); outro exemplo.

O filme de Steven Shainberg tenta impressionar com essas características aos espectadores, aproveitando-se do fato de que conta a história de uma pessoa especial, que se afirmou ante o mundo das artes retratando o bizarro, o circense, o não moderno – fácil remeter o imaginário ao continente europeu quando não se trata um assunto com jeito de pragmatismo e "certeza moderna" (aí, mais a cara da América). Nicole Kidman encarna a fotógrafa Diane Arbus, considerada uma das grandes do século XX, que se diferenciou justamente pela atenção dedicada por sua obra ao não comum, ao estranho. A peça se passa perto do final dos anos 1950 e se firma no momento em que Arbus se encanta/impressiona com a figura de Lionel Sweeney (representado de modo para lá de blazê por Robert Downey Jr.), portador de uma disfunção denominada tricotomia, que se caracteriza pelo excesso de pêlos por todo o corpo do indivíduo acometido. Nesse momento de sua vida a fotógrafa percebe que sua função de esposa dedicada não é o suficiente, e aproveita o gancho do surgimento da figura de Sweeney para tentar outras possibilidades; experimentar, ousar.

Visto pelo prisma da mulher que "ganha" sua verdadeira vida após um episódio atípico, que surge como que para despertá-la do marasmo e da acomodação, o filme rende bem. A transformação de um ser acomodado, principalmente quando ligado àquele período histórico determinante do início das grandes mudanças sociais e comportamentais, principalmente entre os sexos, deveria ser sempre motivo de encantamento ou admiração. Não sei o quanto é fiel o roteiro do filme ao livro escrito por Patrícia Borsworth, do qual foi adaptado. Aliás, o quanto pode ser fiel um filme a uma obra escrita; o quanto podemos e devemos cobrar fidelidade quando se adapta um escrito para as telas? Tenho uma opinião muito convicta de que as duas artes são tão individuais em sua mecânica, que para se fazerem ajustadas quando transplantadas para um único meio, fidelidade e respeito ao original são detalhes que não deveriam merecer tanta atenção, ou cobrança.

Visto pelo prisma da obra cinematográfica em si, o filme não se sustenta pra valer. Tenta impressionar ao ameaçar com situações bizarras, com anões que surgem pelo teto, com a figura peluda de Robert Downey jantando num restaurante ou participando de uma festa, com outras que figuras passam a comparecer na tela conforme o filme avança. Mas ao ter optado pelo tom mais "contidamente europeu", percebe-se que os momentos bizarros têm mais cara de fachada, de boutique – fazendo jus ao "fake modo velho mundo". O grande problema é que o trabalho não tem uma identidade definida – se a tem, é falsificada. Vale um pouco pela história contada, mas deixa no ar a suposição do que aconteceria, de imaginá-la, se filmada por Lynch ou Cronemberg.
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