QUART4 B:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Marcelo Galvão
Elenco: Marcos Bueno, Marcos França, Malú Biernenbach, Lívia Doblass, Itamar Lembo, Cesar Birindelli, Rosaly Papadopol, Thereza Piffer, Antonio Destro, Fernanda Couto, Deto Montenegro, Tobin Dorn, Paulo Seabra, Henrique Benjamin, Christiano Cochrane, Edgar Schma
Duração: 93 min.
Estréia: 02/03/07
Ano: 2005


Nota D


Autor: Cid Nader

Não acredito que se possa tentar engrenar uma discussão sobre esse filme dirigido, roteirizado e editado por Marcelo Galvão, reduzindo-a e direcionando-a a um único espaço mais definido, como o é o mundo da publicidade – mundo de onde surgiu e onde foi criado o realizador. Algumas das críticas mais contundentes contra o filme acabaram por perder um pouco de seu possível poderio bélico quando os que as compuseram resolveram trazer à tona a velha e pouco saudável cisão, que procura excluir qualquer membro oriundo do mundo da publicidade da condição de realizar algum trabalho bom quando trafega pelas plagas cinematográficas. Na realidade, quando se opta por um ataque tão óbvio quanto questionável – questionável pela sua não crença na diversidade de opiniões, principalmente em mundos que supostamente andam por trilhos montados sobre normas comuns de conduta -, a crítica perde em confiabilidade e, mais especificamente nesse caso, reduz muito as possibilidades de ataques e questionamentos mais razoáveis.< br />
Outro ponto questionado por quem já havia visto o filme anteriormente, tem a ver com o modo da criação da trama, que coloca a classe média "culta" dentro da berlinda, para executá-la, emburrece-la, "desmascará-la". Enfim: tratá-la à base de doses cavalares de clichê na veia (evidenciando-a através dos mais "manjados" estereótipos). Logicamente que vistos através desse ângulo, os ataques já passam a ganhar uma carga maior de confiabilidade; porque o filme realmente se ampara nessa facilitação, e mais: deixa um tanto nítido que o diretor não se imagina de modo algum dentro dessa fração da classe social, e o que faz ao atacá-la, faz como modo de "lavagem das mãos", como modo de tentar mostrar-se alheio a esse tipo de comportamento esbugalhado pela obra. Como se ele não fosse uma figura oriunda desse mundo e estivesse a cuspir no prato em que comeu. Mas novamente as críticas acabam por perder razão, quando se intui, definitivamente – e não como possibilidade -, que Marcelo Galvão faz tudo isso levianamente, sem que conheçamos seu modo de pensar, seu comportamento no dia-a-dia, sua posição ante a vida. Não quero dizer com isso que tenhamos de conhecer – sempre a fundo e pormenorizadamente - as idéias e origens de todos os diretores de cinema, mas o teor de alguns comentários que acertaram quando citaram a "mesmificação" da classe média no filme, invariavelmente acabaram por conduzir o diretor ao patamar de observador e manipulador que estaria a fim de se "salvar" da possibilidade de ser julgado como um igual aos seus personagens.

O que resta de maneira mais cabal e visível, é que o filme tem graves problemas a serem comentados, sem que, necessariamente, eu tenha de tentar entender o que se passou na cabeça de seu diretor no momento em que o idealizou. Falha gravemente na opção estética da captação das imagens e no seu modo de montagem. Passa a impressão de que foi realizado com um grande atraso no tempo quanto ao modismo da câmera na mão, nervosa e muito justa - grudada - nas feições dos personagens. Lembra alguns trabalhos do movimento "Dogma 95", (mais especialmente "Festa de Família"), e o que resulta ao final é a constatação de que tal modismo não tem cabimento por sua "invalidade" estética – é feio, é cansativo, exaspera – e já deveria ter sido esquecido pelos seres de bom senso. Se houve, em alguns momentos, razões factuais para se exercitar esse tipo de cinema "corrido e balançado" – e as há em alguns filmes atuais -, no caso de "Quart4 B" não colou.

Quanto à história em si, o mínimo que se pode dizer é que foi criada com gosto duvidoso. A discussão proposta pelo filme transita muito na superficialidade de um assunto que tem graves implicações e resultados entre os jovens nos dias de hoje. A impressão que se tem, durante uma boa parte do trajeto do filme, é a de que o assunto foi usado como uma espécie de gancho para se ridicularizar essa tal classe média trintona paulistana – apesar de que se falar em maconha como algo perigoso mesmo, também é questionável. Mas não é assim o tempo todo. Quando lá pelas tantas o filme resolve criar várias possibilidades de situações definitivas à discussão motivadas pela "canabis", ele até que ganha um fôlego novo e um certo respeito – por quem quiser ultrapassar algumas barreiras e enxergar. Com esses vários desenrolar diferentes, o que se percebe é que o diretor conseguiu liberar um pouco do "podre", das neuroses, dos traumas, de seus personagens e indicou uma outra possibilidade de avaliação de seu trabalho. Lógico, que continua um tanto simplista demais utilizar a maconha como o motivador psicanalítico desses desenlaces psíquicos de cada um, mas também enfraquece – um pouco - as opiniões que viam em todo esse embrulho inventado uma superficialidade e um verniz ralo totalmente execrável.
Leia também: