À MARGEM DO CONCRETO:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Evaldo Mocarzel
Elenco: Documentário
Duração: 85 min.
Estréia: 02/03/07
Ano: 2006


O documentário e a sua função social


Autor: Leonardo Mecchi

“À Margem do Concreto” é a segunda parte da tetralogia de um dos mais premiados documentaristas brasileiros dos últimos anos, Evaldo Mocarzel, dedicada a uma São Paulo que existe à margem da São Paulo “oficial”.

Mocarzel aposta na função social do cinema, de conscientização de uma parcela da população e de espaço de expressão para uma outra que, não fosse por esse veículo, permaneceria relegada à invisibilidade. Foi assim em “À Margem da Imagem”, longa de estréia do diretor sobre moradores de rua em São Paulo, e também em “Do Luto à Luta”, documentário premiado em Gramado sobre portadores da Síndrome de Down.

Neste seu mais recente filme, ovacionado no Festival de Brasília, de onde saiu com o prêmio de público, Mocarzel foca sua câmera no movimento social dos sem-teto. Partindo da estatística de que a região central de São Paulo possui uma taxa de desocupação de imóveis próxima a 30%, enquanto muitos paulistanos não possuem um lugar para morar, o diretor busca documentar quem são as pessoas por trás das ocupações de edifícios que, de tempos em tempos, irrompem nos meios de comunicação.

“Como a mídia os rotula de ‘invasores’ e ‘baderneiros’, vários filmes podem ajudar a legitimar uma luta que é digna”, diz o diretor, justificando a alcunha de “anti-reportagem” que ele próprio designou ao filme. Pois é justamente esse o principal objetivo de “À Margem do Concreto”: desestigmatizar as pessoas envolvidas nos movimentos de luta por moradias.

Sente-se falta, para um panorama mais amplo da questão, de um histórico sobre a origem do déficit habitacional e de propostas para sua solução, bem como de depoimentos dos outros lados envolvidos, mas esse foco exclusivo nos integrantes dos movimentos reivindicatórios parece fazer parte consciente da estratégia do diretor. O que temos é simplesmente a exposição de um problema e as motivações e histórias de vida por trás das pessoas envolvidas, em um retrato de força rara em um gênero que costuma priorizar uma suposta imparcialidade acima de tudo.

Os depoimentos dos líderes dos movimentos dos sem-teto impressionam pelo nível de conscientização e organização desses grupos. Longe da imagem de um povo cordial e submisso, eles tomam a responsabilidade por seu destino nas mãos, a despeito das dificuldades impostas pelo poder público. “Às vezes, temos que virar foras da lei para fazer valer a lei”, afirma uma das entrevistadas. A presença maciça das mulheres na liderança do movimento, a propósito, é outro fator que chama a atenção não apenas neste documentário, mas também em “Dia de Festa”, filme de Toni Venturi sobre o mesmo tema.

O discurso dos líderes é por vezes anacrônico (citações a Lênin, Marx e Guevara são freqüentes), mas demonstram que a luta de classes, longe de ter sido extinta pela globalização, continua cada vez mais forte.

Há diversos momentos interessantes no documentário, como os que retratam a auto-gestão dos moradores de prédios ocupados (o que inclui aulas de reforço para as crianças utilizando-se a metodologia de Paulo Freire), a ênfase dada pelas lideranças no termo “ocupação” em contraposição ao “invasão” utilizado pela mídia, o momento em que o diretor reúne todas as lideranças entrevistadas para assistirem reportagens realizadas sobre as ocupações e discutirem a visão da mídia e da sociedade sobre eles, e por último, numa das imagens mais fortes do documentário, uma criança, sonolenta e assustada, chupando o dedo em meio ao choque com policiais em uma ocupação.

E é justamente com uma ocupação real, captada por três câmeras simultaneamente, que Mocazel encerra o filme, num clímax que o aproxima de um thriller. Acompanhamos desde os preparativos, a ocupação do edifício durante a madrugada, a chegada da polícia e o conflito com os manifestantes, incluindo tiros e bombas, em cenas normalmente vinculadas a guerrilhas urbanas em lugares como Iraque ou Afeganistão, mas que ocorriam a poucos metros do Teatro Municipal de São Paulo.

Aproximando-se perigosamente da espetacularização, o final catártico de “À Margem do Concreto” busca na verdade um chamado à conscientização, a uma tomada de atitude por parte do espectador diante das imagens e pessoas que lhe foram mostradas, numa tentativa do diretor de atuar sobre a realidade retratada. Infelizmente, o histórico de documentários sociais de nossa filmografia nos alerta para a ineficiência desse tipo de filme em alterar o status quo de nossa sociedade. Mas a insistência nessa tentativa, apesar das evidências em contrário, não é uma das funções mais nobres do documentário?
Leia também:


Ensinar sobre o outro