MENINA SANTA:


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Original: La Niña Santa
País: Argentina/ França/Itália
Direção: Lucrecia Martel
Elenco: Mercedes Morán, Carlos Belloso e Mia Maestro
Duração: 106 min
Estréia: 12/08/2005
Ano: 2004


"Menina Santa" comprova talento de Lucrécia Martel


Autor: Cid Nader

Esse fenômeno chamado "novo cinema argentino", surgido em meio a mais cruel crise financeira, imaginativo e inteligente, de parcos recursos - na contramão da excessiva criatividade demonstrada - e feito com garra e qualidade remete, invariavelmente, ao mote/combustível do baianíssimo e brasileiríssimo Glauber Rocha: "uma idéia na cabeça e uma câmera na mão".

Nossos hermanitos têm mostrado, a cada leva de filmes que cruza nossas fronteiras que, inteligência, coragem e sensibilidade podem se sobrepor a modismos e à necessidade de utilização de "tecnologias avançadas", adotados por alguns como dogmas na confecção de um bom cinema.

Interessante fenômeno esse, que ganha mais força ainda com a constatação de que seus realizadores retornaram às origens, voltaram-se para si próprios ao filmar a terra natal, descentralizando ao deixar Buenos Aires e pisando em terreno mais seguro - olha o Glauber aí novamente.

Eleger Lucrecia Martel como principal figura dessa gama de cineastas poderia nos levar a cometer um erro de precipitação - devido à sua ainda diminuta obra -, desde que não fosse notória a excepcional qualidade de seu trabalho. Ela transita num diminuto mundo de realizadores autorais: irmãos Dardenne, Kore Eda, Abbas Kiarostami, dentre alguns poucos outros. Nos regala com um modo de filmar particular e instigante, pleno de rigor no estilo - característica de cineastas autorais -, procurando ângulos inusitados, como quando a visão de uma nuca e metade de um rosto com olhar maroto preenchem inteiramente a tela, criando uma atmosfera de culpa, medo e desejo; ou ao perseguir, com câmera na mão, uma corrida amedrontada de três garotas em direção a um pequeno bosque - câmera usada com economia e precisão, que transpira e respira junto com os personagens (nisso lembrando os irmãos Dardenne).

Em seu novo filme, "A Menina Santa", constatamos, com alegria, que sua primeira experiência com longas, "O Pântano", não foi obra do acaso ou sorte de iniciante (iniciante em longas de ficção, já que havia feito trabalhos nos mundos dos curtas e dos documentários). Sua nova realização tem, no mínimo, o mesmo nível - bom, muito bom mesmo -de qualidade da anterior com, talvez, um pequeno salto à frente no quesito "amadurecimento".

Ela cria personagens únicos e peculiares. Existe "Amália", com seu sorriso meio torto, malicioso, assediada na rua por "Dr. Jano", que recita hinos religiosos ao olhar seu assediador na piscina, arrogando a missão de salvar sua alma. Amália que, junto com outras amigas, age de maneira maldosa, por vezes curiosa, por vezes inocente, com a sexualidade sempre em ponto de fusão, como nas brincadeiras com Josefina - sua melhor amiga - ou ao jogar água, "singelas brincadeiras", em garotos de origem indígena. Lucrecia nos apresenta seres de aparência pra lá de comum; na piscina, os corpos de médicos com largos calções e de formas arredondadas; a própria Amália com uma pequena verruga sob o nariz e adolescentes espinhas no rosto.

Disse ela que suas obras não são autobiográficas, mas filma em "Salta", norte da Argentina, onde nasceu, e onde mais se pode notar a mistura de brancos europeus com os índios locais (denuncia em seus filmes a prática, comum, do racismo praticado pelos brancos, com pequenas falas sobre a "inutilidade e lerdeza destes chinos"); cria figuras cheias de culpas, decorrentes da educação monoteísta - no caso, o catolicismo assustador praticado pelos espanhóis, que têm paralelos no judaísmo (sua origem) ou no islamismo (uma derivação). Usa a piscina, como em "O Pântano", com suas paredes descascadas e grades enferrujadas, para enfatizar o que há de mais profundo no inconsciente - sua obra é carregada de tensão sexual.

Há uma cena que liga este ao anterior: ao correrem em direção a um pequeno bosque (como já citado), as meninas ouvem tiros e cruzam por dois garotos que caçam pássaros com uma espingarda. E existem, também, cenas com primor de delicadeza e beleza: no Pântano, duas meninhas cantando e modulando as vozes usando o vento produzido por um ventilador, ou quando uma outra, mais velha, brinca com uma janela, fechando-a e abrindo-a com um pé, criando um belo jogo de luzes e reflexos; já em "A Menina Santa", Amália caminhando com a mão espalmada, roçando janelas e cabeças de criancinhas, ou na cena fecho do filme (sonorizada por ruídos de água e distantes vozes cantando).

”Menina Santa” de Lucrécia Martel é parte inicial de uma obra em construção; obra viva e orgânica, recheada de seres errantes prontos a exteriorizarem sua humanidade; viva e orgânica na sua montagem, composta por tomadas elaboradas, cenários e sons que, por vezes, remexem o nosso íntimo mais profundo, e executada por uma diretora que é acima, muito acima da média.
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